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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

23/07/2018 09:02

No dia da homenagem, ninguém da família apareceu para aplaudir conquista de Ivan

Thailla Torres
Ivan ainda cumpre pena, mas já em um exemplo em busca de recomeçar a vida. (Foto: Thailla Torres)Ivan ainda cumpre pena, mas já em um exemplo em busca de recomeçar a vida. (Foto: Thailla Torres)

Há 10 anos, Ivan Gonçalves, de 40, diz que aprendeu uma lição. O maior peso que carrega na vida é o arrependimento por ter matado a esposa, em setembro de 2007. Durante quase 7 anos ficou preso em regime fechado, mas apesar da pena ser a cadeia, o maior castigo para ele foi perder a família.

Hoje, diz ser um resistente, reconhecido como alguém com condições para voltar à sociedade e ter sobrevivido dentro de um sistema carcerário cheio de problemas. Por isso, na semana passada, ganhou homenagem como exemplo de ressocialização. "Foi Deus que me resgatou de onde eu estava, fui buscando uma transformação através da fé e do trabalho. Mas não é fácil", admite.

Ivan ficou 6 anos e 11 meses no regime fechado até ganhar o direito de cumprir pena no semi-aberto. Ele foi condenado por homicídio qualificado e hoje se diz arrependido. "Foi uns problemas de trauma, complicação na família, que me fez tirar a vida da minha esposa antes de ir para o fechado", justifica.

A prisão o fez ficar distante do que ele mais amava na vida. "Eu pensei que tinha acabado tudo, achei que nunca mais ia ver a minha família". Apesar de ainda ter os familiares, ninguém sentou ao seu lado no auditório para lhe aplaudir como homenageado na última semana. "Faz tempo que eu não falo mais com eles e nasci numa família complicada", diz para justificar a ausência.

Hoje ele trabalha como serviços gerais para recomeçar a vida e não é do tipo que fala muito. Mas todo dia, quando sai do presídio para trabalhar, carrega apenas um sonho. "Eu não tenho muito estudo, fica até difícil de falar, mas quero voltar a viver, tirar minha carteira de habilitação e poder dirigir", resume.

Nádia foi homenageada e hoje é um exemplo de mulher que decidiu recomeçar a vida. (Foto: Thailla Torres)Nádia foi homenageada e hoje é um exemplo de mulher que decidiu recomeçar a vida. (Foto: Thailla Torres)

A esperança de Ivan tem semelhança com a de 200 presos acompanhados pelo Conselho da Comunidade, em Campo Grande, referência pelo trabalho de ressocialização de detentos que estão saindo do regime fechado. Na última semana, algumas destas pessoas foram premiadas e homenageadas, durante uma cerimônia, por se destacarem no mercado de trabalho com dedicação e disciplina.

No entanto, problemas comprovam que ressocialização é desafio em prisões brasileiras. Sair da cadeia e continuar fora dela não é uma tarefa fácil para muitos detentos do regime semi-aberto ou que cumprem pena em casa, com uso de tornozeleira.

A empregada doméstica Nádia Dias de Almeida, de 60 anos, não nega o desafio. "Tem muita cobrança, as pessoas (dentro do presídio) falam que você tem que continuar na vida errada. Eu quis fazer minha parte, para ser um bom exemplo pra minha família e mostrar que eu não vou errar mais", diz.

Nádia foi condenada por tráfico de drogas e passou quase um ano em regime fechado. Hoje ela cumpre pena em casa e conta os dias para ver o fim da tornozeleira em sinal de liberdade. "Depois que eu entrei lá dentro eu repensei a minha vida, me arrependi muito porque perdi minha família por coisa errada".

Ela também se considera uma resistente porquê que no presídio não foi nada fácil. "Muita gente não consegue, é muita briga e muita violência", explica. Mas ela fugiu dos problemas e enfrentou de cabeça erguida um castigo pior que a cadeia. "O mais difícil foi a solidão. Não tive visita da minha família, eles nunca foram na cadeia, sofri muito com a ausência".

Mãe de 3 filhos e com mais de 10 netos, a homenageada também quer ser um exemplo de mudança. "Hoje eu não tenho vergonha de falar, daqui pra frente quero esquecer o passado e pensar no meu futuro. Passei acreditar tanto em ressocialização que quero abrir minha pequena empresa e dar oportunidade a pessoas como eu".

Nem todo preso tem a sorte de ter a família ao lado a cada passo de transformação na vida. (Foto: Thailla Torres)Nem todo preso tem a sorte de ter a família ao lado a cada passo de transformação na vida. (Foto: Thailla Torres)

Nádia sabe que apesar da homenagem e o reconhecimento de quem contribui por uma ressocialização bem-sucedida, nada disso é simples diante do preconceito.  "As pessoas te olham e viram as costas. É muito difícil encontrar um emprego, quando eles sabem que você tem um histórico, acabam dizendo não".

O lado perverso do mundo carcerário também faz presos desistirem da humanidade. É o que diz uma professora, de 50 anos, que pediu para não ter o nome revelado. "Eu sofri muito naquele lugar (prisão), quando cheguei lá dentro me revoltei. Já que eu tinha sido culpada, desisti da vida e decidi fazer tudo errado lá dentro".

Ela foi condenada por homicídio. O crime aconteceu em 1994 e ela jura não tem culpa. "Eu estive no lugar errado e na hora errada. Mataram um homem onde eu estava e até hoje a família acredita que eu estou envolvida no crime".

O processo corre na justiça há mais de duas décadas e ela só foi condenada em 2014. Após quatro anos de regime fechado, hoje ela também ganhou o direito de cumprir pena em casa, mas ainda recorre da decisão judicial. "Eu não sou uma criminosa, tenho certeza que um dia vou provar a minha inocência", acredita.

Se por um lado cadeia é capaz causar revolta, por outro fez a professora ouvir. "Depois de quinze dias revoltada, conheci uma pessoa muito tranquila lá dentro que me disse que tudo aquilo ia passar e que eu voltaria pra casa. Depois daquilo, repensei minhas atitudes e decidi fazer tudo certo. Não foi fácil e ainda não é fácil para quem está lá dentro. Mas quando a gente quer viver, a gente pode tudo".

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O Conselho da Comunidade, em Campo Grande, referência pelo trabalho de ressocialização de detentos que estão saindo do regime fechado.O Conselho da Comunidade, em Campo Grande, referência pelo trabalho de ressocialização de detentos que estão saindo do regime fechado.


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