Sílvio prega na rua e não desiste nem sendo chamado de "vagabundo"
Após cumprir pena por tráfico de drogas, ele diz que mudou de vida e usa caixa de som para falar de Deus
Há quase duas décadas, o pastor Sílvio Miguel de Jesus vai para Praça Ary Coelho com um microfone e uma pequena caixa de som pendurada no ombro para anunciar mensagens de fé. Aos 62 anos, ele diz que já foi traficante, passou mais de 4 anos preso e, desde que decidiu mudar de vida e pregar nas ruas, já foi ameaçado, chamado até de “vagabundo”, mas ainda assim ele nem pensa em abandonar o que chama de missão.
Morador do Bairro Rouxinóis, Miguel nasceu em Porto Velho (RO) e vive em Campo Grande há mais de 20 anos. Ele conta que começou a pregar na praça em 2008 e, atualmente, também faz ações em bairros e trabalhos com pessoas em situação de rua pelos bairros. "Servir a Cristo é uma decisão e eu continuo firme porque fiz essa escolha", conta.
Antes da conversão, ele diz que foi preso diversas vezes por envolvimento com o tráfico de drogas em diferentes lugares do Brasil e na Bolívia. Segundo o pastor, que hoje é pai de três filhos e avô de sete netos, a mudança aconteceu de forma gradual e foi motivada por uma profunda reflexão sobre a própria vida.
Desde 2010, ele afirma que não faz parte de nenhuma denominação religiosa. Hoje, pratica sua fé individualmente e prefere levar mensagens voltadas à liberdade de escolha e à prática do bem. "Minha mensagem é para que a pessoa leia a Bíblia, ore e tome sua própria decisão. Não critico nenhuma religião. O importante é fazer o bem sem olhar a quem", destaca.
O pastor conta que pregar em espaço público significa lidar diariamente com reações variadas. Enquanto algumas pessoas param para ouvir ou agradecer, outras fazem críticas duras. "Já fui chamado de louco, fanático, 'vagabundo', santarrão... Já ouvi de tudo", relata.
Segundo ele, também já enfrentou situações de tensão, com pessoas gritando, tentando iniciar discussões e chegando perto de uma agressão física. Mesmo assim, ele diz que não guarda mágoa e afirma que não vai desistir das pregações.
"Eu só olho e digo: 'tem misericórdia dele, Deus'. Um dia eu também rejeitei essa mensagem. Então é normal que eu seja rejeitado", analisa.
As pregações costumam durar entre duas e duas horas e meia. Para isso, Miguel utiliza apenas uma caixa de som portátil e um microfone. "Não precisa de muita coisa. Com uma caixinha e um microfone você faz um culto em qualquer lugar. E, se não funcionar, vai no gogó mesmo", brinca.
Além das mensagens religiosas, Miguel afirma que dedica parte do tempo ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade, acompanha comunidades e trabalha com clínicas terapêuticas voltadas à recuperação de dependentes químicos.
Ele também defende que igrejas ampliem o apoio social às pessoas mais necessitadas. "Não adianta ter um templo bonito se tem gente da própria igreja passando necessidade. Temos que cuidar da viúva, do órfão e de quem precisa", critica.
Mesmo após anos enfrentando críticas, Miguel garante que não pretende deixar as calçadas de Campo Grande tão cedo."Não estou aqui para receber aplausos nem xingamentos. Se vier qualquer um dos dois, é normal. O importante é continuar levando a mensagem", finaliza.
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