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Comportamento

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS

Objetos preservados na UFMS, no Detran e no comércio mostram como era a vida antes da divisão

Por Amanda Ferreira | 11/10/2026 08:42
O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS

Um autógrafo de Pelé escondido entre as páginas de um livro de prestação de contas, placas amarelas de veículos e documentos produzidos quando Campo Grande ainda pertencia a Mato Grosso. Esses objetos, preservados por instituições e comerciantes, ajudam a contar como era a vida antes da criação de Mato Grosso do Sul e quais marcas daquele período permaneceram depois da divisão, oficializada em 1977 e concretizada em 1º de janeiro de 1979.

RESUMO

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Objetos e documentos preservados em Campo Grande ajudam a contar a vida na cidade antes da criação de Mato Grosso do Sul, oficializada em 1977 e concretizada em 1979. O comerciante Moreira de Oliveira guarda garrafas de leite, uma faca do Café Morenão e uma carteirinha de 1979. No Arquivo Central da UFMS, um livro de contas traz o autógrafo de Pelé, de 1973. Antigos servidores do Detran-MS lembram que placas e carteiras antigas continuaram válidas após a divisão, e que a troca foi gradativa.

Na loja Montaria Moreira, em Campo Grande, Moreira de Oliveira guarda objetos que ajudam a contar a história da cidade antes e depois da divisão de Mato Grosso. Entre garrafas de leite, utensílios de antigos estabelecimentos comerciais, fotografias e equipamentos eletrônicos, ele recebeu parte do acervo de amigos e comerciantes que sabem do interesse dele em preservar essas lembranças.

Duas garrafas de vidro usadas na venda de leite estão entre as peças de maior valor afetivo. Elas pertenceram à antiga empresa ITA, ligada a Luiz Jaconino, conhecido comerciante da cidade. Moreira conta que recebeu os recipientes de um neto do empresário, depois que foram encontrados durante a demolição de um imóvel na Rua Pedro Celestino.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Garrafas de vidro da antiga empresa ITA foram encontradas durante a demolição de um imóvel na Rua Pedro Celestino (Foto: Osmar Veiga)

“Esse eu não vendo por nada. Eu ganhei esse e o que está lá embaixo pelo neto do Jacobino”, contou. As garrafas também trazem lembranças da infância, quando era comum comprar leite diretamente nesses recipientes. “Eu lembro que tomava direto do bico. Era muito comum naquela época comprar leite e vir nas garrafas”, recordou.

Outro objeto preservado é um antigo prego ferroviário, utilizado para fixar os trilhos aos dormentes. Segundo Moreira, a peça remete à chegada da ferrovia a Campo Grande, nas primeiras décadas do século passado. “Isso aqui era para pregar os dormentes e passar o trilho em cima”, explicou. Ele também chamou a atenção para um desenho de cachorro presente na peça.

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Antigo prego utilizado na fixação dos trilhos aos dormentes está entre as peças preservadas por Moreira (Osmar Veiga)

Do comércio da cidade, Moreira conserva uma pequena faca distribuída como lembrança pelo antigo Café Morenão. O utensílio ainda traz a identificação de Mato Grosso, anterior à criação do novo Estado. “O bar era muito bem frequentado, antes mesmo da divisão”, lembrou. Segundo ele, quem frequentava o estabelecimento podia ganhar a peça como recordação.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Brinde distribuído pelo antigo Café Morenão ainda traz a identificação de Mato Grosso (Foto: Osmar Veiga)

O acervo também reúne uma televisão da década de 1970, que a Roberto Som, loja de eletroeletrônicos que funcionava na Rua 14 de Julho, comercializava. Moreira conta que recebeu o aparelho da esposa de Jovenízio Barbosa Roberto, ligado à família responsável pelo estabelecimento. “O comércio se chamava Roberto Som e vendia essas máquinas mais modernas da época. Ficava na 14 de Julho”, relatou.

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Televisor da década de 1970 foi comercializado pela Roberto Som, antiga loja da Rua 14 de Julho (Osmar Veiga)

Entre os objetos guardados estão ainda fitas cassete de artistas como Helena Meirelles, Zé Corrêa e a dupla Simão e Solimões, além de telefones e máquinas fotográficas. Algumas peças chegaram às mãos de Moreira sem informações sobre a procedência. Conhecidos que preferiram vê-las preservadas entregaram outras.

Um dos achados foi um livro com fotografias antigas de Campo Grande, encontrado no lixo há aproximadamente dez anos, na região da antiga Vila Castelo. As imagens mostram lugares como o bairro Amambai, a linha férrea e o Colégio Estadual, atual Escola Estadual Maria Constança Barros Machado.

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Publicação antiga mostra o Colégio Estadual, atual Escola Estadual Maria Constança Barros Machado (Foto: Osmar Veiga)

“Isso aqui é Mato Grosso, só Mato Grosso”, comentou Moreira, ao folhear a publicação. Ao encontrar uma fotografia da escola, lembrou que havia estudado no local. O material também mostra ruas com paralelepípedos e árvores ainda pequenas, em uma paisagem diferente da atual.

