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Faz Bem!

Da tortura psicológica ao abuso sexual, a obesidade faz muitos furos na alma

Por Liziane Berrocal | 18/05/2015 06:56
A Foto bonita é pra dizer que todo mundo pode e deve lutar por dias melhores do corpo e da alma!
A Foto bonita é pra dizer que todo mundo pode e deve lutar por dias melhores do corpo e da alma!

Naquela tarde de sol, talvez eu ainda não entendesse bem o que acontecia, eu era só uma criança de oito ou nove anos que nem sabia direito o que tinha acontecido comigo e porque eu estava sendo tão ridicularizada no meio da rua.

Eu morava na Vila Célia, um bairro de classe média, e havia um menino chamado Fernando. Ele tinha uns 14 anos, um garoto bonito, era um dos mais bonitos da turma, estávamos brincando na rua de baixo da minha casa, quando sem avisar ele veio e enfiou a mão por baixo da minha roupa e começou a gritar que eu era GORDA. “A gorda, olha a gorda, a gorda fedida, gorda, gorda, gorda”, e todo mundo ria. Lembro que minha irmã e minha amiga de infância Luciana me tiraram dali e fomos para casa, e continuamos a brincar, como se nada tivesse acontecido. Elas tiravam sarro de mim, mas não deixavam que ninguém me machucasse, não aceitavam, era nosso jeito de viver.

Guardei aquele episódio na mente durante anos e anos e só depois de muito tempo de terapia fui entender que todos os seres humanos também tinham cheiros, também poderiam ter problemas, também poderiam ser alvos de algozes preconceituosos. E você leitor pode estar se perguntando porque estou tocando nesse assunto se já estou emagrecendo, se já está “tudo bem”, se já passou.

Essa semana, das pessoas que me procuram sempre para saber sobre a cirurgia ou simplesmente para desabafar sobre o que sofrem com a obesidade, uma mulher linda que conheci quando morava em Bonito. Ela é exuberante. E ela então começou a me contar que engordou um pouco mais e que estava sofrendo muito preconceito por causa disso, que se sentia humilhada, queria saber sobre a cirurgia, como se deu o processo, e começamos a conversar.

Para minha surpresa, um dia, depois dessa conversa, minha amiga, tão linda foi comparada a um porco nas redes sociais em uma discussão besta, por um homem ridiculamente gordo, que simplesmente inventou na cabeça dele que ela tinha o chamado de porco, e começou a ofendê-la de todas as formas, sempre, claro, por ela ser gorda.

Lembrei então de tudo que aconteceu em minha gorda vida.

Eu sempre deixo a coluna da semana preparada, é algo pensado com carinho para vocês, e confesso que esse nem era o tema da vez. Mas há tempos venho querendo falar com você sobre os furos que a cirurgia bariátrica faz na gente. Há alguma semana falei sobre minha vida para o canal “Você no Youtube”, do jornalista Rodrigo Nascimento, e ele questionou sobre os furos que a cirurgia faz que seriam os furos na barriga (para chegar até o estômago, já que é por vídeo) e também os furos na “cabeça” que são os furos para preparar o psicológico.

Como eu sempre digo aqui, eu para os furos da barriga tenho meu cirurgião Cesar Conte e minha super Nutri Mariana Corradi e para os furos da cabeça tenho minha psicóloga e anjo da guarda Eliane Nishikuma, mas ali, entre lágrimas, confessei ao Rodrigo que além disso a cirurgia também fez furos na minha alma.

Os furos da alma são os mais difíceis de lidar, porque é por ali que sai aquilo que não é palpável, que não é muitas vezes controlável onde é você com você mesmo, e que é preciso muito jogo de cintura para lidar e para muitas vezes engolir o choro ou soltar o grito, sem medo de parecer ridícula ou perder a mão, coisa que o mundo muitas vezes não entende.

Confesso a vocês (essa semana foi a da confissão, com meus leitores, meus cúmplices) que foi preciso muito preparo para escrever essa coluna, foi um ensaio íntimo, foram semanas de conversa no grupo “Amigos da Nutri” onde já tinha confidenciado essa história do Fernando com as meninas e ouvido outras histórias até piores que essas, onde o abuso psicológico, a tortura psicológica e até mesmo o abuso sexual são justificados pelo fato da pessoa ser gorda (acredito, isso é fato), onde nesses quatro meses que estou escrevendo para vocês já conversei com pessoas de vários lugares do nosso Estado e do país que viveram e ainda vivem o preconceito diário e as dores de pessoas que não sabem respeitar o outro.

Gente que inclusive pensou em tirar a própria vida e que muitas vezes não encontrou uma palavra de conforto ou ouviu apenas um: “Que isso, basta apenas tirar a bunda da cadeira e ir se exercitar” ou “Fecha essa boca que você emagrece”. E sim, a cirurgia e todo seu acompanhamento podem sim ser uma tábua de salvação até para esses inexplicáveis furos na alma.

E então um dia me perguntaram, qual era o objetivo de se expor. E eu acredito que não é só por mim, é por você, é pela Maria, é pela Juliana, Sueli, Jacqueline, Mariana, Cristiane, Carola, Rubia, Izi, Marilia, Cassia, Larissa, Marcia, Cris, Nair, José, João, Victor, Paulo, Joaquim, por todos que um dia derramaram lágrimas por viverem a doença da obesidade e os furos da alma...

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