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Comportamento

Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa

Em meio a uma rotina extrema, elas encontram apoio coletivo para enfrentar desafios diários com os filhos

Por Inara Silva | 10/05/2026 07:39
Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa
Thais, de 34 anos, e os filhos Mateus Augusto e Yasmin Vitória, ambos neurodivergentes (Foto: Arquivo Pessoal)

Na sala de espera do CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) do bairro Monte Castelo, em Campo Grande, o tempo se transforma em acolhimento e troca.  Enquanto os filhos participam das atividades terapêuticas, as mães se reúnem para conversar, compartilhar experiências e, sobretudo, se sustentar emocionalmente.

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Mães de crianças neurodivergentes atendidas no CAPSi do bairro Monte Castelo, em Campo Grande, relatam como a maternidade atípica transforma suas rotinas e exige adaptações constantes. Entre consultas, terapias e crises, elas abrem mão de empregos formais e do autocuidado para se dedicar aos filhos com autismo, TDAH e TOD. O serviço público é apontado como essencial, tanto pelo suporte terapêutico às crianças quanto pelo acolhimento oferecido às famílias.

Em meio a risadas, silêncios emocionados e olhos marejados, elas contam que ser mãe atípica é viver em estado permanente de atenção. A rotina envolve consultas, terapias, crises e, ao mesmo tempo, a tentativa de manter a vida minimamente organizada. Ainda assim, todas são unânimes ao afirmar que nunca lhes falta disposição para fazer tudo pelos filhos.

Durante a conversa descontraída, Marisa Marinho, de 48 anos, é apontada como a mais falante da turma. Mãe de Vitória, de 13 anos, ela conta que só conseguiu o diagnóstico de autismo quando a menina já tinha entre 7 e 8 anos. Antes disso, foram anos de incerteza.

“Eu via que alguma coisa tinha, mas não sabia o que era”, lembra.

A mãe observava que Vitória andava nas pontas dos pés, tinha seletividade alimentar, separava toda a comida no prato e apresentava dificuldades comportamentais que chamavam a atenção na escola. Mesmo com boas notas, a menina terminava as atividades e logo saía andando pela sala, rasgava folhas de caderno e não conseguia ficar parada.

Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa
Marisa Marinho durante visita de rotina ao CAPSi. (Foto: Maya Severino)

Em casa, segundo Marisa, Vitória se mordia, rasgava roupas e passava noites sem dormir. “Era terrível”, resume a mãe ao ressaltar que o acolhimento no CAPSi marcou uma virada na vida da família. “Aqui me abraçaram. A equipe deu todo o suporte”, diz.

Quando o diagnóstico veio, a rotina da família mudou completamente. Marisa afirma que precisou deixar o trabalho para se dedicar integralmente à filha que foi diagnosticada com autismo nível 3 de suporte, que indica necessidade elevada de apoio no dia a dia. “Era só eu para tudo. Meu marido trabalhava e eu precisava correr com ela”, conta.

Hoje, sete anos depois, segundo a mãe, Vitória desenvolveu certa autonomia, avançou nas terapias e surpreende pela capacidade intelectual. A menina aprendeu várias línguas, já leu mais de 300 livros e pratica esportes como jiu-jitsu e provas de três tambores.

“Ela é minha vida. É um orgulho”, afirma Marisa.

Mas o caminho cobrou seu preço. Marisa diz que, por anos, deixou de cuidar de si. “Se você não se cuida, você surta. E eu estava surtando”, admite. Só, em 2025, conseguiu, pela primeira vez desde o nascimento da filha, fazer uma viagem. “A gente precisa desse tempo.”

Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa
Marisa Marinho com a filha Vitória, de 13 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

A sobrecarga também faz parte da rotina de Thais Pamela dos Santos Barros, de 34 anos. Mãe de dois filhos neurodivergentes, ela precisou reorganizar completamente a vida profissional.  Mateus Augusto, de 12 anos, tem TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e TOD (Transtorno Opositor Desafiador), e Yasmin Vitória, de 5 anos, também tem TDAH.

Sem conseguir manter um emprego formal por causa das demandas das crianças, Thais passou a trabalhar como motorista de aplicativo. O marido, que exerce a mesma função, se reveza com ela nos cuidados com os dois.

“A gente vai se adaptando para dar conta”, diz.