Outra lembrança é uma carteirinha de acesso ao Country Club, datada de 1979, ano da instalação de Mato Grosso do Sul. O documento permitia frequentar espaços de lazer, como a piscina e as áreas esportivas. “Isso aqui é de 79. A divisão foi em 77, mas homologou em 79. Isso aqui é bem da época mesmo, sabe? Bem da época de Mato Grosso para Mato Grosso do Sul”, afirmou.

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Carteirinha de 1979 permitia o acesso às instalações de lazer do antigo Country Club (Foto: Osmar Veiga)

Para Moreira, cada objeto guarda uma parte da rotina de Campo Grande que deixou de existir ou mudou com o passar dos anos. São lembranças do tempo em que o leite chegava em garrafas de vidro, os bares distribuíam brindes aos clientes e documentos ainda carregavam o nome de Mato Grosso.

Moreira também guarda uma antiga capa de documentos distribuída por um dos primeiros cartórios de Campo Grande. A peça ainda traz a identificação “Campo Grande – MT”, da época em que a cidade pertencia a Mato Grosso, além de um número de telefone com apenas 4 dígitos. Utilizada para guardar documentos, a capa preserva detalhes de um período em que a cidade tinha outra identificação estadual e os números telefônicos eram bem mais curtos que os atuais.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Capa de documentos traz a identificação Campo Grande (MT) e telefone com apenas quatro dígitos (Foto: Osmar Veiga)

Memórias preservadas –  No Arquivo Central da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a  arquivista responsável, Débora Resstel Ribeiro, apresentou uma das curiosidades guardadas pela instituição: a assinatura de Pelé em um documento relacionado a uma partida entre Comercial e Santos, realizada em 1973, quando o território ainda fazia parte de Mato Grosso.

O autógrafo está em um livro de prestação de contas. Segundo Débora, os grandes clubes brasileiros costumavam visitar Campo Grande para disputar partidas contra as equipes locais. Foi durante uma dessas visitas que um major responsável pelo estádio pediu a assinatura do jogador.

"Esse aqui foi do Comercial contra o Santos, porque eles vinham para cá, esses times grandes, competiam. O nosso futebol era muito forte na época. E aí, em 73, o Maravies, que era um major que cuidava do estádio, pediu um autógrafo para o Pelé. E aí está aqui o autógrafo", contou Débora, ao apresentar o registro.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Assinatura de Pelé foi preservada em livro de prestação de contas de partida entre Comercial e Santos, em 1973 (Foto: Arquivo Pessoal)

O documento é um exemplo de como materiais produzidos para atividades administrativas também preservam acontecimentos que marcaram a cidade. Entre valores, anotações e registros de despesas, ficou guardada a passagem de um dos maiores nomes do futebol mundial por Campo Grande, seis anos antes da instalação de Mato Grosso do Sul.

“Esse aqui foi do Comercial contra o Santos, porque eles vinham para cá, esses times grandes, competiam. O nosso futebol era muito forte na época”, contou a arquivista, enquanto apresentava o livro.

A própria universidade passou por mudanças naquele período. Antes da federalização, em julho de 1979, a instituição era conhecida como UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso).

A alteração de nome e de estrutura administrativa acompanhou a criação do novo Estado, mas os documentos anteriores permaneceram como testemunhos de sua história.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Registros anteriores à divisão do Estado ainda identificam a instituição como Universidade Estadual de Mato Grosso (Foto: Amanda Ferreira)

Outra marca do período anterior à divisão permanece na entrada do Estádio Morenão. O local ainda conserva um símbolo de Mato Grosso, instalado quando Campo Grande fazia parte do antigo Estado. Inaugurado em 1971, o estádio passou pela criação de Mato Grosso do Sul, em 1979, mas manteve esse registro de sua origem.

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Página do Diário Oficial registra a mudança da antiga Universidade Estadual de Mato Grosso (UEMT) para a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), após a divisão do Estado (Foto: Amanda Ferreira)

Placas e documentos – No Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul), os registros antigos mostram outra parte dessa transformação. Luiz Fernando Ferreira dos Santos, de 62 anos, que atuou na direção de habilitação, e Ruy Barbosa de Sousa, de 74 anos, ligado à área de veículos e assessoria, relembraram procedimentos que dependiam de papéis, carimbos e deslocamentos entre cidades.

Na época, os automóveis particulares usavam placas amarelas com letras e números pretos. Os exemplares preservados mostram um modelo diferente do atual, usado antes das mudanças nacionais nos sistemas de identificação.

A criação de Mato Grosso do Sul também não exigiu que os motoristas substituíssem imediatamente os documentos emitidos quando o território ainda pertencia a Mato Grosso. Segundo os antigos servidores do Detran-MS, a mudança ocorreu aos poucos, sem necessidade de uma corrida aos postos de atendimento.

