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Comportamento

Nem trabalho CLT livrou Victoria de ser empurrada à prostituição

Vendedora trans expôs episódios de transfobia no mercado formal e abriu debate sobre vivência trans

Por Clayton Neves | 01/06/2026 07:22
Nem trabalho CLT livrou Victoria de ser empurrada à prostituição
Victoria Maria tem 29 anos e trabalha como vendedora. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mesmo com carteira assinada e rotina de trabalho no comércio, mulheres trans ainda enfrentam situações que as empurram diariamente para a exclusão. Em muitos casos, o preconceito vivido no mercado formal acaba reforçando o cenário da prostituição como único caminho possível para sobrevivência.

Foi essa reflexão que a vendedora Victoria Maria Rodrigues, de 29 anos, decidiu levantar nas redes sociais nesta semana, após relembrar episódios de transfobia que já sofreu durante o expediente em empresas pelas quais já passou. Em um vídeo, ela contou já ter sido ignorada por uma cliente enquanto tentava fazer o atendimento em uma loja.

“Eu fui abordar ela duas vezes. Me apresentei, perguntei se poderia ajudar, mas ela olhou para minha cara e fingiu que eu não estava ali”, relata.

Em outra situação ainda mais grave, a vendedora foi chamada de “aquilo” por um cliente. “Na hora eu relevei, fingi que não me afetou, mas esse tipo de situação machuca a gente. Parece que não nos querem conviver com a gente ou aceitar a nossa existência”, desabafa.

Victoria trabalha como vendedora em regime CLT e diz que decidiu compartilhar a situação não para gerar conflito, mas para conscientizar as pessoas sobre a violência cotidiana enfrentada por pessoas trans até em situações consideradas simples. “É mais ter empatia com quem está ali trabalhando, acordou cedo, pegou ônibus. Um bom dia já basta”, afirma.

Nem trabalho CLT livrou Victoria de ser empurrada à prostituição
Mesmo no mercado formal, Victoria já enfrentou exclusão. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 29 anos, ela conta que iniciou a transição de gênero aos 23, depois de começar a se montar como drag queen. “Eu sempre gostei da figura feminina. Quando me montei pela primeira vez, nunca mais consegui me enxergar como antes”, relembra.

Victoria diz que o processo foi rápido. Em menos de um ano, já havia iniciado a transição e assumido socialmente sua identidade. Mas junto da liberdade de finalmente ser quem era, veio também o peso do preconceito.

Antes da transição, ela já trabalhava no comércio e sempre teve empregos formais. O choque aconteceu quando precisou voltar ao mercado de trabalho já vivendo como mulher trans. “Eu não tinha dimensão de como o preconceito era tão grande na vida de uma mulher trans”, conta.

Ela relata olhares dentro do ônibus, comentários nas ruas e situações humilhantes no ambiente profissional. Em um dos empregos, um cliente se recusou a ser atendido por ela. “Eles tentam invalidar a nossa existência. E é dali que eu tiro meu ganha-pão, o dinheiro das minhas contas”, desabafa.

Mesmo abalada, Victoria diz que aprendeu a esconder a dor para continuar trabalhando. “Eu tinha que mostrar que era forte e que aquilo não iria me afetar. Mas afeta profundamente”, conta.

Nem trabalho CLT livrou Victoria de ser empurrada à prostituição

A realidade enfrentada por ela ajuda a explicar um problema histórico vivido pela população trans: a dificuldade de permanência no mercado formal. Embora muitas pessoas critiquem a prostituição, Victoria lembra que, durante anos, mulheres trans sequer recebiam oportunidades de emprego.

“A sociedade sempre impôs que a mulher trans não tinha escolha. Há alguns anos, os empregadores não davam oportunidade e elas eram obrigadas a ir para esse caminho”, explica.

Ela afirma ter amigas que vivem da prostituição e reforça que não faz julgamentos, mas reconhece que muitas acabam sendo empurradas para isso justamente pela exclusão social e profissional.

“Todas as vezes que acontece um episódio desses, parece que estão tentando me jogar para esse lugar. Como se mulher trans não pudesse trabalhar, pegar ônibus, viver normalmente”, diz.

Apesar das dificuldades, Victoria insiste em permanecer ocupando espaços que antes eram negados à população trans. Para ela, a presença de mulheres trans em empregos formais também é uma forma de resistência.

“Antigamente, a mulher trans só era vista na noite ou na esquina como objeto sexual. Hoje não. A gente precisa ser vista durante o dia também, trabalhando, vivendo e ocupando os nossos espaços”, finaliza.

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