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Comportamento

Lucas encarou deportação, banho de caneca e dívida pela vida de modelo

Muito além do close, Kawali conta os perrengues por trás da carreira internacional

Por Natália Olliver | 14/08/2026 06:20
Lucas encarou deportação, banho de caneca e dívida pela vida de modelo
Muito além do close, Lucas Kawali conta os perrengues por trás da carreira internacional (Foto: Arquivo pessoal)

Banho de canequinha na Índia, ser deportado sem chance de argumentação, ficar sem receber, começar a viver o “glamour” da vida, que muita gente acha que é só close, e ficar endividado são alguns dos perrengues que mostram que ser modelo é muito mais do que as fotos e a entrada na passarela. Ainda mais quando a pessoa não tem fama, ou “passe”, como eles chamam, o suficiente para conseguir as grandes campanhas.

Quem contou isso ao Lado B foi o modelo Lucas Kawali, de 31 anos, que ganhou a internet mostrando a realização do sonho dele e do irmão de dar uma casa digna à mãe. Estivemos em casa nesta quarta-feira e mostramos o resultado da obra que emocionou não só Mato Grosso do Sul, mas o Brasil.

Sentado em uma cadeira de praia na varanda de casa, Lucas conta algumas das inúmeras histórias que coleciona e que passam longe do glamour. A  Índia foi o primeiro destino internacional dele  e também cenário de um dos momentos mais frustrantes de sua trajetória. Ele viajou com visto de turista, embora o objetivo fosse trabalhar como modelo no país.

Lucas encarou deportação, banho de caneca e dívida pela vida de modelo
Deportação, banho de caneca e dívida: vida sem glamour do modelo (Foto: Arquivo pessoal)

Sem falar inglês, não conseguiu se comunicar direito com os agentes no aeroporto nem explicar a situação. O visto foi confiscado, sua entrada foi recusada e Lucas passou cerca de 4 horas esperando até embarcar em um avião de volta para o Brasil.

Lucas decidiu fazer a documentação novamente e retornar à Índia. Dessa vez, conseguiu entrar. Só que o alívio durou pouco. “Chegando lá, eu quase me arrependo de ter ido, porque, infelizmente, a Índia é um país muito diferente do nosso, tem uma desigualdade muito grande”. Logo na chegada, Lucas esperou mais de 4 horas até que o motorista aparecesse. Depois, foi levado para um quarto acima de uma loja, em uma região bastante precária.

O acesso ao alojamento era feito por uma escada íngreme e improvisada, que ele precisou subir carregando 2 malas grandes. Quando finalmente abriu a porta, encontrou um rato enorme dentro do espaço.

“Eu juro que o rato que tinha no quarto era enorme, do tamanho de um cachorro. Os ratos lá são assim. Foram 4 meses tomando banho de canequinha pela falta de um chuveiro. Eu dormi na mesma cama que um russo que eu nunca tinha visto na minha vida. Fora enfrentar as invasões de rato no meu apartamento, a sujeira e tudo mais. Então foram meses desafiadores da minha vida.”

Lucas encarou deportação, banho de caneca e dívida pela vida de modelo
Lucas encarou deportação, banho de caneca e dívida pela vida de modelo
Lucas passou por perrengues na Índia, Tailândia, Londres e China (Foto: Arquivo pessoal)

Durante parte da estadia, ele também dividiu o espaço com outras pessoas. A convivência envolvia falta de limpeza, cheiro forte de comida em um ambiente pequeno e fechado e uma rotina completamente diferente da sua.

A alimentação também virou um problema. Lucas passou a evitar comidas de rua depois de ver amigos sofrerem com infecções alimentares graves e precisarem abandonar o país para retornar ao Brasil. Mesmo trabalhando praticamente todos os dias, ele afirma que recebeu pouco e terminou a temporada sem conseguir economizar dinheiro.

Depois da Índia, Lucas passou pela Tailândia, que descreve como uma experiência muito mais tranquila, com boas oportunidades de trabalho, praias e pessoas receptivas. Em seguida, foi para a China, onde permaneceu por quase 4 anos. Lá, viajou bastante a trabalho e participou de produções em lugares que iam de desertos ao topo de montanhas.

