Há 39 anos, Nenzinha é "dona" do último orelhão de Campo Grande
Funcionária já levou até mordida de cachorro para entregar recado em Rochedinho, distrito da cidade
Na beira da MS-010, Nenzinha, ou melhor, “guardiã zen do telefone” e dona do orelhão, mantém com orgulho os 39 anos de história da única estrutura de Campo Grande que ainda funciona. Apesar da carcaça antiga, por dentro a peça é como os telefones fixos comuns, porém no modelo mais novo. Hoje ele funciona de graça, mas nem sempre foi assim no pequeno distrito da Capital.
RESUMO
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Em Rochedinho, distrito de Campo Grande (MS), Maria das Dores de Lima, conhecida como Nenzinha, mantém viva a história do último orelhão em funcionamento da cidade. Aos 65 anos, ela trabalha há 39 anos como guardiã do telefone público, que hoje opera gratuitamente na frente da Unidade de Saúde da Família Dr. Roger Buainain. Inicialmente instalado nos Correios, onde as ligações eram cobradas e cronometradas, o orelhão foi posteriormente transferido para a calçada. Nenzinha também atuava como mensageira, entregando recados de bicicleta pela cidade. O equipamento, operado pela Oi, é um dos 62 orelhões ainda ativos em Mato Grosso do Sul, que serão desativados este ano pela Anatel.
Maria das Dores de Lima conta que começou a trabalhar ali e nunca mais saiu. Na época, ela tinha por volta de 26 anos. Hoje, aos 65, relembra rindo dos “causos” que já viveu sendo a responsável pelos telefonemas e “pombo correio” da cidade de Rochedinho, a 40 km da Cidade Morena.

Por ali, apesar dos anos terem passado, as galinhas ainda ciscam na estrada. Com o orelhão ao fundo, a cena ajuda a compor o cenário do que acabou virando história. Nem sempre ele esteve cravado na frente da Unidade de Saúde da Família Dr. Roger Buainain. Antes, ficava dentro das cabines dos Correios, lugar que, por sinal, Nenzinha trabalha até hoje.
O apelido veio da família e continua um mistério, mas pegou pela cidade, que mal conhece o nome certo de Maria.
"Antes era um telefone normal, antigo, que era cobrado para as pessoas usarem. Tinha duas salas, uma do usuário e outra nossa, dos cobradores. Elas vinham querendo ligar e a gente passava para a cabine e era cobrado a hora. A gente tinha que marcar certinho, ver se era horário reduzido, às 7h e 8h, ou o normal, das 9h às 13h. Não lembro quando passaram o orelhão lá para fora dos Correios. As pessoas ligavam com ficha, depois passou para o cartão e ficou na calçada anos depois."

Nenzinha era a mensageira da cidade, mesmo depois do telefone ter mudado de sistema. Antes, ela andava de bicicleta para encontrar as pessoas na cidade e dar os recados. Hoje, ela fica na sede dos Correios pegando as cartas. Sobre ser dona do telefone, Maria ri e fala que não existe isso, que herdou o título porque é a única que ainda continua da velha guarda.
"A gente ia longe para levar o recado para as pessoas. Não tinha outro meio de comunicação. Não trabalhava só eu, também tinha o que a gente chamava de mensageiro, que levava os recados. Eu mesma trabalhei disso".
Ela conta que até mordida cachorro já teve que levar para conseguir entregar as mensagens "Uma história que ficou marcada pra mim foi quando eu fui entregar um recado, um dia era eu e um dia minha cunhada, e um cachorro me mordeu. Aí parei de levar. As meninas falaram ‘ah, ela é dona do telefone’, mas não é isso, é porque sou a única que estou aqui."
Nanzinha explica que, nos tempos áureos, não era brava ou autoritária, até porque não era dona de nada, mas que a figura de fiscal ainda fica na memória.
“Quando comecei a trabalhar aqui, meus filhos eram todos pequenos, agora o mais velho tem 41 anos. Aqui foi meu primeiro serviço. Tinha que marcar tudo certinho porque a prefeitura vinha recolher o valor. Tinha que estar certinho.”
Os momentos tensos eram quando o telefone estragava e o pessoal ficava semanas sem comunicação. A cobrança era diária. “Às vezes a manutenção vinha e o povo ficava sem. Me perguntando quando iria voltar. Arrumava e o pessoal vinha correndo. Tinha muita gente que ligava.”
Entre as funções dela estava também ensinar quem não sabia usar os telefones públicos a discar o número desejado. A tarefa foi exercida por anos e disso ela também se orgulha. "Teve gente que não sabia fazer ligação, a gente ensinou um monte.”
Ela explica que as ligações acabaram por ali quando o telefone entrou com mais força na história, até para os mais pobres, há uns 6 anos atrás. “A gente parou de levar recado que não precisava mais. O pessoal fala que é porque acabou, mas é uma lembrança que fica. Depois fiquei no correio, que é mais ou menos a mesma coisa.”
Este ano, o resto dos orelhões no país serão desativado pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Em Campo Grande, o número de telefones públicos pelas ruas era de 801 em 2020. Quatro anos depois, caiu para 307. Em 2025, passou a ser 1, o da Dona Maria das Dores.
Confira a galeria de imagens:
Em Mato Grosso do Sul, 62 orelhões aparecem como ativos e 46 constam em manutenção, distribuídos entre três operadoras. A Oi concentra a maior parte, com 63 aparelhos, sendo 34 ativos e 29 em manutenção. A Claro aparece na sequência, com 35 orelhões. Já a Algar mantém apenas 10 equipamentos. O de Rochedinho é da operadora Oi.












