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Comportamento

Na barbearia do violeiro Jovino, tem viola e violão para cliente tocador

Por Paula Maciulevicius | 11/11/2013 07:07
A vocação na viola fez Tulio Moura Dias 'virar' Jovino desde a década de 60. (Fotos: Marcos Ermínio)
A vocação na viola fez Tulio Moura Dias 'virar' Jovino desde a década de 60. (Fotos: Marcos Ermínio)

O nome de batismo é Túlio Moura Dias, mas ele se apresenta como Jovino “por causa da vocação de viola”, explica. Aos 64 anos, uma humilde barbearia na rua Alegrete, tem mais a oferecer do que barba e cabelo por R$ 10 cada. Entre viola e violão, são nove instrumentos para cliente tocador.

A vocação para música sempre caminhou com o gosto por cortar cabelo, este, descoberto por seo Jovino durante peripécias da infância, quando as ferramentas do pai viraram tesoura e o irmão foi cobaia.

“Daquele dia em diante meu pai falou que eu era o responsável por cortar o cabelo de todo mundo”. Isso, aos 7 anos, na fazenda em que nasceu, lá pelas Ribas do Rio Pardo.

Na década de 60, ele formou a primeira dupla. Na verdade foi uma única na vida. “Jovino e Jovano”, mas pela qual passara quatro Jovanos. Os três primeiros foram os irmãos Nilo, Quintinho e Lázaro.

“Eu era de fazenda, ouvia aqueles programas ‘Na Beira de Túia’, de Tonico e Tinoco. Aprendi a tocar pelo rádio”, explica.

O primeiro violão foi ainda guri, entre os 14 e 15 anos, ele comprou um método, instrução de violão, e sozinho decorou as notas que as cordas formavam. Quando veio para a cidade, arrumou uma viola velhinha, mas não tinha quem o ensinasse a afinar.

O procedimento nasceu da curiosidade e da vontade de se tornar violeiro. Jovino comprou o método, à época de Tonico e Tinoco. As aulas que surgiram, foram de um professor militar na região do bairro São Bento. Chance ele até teve no grupo, tinha apostila própria pra viola, mas o estilo fugia da música caipira.

De viola a violão, tem instrumento afinado para quem quiser mais do que cortar cabelo.
De viola a violão, tem instrumento afinado para quem quiser mais do que cortar cabelo.

“Ele tocava mais Roberto Carlos, saí fora e fui trabalhar de barbeiro”, conta.

A proximidade com quem sabia afinar viola veio dali, da barbearia do patrão, na rua 13 de maio. “Um dia meu patrão disse, vai vir o Rodrigo e Rodriguinho, eu peço para eles te ensinarem viola”. A espera demorou meses. Primeiro veio um da duplas, mas justo o que não afinava viola. Foram seis meses até chegar o integrante certo para o seo Jovino.

Dali em diante, a primeira viola Del Vecchio ainda existe e toca muito bem. Jovino diz que foi se arranjando e que hoje dá par ao gasto. Modéstia de quem já tocou fora do Estado e nos saudosos programas de Achucarro.

Hoje ele trabalha no terceiro cd solo. Desistiu de tentar achar um quinto Jovano e investe no trabalho gravado em estúdio, pelo próprio bolso. Os cabelos que veem ao chão somam o dinheiro que ele paga as gravações que depois acabam sendo vendidas no salão, por R$ 10.

“Minha função é tocar e cantar, mas precisa de ter empresário. Ano que vem quero parar a barbearia e voltar para a viola”, promete.

A ideia de ter viola e violão a mão para quem quiser arriscar uma palhinha era estratégia no bar que manteve na região do Monte Castelo de 1994 aos anos 2000.

“Cantava muita gente lá, Aurélio Miranda e por aí vai. Já ficava tudo afinado, porque eu já sabia quem era o tocador. O povo começava a cantar e pagava cerveja para todo mundo. Eu nunca precisei dar cerveja não”, brinca.

Hoje não é estratégia de marketing mais. A viola e o violão estão a disposição para quem quiser uma prosa e tocar da boa música caipira. Mas a barbearia do Jovino tem horário de funcionamento, vai das 7h30 às 11h e depois do almoço, das 13h às 18h.

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