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Diversão

Deficiência não tirou Kleverton do samba e ele virou rei Momo aos 18 anos

Querido pelos amigos e a comunidade São Benedito, o jovem agora representa o Carnaval 2020 e vira celebridade no bairro.

Por Thailla Torres | 17/02/2020 06:08
Kleverton é morador da Comunidade São Benedito e o novo Rei Momo do Carnaval 2020. (Foto: Henrique Kawaminami)
Kleverton é morador da Comunidade São Benedito e o novo Rei Momo do Carnaval 2020. (Foto: Henrique Kawaminami)

Nasceu na Comunidade São Benedito o Rei Momo que acaba de ganhar o título de representante do Carnaval campo-grandense. Kleverton Borges Teodoro desbancou concorrentes aos 18 anos. O Carnaval e sonho de ser advogado dividiam seu coração desde à infância.

A paixão pelo Carnaval começou quando ele tinha cinco anos, quando participava dos ensaios da escola de samba Igrejinha. No início do ano, quando surgiu a inscrição para Rei Momo ele chegou a desistir da participação. “Achava que só podia gordinho e pensei que eu não teria chances”, explica. Quando os amigos e a organização do concurso falaram que não era regra o Rei Momo ser gordo, ele fez a inscrição. “Confesso que eu não imaginava ganhar”.

Orgulho do estudante é representar a folia e a própria comunidade. (Foto: Henrique Kawaminami)
Orgulho do estudante é representar a folia e a própria comunidade. (Foto: Henrique Kawaminami)

Kleverton venceu o concurso na última sexta-feira (14), durante o lançamento do Carnaval 2020 promovido pela Lienca (Liga das Entidades Carnavalescas de Campo Grande), na Praça do Rádio Clube.

“Eu fiquei muito feliz. Sinto uma paixão imensa pelo samba. É como se o ritmo e a cultura do samba fossem meus documentos. Não me imagino andando sem eles por aí”, declara.

A dedicação ao samba teve origem na própria deficiência, segundo o estudante, que está no 9° ano do Ensino Fundamental e tem displasia na coluna. “Como eu sentia muitas dores e não queria me deixar abater pela deficiência, eu ia sambar. E quando eu sambo ou danço qualquer outro ritmo não sinto dores”.

Kleverton nasceu com a deficiência, que prejudica o desenvolvimento e causa muitas dores. Mas o diagnóstico só ocorreu durante a infância. “Nasci normal. Mas comecei a sentir muitas dores e eu não cresci igual as outras crianças. Chegamos a pensar que era nanismo, mas foi diagnosticado a displasia”.

Depois do título ele recebeu muitos abraços. (Foto: Henrique Kawaminami)
Depois do título ele recebeu muitos abraços. (Foto: Henrique Kawaminami)
Jovem é o orgulho da família que ama o samba. (Foto: Henrique Kawaminami)
Jovem é o orgulho da família que ama o samba. (Foto: Henrique Kawaminami)

O tratamento começou na infância e ainda faz parte da rotina de Kleverton. As dores, segundo ele, diminuíram com a frequência da fisioterapia e o contato com a dança, que também o ajudou a lidar com o preconceito.

“Eu sou diferente para as pessoas. Quando era mais novo isso doía muito. Eu passava e as pessoas riam, comentavam, ficavam tirando sarro de mim. A sorte é que eu tive uma família e amigos que sempre me apoiaram e continuam me colocando para cima”.

Com autoestima Kleverton não fica mais sentado por horas em uma cadeira só por vergonha de andar diferente. “Antes era assim: eu ia numa festa, sentava e só me levantava a hora que todo mundo fosse embora para ninguém me ver mancando. Hoje eu não estou nem aí. Eu ando e sambo a hora que eu quiser”.

Aos 18 anos, ele sonha em ser advogado e permanecer no samba "para sempre". (Foto: Henrique Kawaminami)
Aos 18 anos, ele sonha em ser advogado e permanecer no samba "para sempre". (Foto: Henrique Kawaminami)

E ele não transmite alegria só na entrevista. Kleverton me contou a sua história enquanto caminhávamos pela rua principal da comunidade Tia Eva, onde ele cresceu e é região histórica da cidade. Por onde passávamos, um grito: “Ei, Rei Momo, parabéns” ou “Temos o nosso Rei Momo”, diziam os moradores na tarde de sábado, um dia depois dele vencer o concurso.

O rei fez questão de conversar com a reportagem próxima à igreja, tombada como patrimônio histórico de Mato Grosso do Sul e em área remanescente de quilombo, por isso, o título para ele ganhou novo sentido. “Mais do que representar o Carnaval de Campo Grande, minha alegria é dar orgulho para a minha comunidade. Aqui é minha casa, meu povo, minha felicidade. Aqui é o lugar que me sinto seguro e acolhido. Tenho muitos amigos e vizinhos queridos. E, por isso, fico muito feliz com esse reconhecimento”.

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Amigos e familiares estão em festa pelo título. (Foto: Henrique Kawaminami)
Amigos e familiares estão em festa pelo título. (Foto: Henrique Kawaminami)