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Comportamento

No Dia da Saúde Mental, conto a minha história com a depressão

Dia 10 de outubro é comemorado o Dia da Saúde Mental. Confesso que antes da depressão, eu também não saberia da data

Por Paula Maciulevicius Brasil | 11/10/2020 11:15
Precisamos estar atentas à nossa saúde mental, dentre toda a maternidade.
Precisamos estar atentas à nossa saúde mental, dentre toda a maternidade.

Entre todas as datas que a gente comemora neste feriadão, uma em específico me chamou a atenção, principalmente porque senti que ela, mais uma vez, passou batida. Dia 10 de outubro é comemorado o Dia Mundial da Saúde Mental. Confesso que antes de conviver com a depressão, eu também não saberia.

Foi em 2017 que os primeiros sinais de depressão apareceram. Logo eu, uma pessoa tão sorridente, tão alegre, tão tagarela, tão intensa. E ela veio num período que eu também julgava como sendo de felicidade absoluta, havia acabado de descobrir que estava grávida. E eu queria muito o bebê, assustei pela pressa com que ele veio, esperava que fosse demorar um pouquinho mais, mas era o que eu queria. E ainda assim, eu fiquei reclusa.

Passado uns dias, não queria sair de casa, não saía do quarto, encontrava "alento" sabe onde? Deitada no chão do quarto, entre a cama e a janela. Não respondia mensagens de WhatsApp, não queria ver ninguém, embora estivesse recebendo tanto carinho de amigos e familiares pela notícia da primeira gestação. Perceberam que havia algo de errado e me levaram pela mão ao psiquiatra. Foram três tentativas de remédios até que eu me adaptasse. Paralelo a isso eu sentia muito medo de ficar sozinha, tinha pavor de lugares cheios e de chuva. Tive crises de pânico que só passavam dentro de um abraço, do meu marido, que não podia sair de perto de mim.

Não é todo mundo que chora e fica no canto do quarto quando está em depressão, mas a imagem ilustra bem o meu caso quando comecei a perceber e também quando paro o tratamento por conta própria.
Não é todo mundo que chora e fica no canto do quarto quando está em depressão, mas a imagem ilustra bem o meu caso quando comecei a perceber e também quando paro o tratamento por conta própria.

Na terceira medicação, me adaptei. Fui encaminhada também para a terapia e aí comecei a reagir. Deixei um trabalho e fui viver esta nova fase. Pela primeira vez em anos eu não tinha obrigações a não ser descobrir o que me fazia feliz.

A depressão piorou no nascimento do bebê, somada ao puerpério, e ali eu percebi o quanto falamos pouco sobre a saúde mental das mães. Meu "escape" foi justamente escrever que mãe ama, mas também reclama, daí o nome da coluna que começou em posts de desabafos nas redes sociais. Fui muito julgada por reclamar, como se a gente não pudesse em nenhum momento da maternidade reclamar. Tínhamos só de agradecer por sermos mães, diante de tantas mulheres que tentam viver essa maternidade. Meu respeito e amor a elas, mas uma coisa não exclui a outra. Não é porque me tornei mãe que virei santa e tudo tem que ser recebido como benção.

Na minha caminhada pela saúde mental encontrei parceiros e tanto, que já citei aqui, como a Keyth, psicóloga. A minha psiquiatra tem uma cara de menina e um abraço de mãe, daqueles capazes de juntar nossos pedacinhos e ela consegue fazer isso até pelo telefone, já que hoje as consultas são assim pela pandemia.

E foi ela quem me lembrou que este seria um assunto para ser descrito hoje, quando escreveu "Dia Mundial da Saúde Mental ou Eu tive depressão pós-parto". Estou falando da Nathalia da Ros, médica psiquiatra e mãe, que escreveu o texto abaixo no seu Instagram.

"Dia Mundial da Saúde Mental ou Eu tive depressão pós parto – Dois títulos diferentes?Não, são a mesma coisa, a mesma batalha. Desde 2010, quando decidi estudar Saúde Mental, tentei aprender tanto com o cérebro quanto com o coração.

Mas nada me ensinou mais do que ser a paciente. Tive gestação e parto sem problemas. Permaneci em acompanhamento psicológico como sempre faço, desde 2007. Tudo certinho.

E, de repente, meu cérebro fritou. Eu não era eu. O sistema bugou de tal maneira que meus familiares não me reconheciam. Fiquei confusa, cheia de sentimentos ruins, e sem controle do meus pensamentos.

Mas lá no fundo, em algum lugar, tinha uma mente sadia e informada. Que soube ver o perigo e sinalizou: Ei! Tem alguma coisa errada, maior que o natural pra esse momento. E eu fui pedir ajuda, tratei e sarei. Não sem culpa e dificuldade em admitir que estava acontecendo comigo, mas fui.

Uai, eu não sou psiquiatra? Como tive doença mental?
Quando eu falo que ninguém está livre, NINGUÉM ESTÁ LIVRE.
Que a informação salva, A INFORMAÇÃO SALVA!!
Por isso, VIVA O DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL!!!!
Lutemos por esse dia, falemos a respeito disso, que seja normalizada a atenção à mente.

Acredito que não sou a mesma, sou melhor após tudo que passei. Mais humana, mais resiliente, mais gentil.
Acredito no tratamento e na vida normal.
🌷 Homenagem à minha filha, por ser a melhor mestre de todas."

Não tenha vergonha de admitir que está com depressão. Não tenha vergonha de pedir ajuda. Depressão não é frescura, muito menos "vazio" que pode ser "curado" em igreja. É doença que exige tratamento e acompanhamento profissional. Se tem alguém perto de você que está merecendo atenção, se coloque à disposição para ouvi-lo sem julgamentos e procurar um médico. Todo mundo precisa cuidar da sua saúde mental.

Tem uma história de mãe para contar? Manda pra mim: paulamaciulevicius@gmail.com.

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