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Campo Grande, Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

01/01/2018 07:05

No novo ano, Marcela é lição de recomeço diante da dor de perder Felipe

A mãe Marcela fez tudo o que podia para o filho sobreviver, mas foram apenas 31 dias com sonho realizado

Thaís Pimenta
Renato, Felipe e Marcela. (Foto: Acervo Pessoal)Renato, Felipe e Marcela. (Foto: Acervo Pessoal)

O sonho da jornalista Marcela Albres sempre foi ser mãe. Ao lado do marido, desde o casamento, há três anos, o sonho era engravidar. Os dois descobriram que não seria fácil, por disfunções dele e dela. "Eu também tenho uma dificuldade de ovulação que dificulta mais o processo", completa Marcela.

Especialistas disseram que as chances sem tratamento eram quase nulas. Até mesmo uma fertilização in vitro não foi bem sucedida. Até que em março de 2017 o casal engravidou naturalmente. "Felipe já veio pra nossa vida como um milagre", diz.

A gravidez foi comemorada por todos. Felipe foi um bebê esperado pela família inteira. Só que aos cinco meses de gestação, durante um ultrassom, veio o primeiro indício da cardiopatia congênita. Um exame específico confirmou a doença e colocou a vida do casal de cabeça pra baixo.

"Por sugestão do médico realizei o ecocardiograma fetal, um exame que pouquíssimos profissionais pedem e que foi de extrema importância pra gente. É essencial avisar as mulheres desse ponto, quase ninguém fala, mas a cada 100 bebes, um nasce com problemas no coração".

Mesmo assim, a gravidez continuou a ser comemorada. "Montamos o quarto dele, fizemos chá de bebê, book de fotos, comemoramos cada fase. Nunca deixamos que a doença anulasse a nossa esperança e alegria em viver tudo isso".

Marcela descobriu que a gestação exigiria cuidados especiais e mudou-se pra São Paulo um mês antes do nascimento de Felipe porque só lá existe um hospital preparado para atender casos tão complexos.

Felipe nasceu de cesária com 38 semanas, no dia 7 de novembro. "Apenas depois do parto foi possível detectar quão grave era a cardiopatia. Ele nasceu com 7 má formações no coração, o que tornava o caso muito difíci".

Felipe com os pais depois do nascimento. (Foto: Acervo Pessoal)Felipe com os pais depois do nascimento. (Foto: Acervo Pessoal)

Felipe teve que fazer uso de medicações em seus primeiros minutos de vida. Com três dias, fez a primeira cirurgia das três já programadas e esteve internado na UTI desde então. 

Depois de muito lutar, Felipe descansou com 31 dias, por complicações causadas nos rins. "A gente ficava com ele 24h por dia. Nos últimos dias de vida, ele já estava muito inchado devido a medicamentos, infecções e ali imaginamos que já não sobreviveria. Um dia, antes de ele falecer, nós decidimos que iríamos pra casa dormir naquela noite e foi justamente nessa madrugada que ele descansou. Então, a gente acha que ele não se permitia desistir conosco por perto", diz a mãe, emocionada.

Para o casal, o filho viveu além de seus dias em vida. "A gente sempre soube que o Felipe poderia não sobreviver. Eu vivi intensamente a gestação e isso fez com que o Felipe não vivesse só os 31 dias, ele viveu dez meses com a gente, a gestação e mais o tempo fora da barriga. A gente sabia que era grave mas mesmo assim a gente decidiu viver com fé, com otimismo com alegria e gratidão a Deus".

O casal no quarto de Felipe. (Foto:  Acervo Pessoal)O casal no quarto de Felipe. (Foto: Acervo Pessoal)

A partir da descoberta da doença, a jornalista passou a escrever pequenos relatos sobre a vivência desses novos sentimentos em seu Facebook pessoal. "A princípio eu quis alertar outras mães sobre a importância do ecocardiagrama. A resposta das pessoas me fizeram continuar escrevendo".

Em uma das mensagens, no dia 12 de dezembro, Marcela relata: "Só hoje tive coragem de entrar no quartinho do Felipe. Uma das primeiras coisas que pensamos quando, ainda na gestação, soubemos que nosso bebê nasceria com uma grave cardiopatia congênita foi se faríamos o quartinho dele. Nosso maior temor era que nosso filho não resistisse, voltássemos para casa sem ele, e ainda tivéssemos que encarar um berço vazio. Resolvemos vencer o medo e acreditar com todas as nossas forças que o Felipe viria para casa conosco. Nossa fé não poderia ter dúvidas! Hoje, quando finalmente encarei aquele berço vazio, chorei e clamei a Deus! Doeu demais! Quantos sonhos cabem entre quatro paredes... Acariciei o bercinho, olhei os bichinhos que carinhosamente escolhi para decorar o quarto, passei a mão no delicado papel de parede, abri o armário e guardei algumas peças de roupas e uma pequena parte do enxoval que trouxe de São Paulo."

O casal resolveu lidar com o luto de uma maneira diferente. Ao invés de chorar por tudo que não foi vivido, agradecer pelos momentos que puderam dividir com Felipe. "Eu leio as respostas das pessoas nas publicações e enxergo o quanto Felipe tem tocado corações. Recebo comentários de gente que nunca vi, que não conheço, dizendo que passaram a valorizar mais os momentos em família e isso me consola demais".

Tanta aprendizagem pessoal pode vir a se tornar um livro no futuro, de acordo com Marcela. "Pra mim, a vida não termina com a morte, no meu último beijo em Felipe eu quis que ele sentisse todo o amor do mundo, que carregasse esse sentimento tão puro de nossa família pra sempre", finaliza.

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