Raul saiu do RS para virar "o otimista" da churrascaria de Corumbá
O restaurante está há 30 anos na cidade e a partida de gaúchou deixou familiares, amigos e clientes desolados
"Esse ano, se Deus quiser, vamos tirar o pé do atoleiro". Essa não era uma frase de derrota, mas o combustível que o gaúcho Raul Pozza usava como motivação. Ele trocou Poço de Lobo, no Rio Grande do Sul, para ter um restaurante no calor de Corumbá. Foi justamente pelo otimismo de ver o mundo, mesmo que "bagunçado", que Tchê, ou Gaúcho, era tão especial para família, amigos e clientes. Por isso, a morte repentina dele, aos 62 anos, no último domingo, pegou todos de surpresa e abalou o município.
RESUMO
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O gaúcho saiu da cidade natal para trabalhar como garçom e barman em uma cidade próxima de São Paulo, quase divisa com Mato Grosso do Sul. Depois, foi para Aquidauana com a irmã. Foi nessa cidade que conheceu a esposa, Maria de Fátima de Arruda.
Quem conta essa história ao Lado B é um dos filhos, Kleyton Arruda Pozza. “A minha mãe é pernambucana e minha avó trabalhava nesse restaurante que meu pai foi trabalhar. Minha mãe buscava ela. Eles se casaram, juntaram um dinheiro e compraram um restaurante em que tocaram por alguns anos com o irmão”.
Com o passar dos anos, não deu mais certo trabalhar com a família e Gaúcho resolveu andar pelo Estado com a esposa. Pararam em Corumbá para trabalhar no restaurante Barril de Ouro.
“Isso na década de 1990. Ele tocou isso com um cunhado, eram dois casais que tocavam, por alguns anos, e encerraram a sociedade. Nesse meio tempo, meu pai pegou a reserva, vendeu uma casinha que tinha comprado há anos e comprou terreno da churrascaria Espeto de Ouro, em 1993”.

Raul construiu o lugar por 2 anos e, em 15 de novembro de 1995, abriu a churrascaria, que completou 30 anos na Avenida Barão do Rio Branco.
“Meu pai era uma pessoa extremamente simples, agradável, brincalhona, o tempo todo agradando os clientes. Entrava nos mercados e bancos e brincava com todos, era uma pessoa que estava sempre pra cima, não tinha luxo ou vaidade”.
Raul trabalhou até o último minuto de vida, praticamente. A ideia dele era diminuir o ritmo assim que o filho mais novo se formasse em medicina. A neta, Helena, era o xodó dele. Andava para cima e para baixo com ela, mostrando com orgulho a pequena.
“Ele só falava dela. Toda quinta-feira comprava frutas pra ela desde os 6 meses. É difícil falar dele, mas o pessoal falava muito bem do meu pai, era uma pessoa maravilhosa, era ativo e dava passear, passava o dia todo no mercado”.

Kleyton explica que, no dia da morte, Raul estava descansando para retornar ao trabalho no domingo. Ele limpava o restaurante até tarde no sábado, então era comum acordar tarde no dia seguinte. “Ele ficava até de madrugada, até terminar de limpar e ir dormir era 3h. No domingo não trabalhava no almoço. Era comum que ele descansasse até 14h ou 15h e, nesse dia, ele não apareceu. Meu irmão desconfiou”.
No mesmo dia, Raul ligou e perguntou a ele se estava tudo certo com uma funcionária que não estaria no dia e se tinha gente para substituir. Ele também visualizou mensagens que eu e minha esposa mandamos.
“Ele era tão simples que não respondia mensagem, só ligação. Mandamos 13h30 mensagem e ele não respondeu mais. Meu irmão mais velho começou a ligar e ele não atendeu. Ele estava fazendo uma série de exames porque estava com problema de circulação sanguínea. O resultado saiu só na segunda, quando ele já tinha falecido, e mostrou que o problema estava sério, artérias calcificadas. Ele tinha diabetes e dificuldades de cicatrização”.
A frase que ele tanto dizia "Esse ano, se Deus quiser, vamos tirar o pé do atoleiro", ficou gravada na coroa de flores durante a despedida do gaúcho.





