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Campo Grande, Terça-feira, 22 de Outubro de 2019

28/07/2019 10:26

Por respeito, seguidores da umbanda e candomblé discutem intolerância

Eles se reuniram ontem para o primeiro encontro de "Omode Lgbagbo", que ocorreu em Campo Grande

Alana Portela
Seguidores de Umbanda e Candomblés discutiram sobre preconceito e aceitação (Foto: Alexsander Soares)Seguidores de Umbanda e Candomblés discutiram sobre preconceito e aceitação (Foto: Alexsander Soares)

Na tentativa de serem respeitados e não “taxados”, os seguidores de umbanda e candomblé se reuniram ontem (27), para discutirem sobre direitos, relatar experiência e “frear” a intolerância religiosa em Campo Grande. Foi o 1º encontro “Mede igbagbọ” – Filhos da Fé - na Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul). A ideia é fazer do conhecimento o caminho para a compreensão e aceitação do que se é tido como diferente.

A proposta era reunir o público jovem de terreiro para falar as diversas barbáries que acontecem e juntos construírem mecanismos para atender a todos os adeptos das religiões de matrizes africanas. Foi um dia de debate e teve palestra contando sobre a religião e suas histórias, relatos e dos fieis, informações sobre direitos, políticas públicas, aberto para perguntas e respostas.

“O jovem movimenta a massa da intolerância. Tem muito preconceito, se anda na rua de branco com sua guia as pessoas te julgam. Olham e falam que é macumbeiro, satanista, coisa que não pertence a nossa religião, é uma série de situações que a gente se preocupa. O intuito é se defender e ter um respaldo governamental e da sociedade”, explicou um dos organizadores do evento, Juan Raphael Martinez.

Juan Raphael Martinez é umbandista e um dos organizadores do debate (Foto: Alana Portela)Juan Raphael Martinez é umbandista e um dos organizadores do debate (Foto: Alana Portela)

Ele é umbandista e relata que a intolerância vem de religiões que tentam prevalecer. “Atacam algo que não têm conhecimento. Nós umbandista acreditamos em Jesus, nas energias africanas. O nosso trabalho é dado pela manifestação de espíritos, que trazem seus conhecimentos, uns aborígenes, outros espíritos de escravos que mandam para dar uma palavra de cura, orientação para vida da pessoa”, contou.

Nessa semana ocorreu o encontro ecumênico, que reuniu sacerdotes de matrizes africana, padres e pastores para falar sobre religião. “Queremos ajustar uma fala, mostrar o que está acontecendo, olhar a realidade um do outro, e com isso ter diálogo. Queremos respeito no que a gente acredita”, destacou.

A também umbandista, mãe Elsa de Iemanjá, zeladora de terreiro há anos e falou que já foi chamada de macumbeira. “Feiticeira também, mas nunca me importei, pois desde os 9 anos de idade, aprendi a respeitar. O que falam não me atinge, porém afeta mais meus filhos de santo. Experiência é muito válida, é importante ter conhecimento”, frisou.

Mãe Elsa de Iemanjá é zeladora e conta que já foi chamada de feiticeira  (Foto: Alana Portela)Mãe Elsa de Iemanjá é zeladora e conta que já foi chamada de feiticeira (Foto: Alana Portela)

O advogado, Diego Rocha, 30 anos, participou do evento e explicou sobre os direitos dos centros em relação as demais religiões e os problemas que enfrentam. Há 8 anos como seguidor, abriu um terreiro. “Falei sobre os direitos das casas de axé, dos terreiros de Umbanda e Candomblé porque a maioria não é regularizada, mas quando adota essa legalidade ganha acessibilidade aos direitos”, disse. 

Ele também comentou sobre a Lei do Silêncio. “Acompanha muitos terreiros e muitas pessoas não conhecem. A gente faz um trabalho a qualquer hora do dia, mas é impedido e ultrapassar aqueles decibéis”, comentou.

“Muitos do centro de Umbanda se revoltam porque qualquer tipo de acidente, o líder é intimado, mas com a legalização a casa tem uma personalidade jurídica”, disse.

Diego Rocha é advogado e falou sobre os direitos na religião (Foto: Alana Portela)Diego Rocha é advogado e falou sobre os direitos na religião (Foto: Alana Portela)

O advogado aproveitou a deixa e comentou sobre a situação desagradável com Vicente. “Estávamos juntos, quando um vizinho apareceu com um facão nas mãos e ficou passando no meu portão. Paramos o trabalho e tentei conversar com ele, mas disse que a primeira pessoa a sair, mataria. Acionei a polícia, registramos boletim e apresentamos um processo. Um inquérito está sendo desenvolvido de ameaça, cárcere privado e injúria religiosa”. “Tem que andar pelos meios direitos, não fazer justiça com as próprias mãos”, completou.

Após a confusão, ele e seu vizinho voltaram a se falar. “Conseguimos conversar e se acertar. Agora, os trabalhos no terreiro são realizados nos sábados, a cada 15 dias".

Alexsander Soares é candomblescistas há dois anos   (Foto: Alana Portela)Alexsander Soares é candomblescistas há dois anos (Foto: Alana Portela)
Para Bianca Guedes Serena, o desconhecimento do assunto gera o preconceito e a intolerância (Foto: Alana Portela)Para Bianca Guedes Serena, o desconhecimento do assunto gera o preconceito e a intolerância (Foto: Alana Portela)

Enfrentamento - Para a estudante de 18 anos, Bianca Guedes Serena, é preciso enfrentar o problema para que a solução seja apontada. Ela é umbandista, conheceu o movimento quando tinha 13 anos. “Depois me afastei por cinco anos e voltei agora. Não sofri preconceito porque vivo no meio dos jovens, que mais compreensivos. Se não mostra que está lutando pela igualdade, nada vai mudar”, afirmou.

Conforme ela, os casos de intolerância aconteceram a partir de um “pré – conceito”. “Muitos julgam sem conhecer, e como a nossa sociedade é criada com traços do cristianismo, igreja a maioria [das pessoas] vêm dessa crença. Acho que é isso que causa o preconceito, a sociedade é de um jeito e quando não conhece o novo, julga antes e acaba se fechando”.

Candomblé - O estudante de Direito, Alexsander Soares, 19 anos, participou do encontro representando o Candomblé, que há dois anos, e se sente conectado com os ancestrais. “A descendência da minha família é negra, minha avó era frequentadora de umbandista e eu católico. Nesse tempo que conheci o Candomblé mudei como pessoa, conheci o novo ser e os novos seres. Reencontrei com meus ancestrais”.

Nesse período, nunca sofreu com intolerância. “Sou bem aceito. Somos de matriz africana assim como os umbandistas, o grupo vai dar força e voz a religião”, concluiu.

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Os seguidores reunidos durante o encontro Omode Lgbagbo (Foto: Alana Portela)Os seguidores reunidos durante o encontro "Omode Lgbagbo" (Foto: Alana Portela)
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