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Comportamento

Luto não tem prazo, e clube nasce para falar da morte sem tabu

Projeto une literatura e acolhimento para falar sobre perdas sem julgamentos nem pressa para seguir em frente

Por Natália Olliver | 01/07/2026 07:42
Luto não tem prazo, e clube nasce para falar da morte sem tabu
Isadora Juliana Pires criou projeto gratuito do Clube do luto (Foto: Arquivo pessoal)

Todo mundo perde alguém um dia. Mesmo assim, falar sobre luto ainda costuma ser um assunto delicado e, para muita gente, até "proibido". Depois de perceberem que quase não existem lugares onde o luto possa ser assunto sem constrangimento, pressa ou a cobrança para "seguir em frente", as psicólogas Isadora Juliana Pires de Mattos e Maria Eduarda Avancini Casali resolveram mudar essa história e criar algo diferente: um clube de leitura focado no tema da finitude e nos muitos lutos que atravessam a vida.

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As psicólogas Isadora Juliana Pires de Mattos e Maria Eduarda Avancini Casali criaram o clube de leitura Páginas de Amparo, voltado ao tema do luto e da finitude. Os encontros gratuitos ocorrem a cada dois meses na Livraria Hamor, com início em 1º de agosto. O projeto busca oferecer um espaço de acolhimento e reflexão, combatendo mitos como a ideia de que o luto segue fases lineares ou tem prazo para acabar.

A ideia foi criar um espaço onde a conversa pudesse acontecer sem julgamentos. Assim nasceu o clube Páginas de Amparo. A estreia será no dia 1º de agosto, mas a vontade de fazer o clube existir não é de hoje.

Segundo a psicóloga Isadora, a proposta é oferecer um espaço onde qualquer pessoa possa conversar sobre o assunto, independentemente de estar vivendo ou não uma perda recente.

"É um lugar de reflexão e partilha, uma busca por mais qualidade de vida por meio dessas conversas sobre a impermanência. As pessoas podem ler sobre essas experiências, reconhecer suas próprias histórias, se identificar e se sentir amparadas. Isso pode ser terapêutico, apesar de não ser uma psicoterapia", ressalta.

Embora o projeto ganhe uma nova identidade agora, a história começou antes. Em 2024, Isadora criou um clube de leitura online voltado exclusivamente à literatura sobre luto. Com o tempo, convidou Maria Eduarda para integrar o projeto. "Agora, de 2025 para 2026, ele vem com essa nova proposta de ser um clube do livro presencial."

A parceria com Maria fez a ideia crescer. Ela conta que o projeto ganhou força justamente porque o luto ainda costuma ser invisibilizado. "A importância é criar espaços em que seja possível falar sobre o assunto. O luto é, muitas vezes, invalidado pela sociedade, então queremos fortalecer vínculos, ampliar essa discussão e criar um espaço de troca, de acolhimento e de suporte."

Para ela, o clube vai além da leitura. "A ideia é fortalecer vínculos, ampliar a discussão sobre o tema e criar espaços de compartilhamento, de troca e de fortalecimento da vida."

Os encontros serão realizados sempre com um livro previamente escolhido, todos relacionados ao luto, seja ele provocado pela morte de alguém ou pelas chamadas perdas simbólicas, como o fim de relacionamentos, mudanças de vida, rompimentos, adoecimento ou sonhos interrompidos.

As psicólogas já definiram o cronograma de leituras. O primeiro encontro será com o livro "É Sempre a Hora da Nossa Morte", da escritora Mariana Salomão Carrara. Depois, o grupo volta a se reunir em 3 de outubro para conversar sobre "A Cor do Vazio" e encerra a programação anual em 5 de dezembro, com "Lilo – Novela do Luto".

Os mitos do luto

Apesar de ser uma experiência comum a qualquer pessoa, o luto ainda é cercado por ideias equivocadas que, segundo as psicólogas, acabam aumentando o sofrimento de quem vive uma perda. Entre os mitos mais frequentes estão a crença de que existe um prazo para "superar" a dor, que o processo acontece em etapas bem definidas e que, depois de um tempo, a pessoa voltará a ser exatamente como era antes.

Isadora afirma que um dos principais equívocos é acreditar que o luto tem prazo para acabar. "O luto, ele não tem um prazo, ele não tem um tempo para acontecer. Você não vai viver um luto por seis meses, um ano e a sua vida vai voltar a ser como era antes."

Ela explica que a saudade pode reaparecer mesmo muitos anos depois. "Você pode ter perdido alguém há dez anos e estar vivendo um momento que vai trazer grandes memórias e lembranças, uma grande saudade e vontade que essa pessoa estivesse aqui e você pode chorar. Você pode ter um dia ruim dentro desse luto, ou você pode estar vivendo um momento muito bom e alegre e se alegrar com a memória dessa pessoa. Isso também é luto."

Outro mito citado por Isadora é a ideia de que o processo acontece em etapas bem definidas. "As teorias mais atuais sobre luto não trazem um luto numa vivência de fases, mas sim de oscilação." Ela acrescenta que também é um erro imaginar que a pessoa voltará a ser quem era antes da perda.

"Você não será a mesma pessoa de antes, uma mescla nessa identidade de quem você era, com quem foi perdido e quem você está se tornando também a partir dessa perda."

Para Maria Eduarda, a crença nas chamadas "fases do luto" continua sendo a mais difundida. "Existem vários mitos sobre o luto e eu acho que o mais disseminado pela nossa sociedade é das fases do luto, como se as pessoas passassem pelas fases de forma linear."

Ela ressalta que essa ideia cria uma falsa expectativa de que a dor terá um fim definitivo. "É uma certa promessa de que em algum momento esse luto seria superado e não é bem assim que funciona. Muitos estudos já mostram isso. O luto é um processo de oscilação, que vai durar a vida inteira da pessoa."

Na clínica, a maior dificuldade percebida por ela é a solidão da pessoa enlutada, a sensação de estar deslocada do mundo.

“As pessoas continuam vivendo suas vidas normalmente, sua rotina, e a pessoa que de fato está vivendo uma perda acaba passando por muitas mudanças, muitos impactos e às vezes de forma muito solitária. Eu vejo isso como um enfraquecimento dessa rede de apoio, porque todos estão sofrendo e cada um lida de um jeito, cada um sente de um jeito, então acaba enfraquecendo um pouco esses vínculos pela intensidade do sofrimento.”

Os encontros serão realizados a cada dois meses, sempre às 9h, na Livraria Hamor, localizada na Rua Amazonas, 1080. Como já mencionado, o primeiro está marcado para 1º de agosto, com a leitura de "É Sempre a Hora da Nossa Morte", da escritora Mariana Salomão Carrara.

Na sequência, o grupo se reúne novamente em 3 de outubro para discutir "A Cor do Vazio" e encerra o calendário de 2026 em 5 de dezembro, com "Lilo – Novela do Luto". A participação é gratuita.

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