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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

15/04/2018 07:20

Índio é memória viva do cinema, guardada em cada cartaz de filme pintado por ele

Thaís Pimenta
Índio, ou Alexandre, ficou no ofício de desenhar e colar  standers por mais de 23 anos e hoje é diretor de cinema. (foto: Roberto Higa)Índio, ou Alexandre, ficou no ofício de desenhar e colar standers por mais de 23 anos e hoje é diretor de cinema. (foto: Roberto Higa)

Com tanta modernidade no cinema dos dias atuais, com efeitos especiais de ação e filmes em 4D, é até difícil pensar e exige certa imaginação entender que no passado, lá pelos anos 70, nem mesmo os cartazes exibidos nos cinemas vinham impressos das grandes produtoras. Envolvia mão de obra criativa das pessoas que eram contratadas para, unicamente, retratar os filmes em cartaz, desenhando rostos, corpos e também os anúncios chamando o público para o cinema. Alexandre Couto, conhecido como Índio, era o responsável por esse serviço aqui em Campo Grande.

Na escola ele descobriu o talento para a pintura, em meados de 1962, ainda em Três Lagoas, onde nasceu. Menino de 12 anos, já gostava de assistir filmes e cada centavo que ganhava engraxando sapato usava para comprar a entrada para o Cine Lapa. "Estava eu na porta do cinema, vidrado em um cartaz do filme 'Pistoleiros da Casa Grande', e dentro o Luiz, funcionário este, que depois trabalhamos juntos, me perguntou: Porque olha tanto? Respondi que o cartaz me chamava atenção e que eu poderia riscar a lápis em um papel maior pra ele dar mais destaque".

Não acreditando, mesmo assim Luiz arranjou um papel grande e, a lápis, Índio fez o seu primeiro desenho para cinema. "Mesmo desacreditado ao finalizar ele se espantou, e afirmou: 'você é bom mesmo, agora vou te arranjar um emprego aqui e vai assistir filmes todos os dias'. Pra mim foi uma vitória, era que eu mais queria naquele momento", lembra ele.

Índio durante o ofício no Cine Alhambra. (foto: Roberto Higa)Índio durante o ofício no Cine Alhambra. (foto: Roberto Higa)

Não demorou muito para a Empresa Pedutti lhe contratar e ele foi oficialmente registrado em carteira como "decorador de cinema", e continuou com o ofício por anos em Três Lagoas, fazendo o mesmo serviço de decorador de “stander” para os cinemas . "Na época, stander era uma espécie de montagem recortados em compensados com desenhos e depois montados, de vários tamanhos", explica.

Foi transferido para praça de Campo Grande porque o Peduti cobria também a Capital, Ponta Porã, Ilha Solteira e Valparaíso. "Fiquei trabalhando então no Cine Alhambra com o mesmo cargo", lembra ele.

Logo fez fama e outros trabalhos surgiram. "Também fiz para o Cine Rialto, o Cine Santa Helena e na antiga Rodoviária, Cine Plaza e Cine e Cine Center o prédio da roviária na época uma espécie de shopping".

Django, o Matador. (Foto: Roberto Higa)"Django, o Matador". (Foto: Roberto Higa)
Cartaz do filme Meu Nome é Lampião. (Foto: Roberto Higa)Cartaz do filme Meu Nome é Lampião. (Foto: Roberto Higa)

Ele se lembra que antes de fazer parte do quadro de funcionários da Pedutti, costumava observar Perez Filho, um professor da Escola de Belas Artes de Bauru, que na época foi decorador da Empresa que também fazia a praça de Três Lagoas.

"Era de tirar o chapéu, seus traços eram perfeitos, luz e sobra, pintava como ninguém, e passei a admirar, como todos, as suas pinturas. E um dia ele me disse, 'aqui estão os pincéis, este painel e o cartaz pra você pintar, retratando-o, vou dar umas voltas e quando chegar, se você conseguir pintar, eu colocarei no relógio da praça, se não desistir da profissão'. Só pra encerrar este episódio, o cartaz foi para no relógio, e ai ele me disse: 'Vou para minha cidade, daqui um mês, se tiver pintando 50% melhor que hoje, não volto mais a pintar aqui. Pra concluir, um mês depois ele voltou, viu, e me deu a mão e disse: 'continue'. Voltou para Bauru e nunca mais -lo".

Foram mais de 23 anos nesse trabalho e, em todo tempo, ele se lembra que o filme que mais viu bombando, com filas imensa, foi "O Menino da Porteira", de Sérgio Reis. "A fila dobrava quadras e mais quadra do centro de Campo Grande".

De tanto desenhar e ver filmes, Índio quis experimentar fazer filmes e desde o final da década de 70 também inclui no dia a dia a arte de filmografia, por pura paixão e de forma bem caseira. "Faço porque gosto, a sétima arte para mim é uma nova vida", diz.

Com 7 produções autorais e uma saindo do forno, ele diz que não é apenas diretor. "Entendo de tudo no que faço, roteiro, cinegrafia, fotografia, editor de vídeo e áudio, efeitos". 

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Alexandre Couto e duas de suas produções em DVD, já atuando como diretor. (Foto: Roberto Higa)Alexandre Couto e duas de suas produções em DVD, já atuando como diretor. (Foto: Roberto Higa)


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