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Comportamento

Na favela, entre piscina e Del Rey, Ervino compõe mesmo sem saber ler e escrever

Aos 66 anos, seu Ervino infartou há 20 dias, e diz que ficou com medo de morrer sem realizar o sonho de um dia ser reconhecido

Por Thailla Torres | 19/02/2020 06:12
Ervino nos recebeu no seu barraco que ele faz questão de chamar de mansão. (Foto: Marcos Maluf)
Ervino nos recebeu no seu barraco que ele faz questão de chamar de mansão. (Foto: Marcos Maluf)

O barraco de Ervino Sifroni Lopes tem apenas dois cômodos, mas são suficientes para reunir uma família esperançosa, um Del Rey de 1983 e uma piscina de plástico que garante a diversão do neto. Apesar do sorriso em meio as dificuldades, o pouco que ele tem não é o demais nessa história.

O infarto ocorrido há 20 dias é o primeiro assunto lembrado pelo morador. “Graças a Deus a vida não me levou. Fiquei com medo de morrer e não realizar o meu sonho”, afirma.

Dono de quase 40 músicas, Ervino é conhecido no bairro como o homem analfabeto que canta e compõe há 35 anos. “Quando a música vem na cabeça, eu pego o caderno, canto e minha filha escreve”, explica ao ser questionado sobre como passa as músicas para o papel.

A esposa, Rosa Maria, 52 anos, também não escreve, mas sabe se emocionar como ninguém com as canções do marido. “Ele canta de um jeito bonito, fala umas coisas bonitas, sou fã”, comenta.

O demais é que seu Ervino não desiste. Aos 66 anos, ele pensa em música quando está no quintal e até quando vai ao supermercado. “Vou imaginando, criando e se estou longe de alguém que escreve, vou anotando na memória”.

Na mão, as canções que ele tem registrada em uma editora de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
Na mão, as canções que ele tem registrada em uma editora de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)

Quando passou mal em casa e foi levado para o hospital, ele diz que o problema de saúde causou desespero quando se lembrou das músicas guardadas em casa, todas registradas em uma editora sul-mato-grossense. “Pensei que não era justo eu morrer se eu ainda tinha chances de alguém notar a minha música”.

O sonho dele é ser reconhecido. “Queria que alguém comprasse a minha música ou topasse gravar comigo. É meu sonho cantar, desde jovem”, afirma.

Ele diz que já tentou pedir ajuda e falar com as pessoas sobre o sonho, mas boa parte delas não acredita no “homem que mora favela”. “Tem gente que ri de mim, acha besteira eu querer ser músico e diz que eu nunca vou conseguir. Mas eu não desisto, me sinto jovem ainda”.

Ervino leva uma vida simples, às vezes, difícil. Parte da casa ainda está no reboco e a outra parte é formada por pedaços de madeira e lona. Sem emprego por causa dos problemas cardíacos, sobrevive de bicos como auxiliar de pedreiro e a mulher de serviços domésticos, mesmo assim há esperanças de mudar de vida. “Eu chamo aqui de mansão porque todo mundo olha meu carro e a piscina, mas o carro não funciona e a piscina foi doada, mas a mansão é um jeito da gente se sentir bem”.

Natural de Amambai, dentro do sonho ainda cabe a vontade de ler e escrever. “Não aprendi porque fui muito cedo para a roça. Naquele tempo menino começava o trabalho duro cedo, não tinha como estudar, o tempo foi passando e eu não pude mais voltar à escola”.

Ervino e a esposa Rosa Maria, de 52 anos, sua maior fã. (Foto: Marcos Maluf)
Ervino e a esposa Rosa Maria, de 52 anos, sua maior fã. (Foto: Marcos Maluf)

Ele acredita que a alfabetização seria um novo passo para o sonho de fazer música. “Ficaria mais fácil escrever na hora e não esqueceria a letra”, diz.

As músicas de Ervino falam da vida simples e da relação com Mato Grosso do Sul, uma das canções também homenageia o pai, que partiu sem saber que filho sonhava em ser músico. “Eu só comecei a compor depois que ele morreu, o que é uma pena, meu pai seria meu maior fã”.

Os olhos ficam marejados ao lembrar do pai e da vida simples que, segundo o compositor, tornaram-se incentivo para compor e cantar. “Acho que foi na dificuldade e na saudade que eu quis cantar. É como diz o ditado, quem canta seus males espanta”.

Simpático, antes da despedida, ele pega o violão que ganhou há alguns anos. “Não sei tocar, mas guardo com carinho, sinto que ainda vou aprender”. Ervino posa para fotos como artista. “Me deixa bonito igual capa de CD”, pede rindo.

Depois das fotos, claro, o tchau atencioso foi com música. Confira Ervino cantando no vídeo abaixo.

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