Mas também foi no país que ele enfrentou outro dos períodos mais difíceis da carreira: a pandemia de Covid-19. Lucas conta que ficou cerca de 4 meses praticamente sem poder sair do apartamento. “Eu só podia abrir a porta para fazer o teste de Covid ou jogar o lixo para fora. E, se eu abrisse a porta fora disso, eu seria preso. Então foram meses difíceis. Tinha detector de movimento na porta. Literalmente fiquei preso.”

Além das restrições, a adaptação cultural já era um desafio antes mesmo da pandemia. A comida chinesa, segundo ele, era muito apimentada e oleosa. A carne vermelha era cara e até alimentos simples, como o arroz, eram bastante diferentes daqueles aos quais estava acostumado no Brasil. A saudade de arroz, feijão e da própria rotina brasileira foi constante.

Lucas encarou deportação, banho de caneca e dívida pela vida de modelo
Antes de ser modelo, Lucas era pintor em Camapo Grande (Foto: Arquivo pessoal)

Começar com dívida 

As fotos feitas em outros países podem passar a impressão de que Lucas é rico, mas a realidade está bem longe disso. O profissional não tem necessariamente um salário fixo. Em muitas temporadas, as agências adiantam despesas para que o modelo consiga permanecer no país enquanto procura trabalhos.

Além disso, existe o chamado pocket money, uma ajuda de custo usada para alimentação e despesas cotidianas. O problema é que esses valores podem entrar como dívida do próprio modelo. Se ele não conseguir trabalhos suficientes durante a temporada para pagar aluguel, ajuda de custo e outros gastos, pode encerrar o contrato devendo dinheiro à agência.

E a dívida continua sendo calculada na moeda estrangeira. Ou seja, apesar de uma temporada que nas redes sociais parece estar cheia de viagens, ensaios e experiências internacionais, tudo pode terminar com o modelo retornando ao Brasil devendo milhares de libras.

“Os principais desafios em uma carreira de modelo, sendo bem sincero, são o dinheiro ou então a falta dele. Porque, se você não tem uma condição financeira, todo começo é muito difícil.”

Existe ainda uma pressão que não aparece nas fotografias: a rejeição. Lucas conta que, em determinados momentos, um modelo pode realizar até 10 castings em um único dia e receber 10 respostas negativas. Em outras fases, pode passar semanas participando de testes e conseguir apenas um trabalho durante todo o mês.

A cobrança estética e a insegurança financeira acabam caminhando juntas. Não importa quantos trabalhos o profissional tenha feito anteriormente, nada garante que ele será escolhido no próximo teste. Para Lucas, aprender a conviver com esse “não” constante faz parte da profissão.

Rico? - A distância foi um dos momentos mais difíceis. Entre todas as dificuldades, a saudade da família ocupa um lugar diferente no coração de Lucas. Ele estava trabalhando fora do Brasil quando sua mãe ficou gravemente doente. Segundo ele, ela chegou a ficar sem resposta neurológica e tomava 7 a 8 medicamentos psiquiátricos por dia.

Depois de tantos trabalhos e viagens internacionais, algumas pessoas perguntam se ele é rico. Ele encara isso de outra maneira.

“Por que todo mundo acha que eu sou rico? Sou muito rico de saúde, tenho uma família maravilhosa e, do lugar de onde a gente veio até onde a gente está agora, o que a gente construiu, a nossa casa, posso dizer que eu sou rico, sim. Muito rico das coisas que o dinheiro não pode comprar. E, se Deus quiser, com muita fé em Deus, um dia a gente também fica rico na questão financeira.”

A trajetória começou bem longe do glamour. Antes das passarelas, Lucas trabalhava como pintor de paredes ao lado do irmão e entrou para a moda quase por acaso, depois que o dono de uma agência o convidou para fazer fotos.

No início da carreira em São Paulo (SP), chegou a dividir uma república com cerca de 30 modelos e apenas 2 banheiros. Como os trabalhos ainda não eram suficientes para se sustentar, também trabalhou como bartender, garçom e atendente. “Tudo isso para tentar me manter até começar a ter um volume legal de trabalho.”

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