O diagnóstico de Mateus veio aos 4 anos. “Aí, eu fui atrás de terapia, de psicólogo, de psiquiatra para poder dar um suporte para ele. Para ele saber socializar, porque ele briga muito”

Os desafios são diários. A mãe afirma que Mateus é hiperativo, tem dificuldade de controlar impulsos e já enfrentou muitos problemas de socialização. Yasmin, por sua vez, é extremamente agitada e tem dificuldade de concentração.

“A escola reclama, a criança não para quieta e não está tendo produtividade na escola”, lamenta Thais.

Ela ressalta que o acompanhamento no CAPSi trouxe avanços importantes. “Ele teve uma melhora significativa. Ele não tinha amizades, ele era sempre isolado mesmo”, recorda a mãe ao ressaltar que o menino hoje se dispõe a interagir com outras crianças.

Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa
Ynarah Granze Oviedo, de 28 anos, busca ajuda no CAPSi para o filho de 7 anos. (Foto: Maya Severino)

Apoio entre as mães - “Quando a gente vem para cá, vê que não está sozinha. Uma apoia a outra”, diz. Durante os atendimentos, elas participam de rodas de conversa com a assistente social, onde compartilham angústias e estratégias.

 “A gente desabafa. Isso é muito importante.”

A rede de apoio também foi essencial para Ynarah Granze Oviedo, de 28 anos, mãe solo de três filhos. O caçula, Asaf, de 7 anos, tem TDAH e TOD. Ela concilia os cuidados com o menino, a criação das duas filhas, de 9 e 11 anos, e a formação como Técnica de Enfermagem, que deve concluir neste ano.

O diagnóstico trouxe preocupação imediata. “Eu pensei: como vou trabalhar, cuidar, dar conta de tudo?”, recorda. Atualmente, Ynarah conta que a situação financeira é apertada, a renda, exclusivamente, vem de benefícios sociais e a rotina inclui consultas, terapias e atividades escolares.

Segundo a mãe, o filho tem comportamento bastante agitado e dificuldade para lidar com limites e frustrações. Ela relata que a criança “não para”, tem crises de raiva frequentes e dificuldade em aceitar negativas. No entanto, ressalta que ele já evoluiu com o acompanhamento. “Ele melhorou demais. Hoje consegue lidar melhor com as emoções”, diz a mãe.

Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa
Ynarah com seus três filhos comemorando o aniversário do caçula (Foto: Arquivo Pessoal)

Ynarah lembra que em outros lugares, o tratamento era em terapia individual e quando o menino se misturava com as outras crianças não conseguia se relacionar. No CAPSi, a terapia é em grupo e a mãe acredita que esta mudança fez o filho se tornar muito mais sociável. “Ele é apaixonado por esse lugar”, comemora ao destacar que o menino está no segundo ano na escola, já reconhece o alfabeto e tem apresentado bom desempenho na aprendizagem.

Ynarah também enfrenta o desafio de conscientizar a própria família sobre o transtorno do filho. Nem todos aceitam o diagnóstico, o que torna o processo ainda mais difícil. Ainda assim, ela segue. “Eu não sou revoltada. Eu corro atrás”, afirma.

As três mulheres afirmam que ser mãe atípica é uma experiência que transforma completamente a forma de ver o mundo e a si mesmas.

“A gente começa a entender o mundo deles. Mas os outros não entendem o nosso mundo”, resume Ynarah.

Mães atípicas entendem em dobro a exaustão do cuidado sem pausa
Thais, Marisa e Ynarah divertem-se com outras mães durante evento no CAPSi (Foto: Maya Severino)

CAPSi - Segundo a gerente da unidade, Ivanaide Martins de Souza, essas mulheres vivem em função dos filhos 24 horas por dia, sem tempo para trabalho, lazer ou vida social. Percebendo a sobrecarga emocional dessas mães, o CAPSi criou momentos de acolhimento para elas. Enquanto as crianças permanecem no atendimento, as mães participam de roda de conversa com a assistente social.

Na semana do Dia das Mães, o CAPSi realizou uma tarde exclusiva para as mães, sem as crianças, a fim de oferecer um espaço para a descontração. Atualmente, o serviço atende cerca de 4 mil crianças e adolescentes com acompanhamento ambulatorial, oficinas terapêuticas em grupo e atividades voltadas às famílias.

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