Na área de habilitação, as carteiras antigas continuaram válidas até o vencimento ou até que o motorista precisasse solicitar uma segunda via ou atualizar os dados. “Então a troca foi gradativa. Aquelas continuavam valendo”, explicou um dos entrevistados.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Certificados de registro em papel mostram como era feita a identificação das carteiras de habilitação antes da digitalização (Foto: Amanda Ferreira)

Com as placas, a situação era semelhante. Os veículos podiam continuar circulando com a identificação anterior, desde que estivessem devidamente licenciados. “Se você tinha uma placa Campo Grande, MT, você não era obrigado a trocar?”, perguntou a reportagem.

“Não, na época não”, respondeu um dos antigos servidores. A substituição passou a ser exigida em situações específicas, como transferência de propriedade, perda ou problemas na placa, conforme as regras adotadas posteriormente. “A gente continuou com essa placa amarela por muito tempo ainda”, recordou.

Se a troca não era imediata, a burocracia fazia parte da rotina de quem precisava regularizar um veículo. Os procedimentos eram realizados em papel, com documentos pessoais, recibos escritos à mão e reconhecimento de firma em cartório.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Antigos servidores do Detran-MS relembram a época em que os processos dependiam de papéis, carimbos e transporte entre municípios (Foto: Amanda Ferreira)

“Você comprava um carro, como que era? Era um recibo, era um papel”, explicou um dos entrevistados. Segundo ele, o documento podia ser simples, desde que identificasse o veículo e o comprador. “Podia ser até um papel de padaria.”

Os funcionários reuniam toda a documentação em um envelope conhecido como “verdinho”, que acompanhava o processo até a emissão do registro. “A parte de exigência documental do proprietário era uma loucura”, relembrou o ex-servidor.

 Em determinadas situações, também era necessário transportar os papéis entre municípios, o que prolongava a espera. Além disso, a transferência de um veículo de uma cidade para outra podia exigir uma nova placa, com a identificação correspondente ao município de destino.

O licenciamento também era diferente. Em vez dos procedimentos digitais disponíveis atualmente, o proprietário recebia uma pequena plaqueta com o ano do exercício, que deveria ser fixada na placa do veículo. A cada ano, a cor mudava para facilitar a identificação.

Os certificados de registro eram emitidos em papel de segurança, em formato semelhante ao de uma carteira de identidade. Segundo os entrevistados, esse modelo continuou sendo utilizado em Mato Grosso do Sul nos primeiros anos depois da divisão, aproximadamente até 1984.

Para transferir um veículo, o comprador podia apresentar um recibo escrito à mão, desde que o documento tivesse as informações necessárias e a assinatura reconhecida em cartório. "Podia ser até um papel de padaria", lembrou um dos participantes da entrevista.

O procedimento ainda exigia a apresentação de documentos pessoais e a abertura de um processo físico. Os papéis eram reunidos em um envelope conhecido como "verdinho", que acompanhava a tramitação até a emissão do registro.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Documentos antigos preservam informações sobre o registro de veículos nos primeiros anos de Mato Grosso do Sul (Foto: Amanda Ferreira)

No interior, a espera podia ser longa. Um processo iniciado em Brasilândia, por exemplo, precisava seguir até Três Lagoas. Como o transporte dos documentos não era diário, o proprietário aguardava o envio e a devolução dos papéis.

"Às vezes demorava uma semana, até 15 dias, dependendo da coisa. Então todo o processo dessa fase dos papéis era demorado", relatou um dos antigos servidores.

A divisão de Mato Grosso não provocou a substituição imediata de todos os documentos. Conforme os relatos, na área de habilitação, os modelos antigos foram sendo trocados conforme o vencimento, a necessidade de segunda via ou a atualização cadastral. "Então a troca foi gradativa. Aquelas continuavam valendo", explicou um dos entrevistados.

Entre as curiosidades lembradas pelos antigos servidores do Detran-MS estão a primeira carteira de habilitação impressa no novo sistema estadual e a primeira placa de veículo da sequência, ambas ligadas à família do ex-governador Pedro Pedrossian.

O que um autógrafo de Pelé e uma garrafa de leite contam sobre MS
Carteiras de habilitação emitidas antes da divisão continuaram válidas nos primeiros anos de Mato Grosso do Sul (Foto: Amanda Ferreira)

“O registro número 1 é do Pedrossian. O 2 é o do governador. Só que a impressão da CNH, o espelho da CNH, era o número 1 do governador”, explicou um dos entrevistados, ao esclarecer a diferença entre o número de registro e o de emissão do documento.

Já a primeira placa foi destinada a um Chevrolet Diplomata utilizado pela então primeira-dama, Maria Aparecida Pedrossian. “Eu lembro que era o Diplomata da primeira-dama”, recordou outro ex-servidor.

Confira a galeria de imagens:

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