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Comportamento

No frio, o que aquece coração é lembrança de mãe que já foi só filha

Que bom que existe memória afetiva, é um bote salva-vidas quando a "adultice" traz seus tsunamis

Por Jéssica Benitez | 19/05/2022 07:07
Engraçado como certas coisas nos trazem essas boas lembranças, né? (Foto: Arquivo Pessoal)
Engraçado como certas coisas nos trazem essas boas lembranças, né? (Foto: Arquivo Pessoal)

Era batata. Quando o frio dava as caras e nosso nariz começava a escorrer, lá vinha minha mãe com o 'kit resfriado': meias, agasalho, coberta e vick vaporup, sim esse tradicionalzão da latinha redondinha. Antes de dormir, ela passava nas nossas costas, peito, pescoço e nariz. Depois nos cobria e ia apertando feito charuto para vedar qualquer possível entrada de ar frio.

Eu amava esse ritual. Me sentia em segurança, amada, cuidada. Assim como quando ela me chamava de filha ao invés de Jéssica ou quando me dava 'dorme com Deus'. Porque na minha cabeça de criança era assim: a resposta 'você também' não valia tanto quanto um espontâneo 'dorme com Deus'. Então tinha que somar dois 'você também' para ter um 'dorme com Deus', ou seja, ela que tinha que me falar e não o contrário.

Engraçado como certas coisas nos trazem essas boas lembrança,  né? Tudo isso se aflorou na minha memória quando, dia desses, me peguei nessa mesma cena, só que agora eu no papel de mãe. Maria Cecília e Caetano estavam sarando da gripe, então logo após o banho eu passava Vick no peitinho deles. E o cheiro me transportou pra minha infância.

Pra aquele quarto com duas camas de madeira e lençóis iguais que minha irmã e eu dividíamos. Metade ornamentado com pôsteres das Chiquititas (minha irmã só deixava eu colar na minha parte da parede), guarda-roupas com penteadeira e espelho cheio de adesivos do Garfild.

São sete anos de diferença entre nós, tempo que hoje parece pequeno, mas foi gritante nessa fase da nossa vida. Tanto que minha irmã, sendo mais velha, também representava segurança para mim. Ela que me arrumava para ir para escola enquanto minha mãe trabalhava fora. E quando eu assistia a filmes de terror? Ficava até tarde da noite enrolando no sofá esperando ela chegar da aula. Tudo para não peitar o escuro do quarto sozinha... Ô tempo bom... no qual os medos que me rondavam era do Fred Krugger, do boneco assassino, da Bruxa de Blair... tão diferentes dos fantasmas internos que nos assombram agora na vida adulta! Que bom que existe memória afetiva, bote salva-vidas quando a "adultice" traz seus tsunamis.

Jéssica Benitez é jornalista, mãe do Caetano e da Maria Cecília e aspirante a escritora no @eeunemqueriasermae.

(Ilustrastração: Rita Navarro @o_trocatintas)
(Ilustrastração: Rita Navarro @o_trocatintas)

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