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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

17/04/2017 06:05

Meu irmão tem leucemia, minha mãe venceu câncer e meu pai morreu da mesma doença

Thailla Torres
Janaine quando bebê, no colo do pai. (Foto: Arquivo Pessoal)Janaine quando bebê, no colo do pai. (Foto: Arquivo Pessoal)

A advogada Janaine Vieira tem só 23 anos, mas desde a infância aprendeu a vencer desafios ao lado da família. A mãe enfrentou um câncer, o irmão ainda está em tratamento por conta da leucemia e o pai se despediu após anos de luta contra a mesma doença. O mal que atingiu as pessoas que Janaine mais ama na vida, trouxe outra perspectiva de mundo. E com muita coragem ela resolveu fazer da tristeza o impulso para ajudar quem precisa. A transformação, ela compartilha aqui no Voz da Experiência.

Janaine e a mãe, dona Cacilda Guilherme. (Foto: Arquivo Pessoal)Janaine e a mãe, dona Cacilda Guilherme. (Foto: Arquivo Pessoal)

Lembro que tinha 11 anos quando meu pai teve o primeiro câncer. Eu já tinha noção do que era e sofri muito, mas ele melhorou rápido. Aos 15 anos, decidi assistir ao filme "Prova de Amor" que conta a história de uma menina com leucemia. Fiquei muito comovida com a cena e no outro dia decidi ir até a AACC (Associação dos Amigos das Crianças com Câncer) para ajudar de alguma maneira.

 

Como era menor de idade, não podia ser voluntária e só fazia visitas esporádicas. Aos 18 anos, decidi fazer o curso de Direito e me dedicar ao voluntariado da AACC e também no setor de oncologia do Hospital Regional.

Na primeira visita, conheci uma criança que tinha recém amputado a perna e nada me marcou tanto. Era a Victoria, abracei ela na cadeira de rodas quando ainda estava com o curativo. Perguntei como foi arrancar a perninha e ela disse que não estava triste e me respondeu: “Tia, tirei minha perninha para viver”. Aquilo foi um impacto muito forte.

O câncer é uma doença que esteve e continua presente na minha família.  Depois de 11 anos, meu pai teve câncer novamente. Quando veio o diagnóstico, aquilo mexeu profundamente comigo. No entanto, minha mãe também enfrentou a doença. Ela já tinha operado, feito radioterapia, mas a pessoa só é considerada curada após 5 anos do tratamento. 

Mas quando soube da doença do meu pai, eu já sabia que ele ia falecer. No hospital, estava bastante  debilitado e eu resolvi conversar com ele, ter um momento especial, porque meu pai estava muito preocupado com a família e com o nosso futuro.

Falei que ele poderia morrer tranquilo. Prometi que iria me formar e ia dar tudo certo. Que se fosse para ele viver, seria nossa maior alegria, mas que ele poderia acalmar o coração naquele momento. Isso foi muito importante.

Quando o meu pai se despediu, passei a ver a morte com tranquilidade. Não posso negar que a morte dele me fez sofrer muito, mas dei muito mais importância a essas horas em que eu e ele refletimos muito sobre a doença.

Desde que ele faleceu, me tornei uma voluntária diferente. Além de ter ganhado maturidade, comecei a me envolver ainda mais com as crianças e isso foi muito forte.

Na companhia do pai. (Foto: Arquivo Pessoal)Na companhia do pai. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas a verdade é que eu estava tentando fazer com as crianças o que eu não tive tempo de fazer com o meu pai. Passei a querer coisas novas e descobri que um simples abraço é capaz de se transformar em coragem e força quando mais se precisa. 

E foram esses aspectos que me fizeram uma voluntária melhor e me ajudaram a superar a morte do meu pai. Basicamente, transformei a dor em trabalho.

O câncer é uma doença muito dolorosa. Eu vi o sofrimento da minha família e passei a entender a dificuldade para todas as crianças. Imagina como é perder o cabelo, emagrecer e fazer uma criança entender que ela vai precisar de uma agulha no bracinho dela durante muito tempo. Tudo isso me fez enxergar o quanto elas precisam principalmente de um apoio psicológico. 

Consequentemente, mudei minha vida ao lado da minha mãe. Passamos a ter uma alimentação saudável, porque confio que o que a gente come, é o nosso remédio. Com tanto caso de câncer na família, é impossível não ficar amedrontado com a vida que se leva. 

No começo de fevereiro, meu irmão teve uma forde dor de cabeça e febre. Ele foi para o posto de saúde e diagnosticado com leucemia. Apesar do psicológico forte, ele vem enfrentando um momento difícil. Aos 38 anos, está magro, fraco e em um estágio delicado da doença. Mas tenho certeza que ele também sairá dessa.

Mudei muito a minha visão de tudo na vida, as vezes reclamamos de coisas tão ridículas, sem se dar conta do que é dor de verdade.

Acho que todo mundo pode passar por situações difíceis, mas ainda sim, temos que agradecer quando se tem saúde e energia para seguir em frente. A gente pode cuidar da saúde, alimentação e praticar um exercício. Mas quem está doente não tem essa oportunidade. Isso tudo me fez querer aproveitar a vida e cuidá-la". 

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