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Comportamento

Isoladas, irmãs fazem cartas para deixar esperança no portão de casa

No grupo de risco do coronavírus, Alaíde e Mercedes colocam recados no portão de casa para quem passar ler mensagens de conforto

Por Alana Portela e Aletheya Alves | 13/07/2020 06:23
Na frente do portão, Alaíde Ferreia Prates (à esquerda) e Mercedes Prates Kobayashi seguram às revistas que também estão disponíveis.  (Foto: Henrique Kawaminami)
Na frente do portão, Alaíde Ferreia Prates (à esquerda) e Mercedes Prates Kobayashi seguram às revistas que também estão disponíveis.  (Foto: Henrique Kawaminami)

A pandemia do coronavírus fez Alaíde Ferreira Prates e a irmã, Mercedes Prates Kobayashi aprenderem a escrever cartas para espalhar esperança através da escrita, em Campo Grande. Isoladas, elas decidiram confortar as pessoas através de mensagens deixadas no portão da casa onde moram, no Bairro Lar do Trabalhador.

“Todo mundo está muito estressado e com muito medo, mas a gente pode melhorar isso através de uma palavra que acalma”, diz a dona de casa, Mercedes. Aos 63 anos, ela está no grupo de risco do vírus por conta da idade e desde março, aderiu ao isolamento social.

Alaíde segurando uma carta que escreveu. (Foto: Henrique Kawaminami)
Alaíde segurando uma carta que escreveu. (Foto: Henrique Kawaminami)

Já Alaíde é aposentada e tem 57 anos. Ela também pertecence ao grupo de risco e assim como a irmã, se isolou por questão de segurança. As duas são testemunhas de jeová e costumavam a andar pelas ruas de Campo Grande. Aos domingos, principalmente, a rotina era bater de porta em porta para falar com os moradores sobre religião.

Contudo, desde que o vírus se espalhou pela Capital, as irmãs suspenderam as visitas e de casa, passaram a fazer cartas. “Por conta da pandemia, tivemos que modificar o jeito de trabalhar e uma ideia geral foi que, quem tivesse portão direto para rua, colocasse uma cartinha e uma revistinha”, conta Alaíde.

“Não tínhamos o hábito de escrever, mas agora aprendemos a preparar as cartinhas”, contam as irmãs. “Queria continuar ajudando as pessoas, ainda mais agora, que todos estão estressados e com medo. A ideia é se aproximar pela escrita e levar um pouco de conforto”, completa Alaíde.

Uma das cartas escrita e assinada por Mercedes. (Foto: Henrique Kawaminami)
Uma das cartas escrita e assinada por Mercedes. (Foto: Henrique Kawaminami)

A primeira vez que pegaram papel e caneta, sentaram num canto da casa e tentaram se concentrar. Nada vinha à mente e nenhuma das duas sabia por onde começar para escrever algo que confortasse o leitor. “É difícil escrever, porque precisamos achar as palavras certas, para as pessoas se identificarem com aquilo”, afirma Mercedes.

Olhando para um canto e outro, aos poucos, as palavras começaram a fluir. Os primeiros rabiscos foram perguntando ao leitor como ele estava. “Quando comecei a escrever, tremia porque tinha medo das pessoas não gostarem”, lembra Alaíde.

Mercedes comenta que foi difícil achar palavras para escrever no começo. (Foto: Henrique Kawaminami)
Mercedes comenta que foi difícil achar palavras para escrever no começo. (Foto: Henrique Kawaminami)

A insegurança foi normal, afinal, é a primeira vez que elas escrevem cartas para pessoas desconhecidas. Todos os dias, as irmãs tentam colocar ao menos dez cartas numa caixa que está presa ao portão da casa onde moram. Quem passa pela Avenida Crisântemos, vai encontrar o recado “Pegue aqui uma mensagem de consolo e esperança”.

A produção das cartas, geralmente, é toda segunda-feira, das 17h às 19h. “Nesse momento, tento entrar no espírito. Não quero fazer algo técnico, então, começo a carta conversando. Pergunto se o leitor está bem e como está sentindo. É uma forma de se aproximar”, explica Alaíde.

As cartas costumam ter uma página inteira e elas destacam que após escrevê-las estão conseguindo lidar melhor até com o próprio isolamento. “Isso tem ajudado o próximo e faz nos sentirmos bem conosco”, declaram.

Quem estiver passando pela Avenida Crisântemos no Bairro Lar do Trabalhador, vai encontrar uma caixa florida presa ao portão de grade branco. Elas estão enroladas, junto às revistas que também falam sobre esperança. Se você tiver precisando de uma carta amiga, pode ficar à vontade para pegar e ler.

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A caixa com as cartas e revistas está presa ao portão de grade. (Foto: Henrique Kawaminami)
A caixa com as cartas e revistas está presa ao portão de grade. (Foto: Henrique Kawaminami)