Apaixonado, viciado e mal falado
Dizem que o cigarro destrói os pulmões dos viciados. Dizem que o álcool corrói o fígado dos apaixonados. Eu não discuto a ciência. Ela tem razão. Também sei que a saudade é uma doença silenciosa: não aparece nos exames, mas afoga o olhar e aperta o peito de quem foi abandonado.
O curioso é que as pessoas enxergam facilmente a fumaça que sai da boca de um homem fumante, mas raramente percebem a fumaça que sobe da alma. Julgam o copo que ele segura, mas ignoram o c vazio que ele tenta preencher. Condenam o vício, sem perguntar quem fabricou a dor que o alimenta.
Minha amada, que um dia prometeu dividir a vida comigo, hoje critica os meus vícios. Diz que estou levando uma vida errada; que estou me destruindo pouco a pouco. Talvez esteja. Mas ela não percebe que, depois que foi embora, foram justamente esses vícios que impediram que eu me afundasse ainda mais na minha dor.
O cigarro não me devolveu o amor. A bebida não refez os nossos planos. Nenhum deles teve esse mágico poder. Apenas me ofereceram alguns minutos de anestesia. E, para quem passa o dia inteiro carregando a lembrança de alguém que já não o quer, alguns minutos de esquecimento podem parecer uma eternidade.
A paixão tem um efeito curioso: embriaga muito antes do primeiro gole. Ela altera a razão, confunde o juízo e faz o coração acreditar no impossível. Quando termina, deixa um homem procurando outra embriaguez, qualquer uma que seja capaz de silenciar a memória. Uns mergulham no trabalho, outros na religião, outros na música. Eu procurei abrigo na bebida e no cigarro. Cada um escolhe o anestésico que consegue suportar. Será que me acovardei? Mas, e dai? Ela não me quer mesmo!
Sinceramente, não escrevo estas palavras para defender o vício. Nenhum vício merece aplausos. Escrevo apenas para lembrar que, muitas vezes, antes do vício houve uma ferida. E quase toda ferida tem uma história que ninguém quis ouvir.
Talvez um dia eu consiga abandonar o cigarro. Talvez deixe a bebida de lado. Espero sinceramente que isso aconteça. Mas, antes de abandonar esses companheiros silenciosos, preciso abandonar a saudade que me mata. E essa desgraçada não se compra na farmácia, não se joga no lixo e nem desaparece por decreto lei.
No fundo, o maior vício nunca foi o álcool nem o cigarro. O maior vício foi amar alguém que já não me ama.
E, enquanto o coração não aceita essa sentença injusta, continuo sobrevivendo como posso, esperando o dia em que não precisarei de fumaça nem de álcool para descobrir que a felicidade sempre foi respirar sem dor e lembrar sem sofrer e sem matar.
(*) Erivelton Lago é advogado criminalista.
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