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Já se foi metade do ano mais louco de nossas vidas, que reflexões fazer?

No ano em que a vida de muita gente virou de cabeça para baixo, que reflexões 2020 te trouxe até agora?

Por Paula Maciulevicius Brasil | 02/07/2020 06:23
Só está faltando abdução para este 2020 terminar como o ano mais louco da vida desta geração. (Foto: Fernando Antunes)
Só está faltando abdução para este 2020 terminar como o ano mais louco da vida desta geração. (Foto: Fernando Antunes)

Os seis primeiros meses do ano não ficaram para trás só no calendário, como também nos planos e expectativas. Ninguém esperava a pandemia, e poucos ousam fazer projetos que envolvam o resto de 2020. Diante deste cenário, para você o ano está voando ou estagnado? Será que o período de isolamento fez com que nos tornássemos mais reflexivos?

Psicanalista, Isloany Machado, explica que por mais que sejamos atingidos por um evento global, como o coronavírus, sempre temos de pensar que a experiência é singular. "Porque ela atinge cada sujeito de um jeito diferente. Então, o tempo está passando mais rápido? Depende de como é a rotina de cada um", responde.

Na opinião da psicanalista, o mesmo vale para as reflexões, o que cada um reflete, é diferente. "Tem pessoas que estão refletindo mais, percebendo as próprias ações, mas tem muitas outras que estão numa cegueira, de achar que não é nada, que estão protegidas", comenta.

Mellina e Leandro, casal que passou junto a virada na Nova Zelândia, hoje está separado por conta da pandemia. (Foto: Arquivo Pessoal)
Mellina e Leandro, casal que passou junto a virada na Nova Zelândia, hoje está separado por conta da pandemia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Se alguém dissesse que depois da virada do ano na Nova Zelândia, ao lado do namorado, a arquiteta Mellina Bloss, de 33 anos, ficaria "presa" no Brasil por conta da pandemia ela não acreditaria. O casal foi fazer um intercâmbio, decidiu esticar a moradia um pouco mais, e ao vir para "casa" de férias, Mellina se deparou com a explosão de casos no mundo, as portas fechadas na Nova Zelândia, além do cancelamento de voos. Enquanto o namorado ficou lá, e ela aqui, a arquiteta arregaçou as mangas para se adaptar à nova realidade.

"Minha maior reflexão seria sobre a nossa capacidade de adaptação, porque a gente se adapta a qualquer condição, independente do quão diferente, difícil, trabalhosa ou desafiadora seja a questão, a gente tem a capacidade de se adaptar. Quando você está vivendo na sua zona de conforto, às vezes pensa que não consegue lidar com determinada situação. Dentre o que aconteceu neste meio do ano, digo que não é só a questão de se adaptar, mas de ver, viver, estar no momento e fazer o melhor que você pode dele", conta.

Ao ver que não havia nada que ela pudesse fazer diante do cenário mundial, Mellina se voltou para o voluntariado. "Para mim, na pandemia, ficou claro que essa noção de todo mundo é uma coisa só. O mundo inteiro está conectado de alguma forma e a pandemia mostra isso de maneira muito drástica".

Cerimonialista, Karla Lyara, de 30 anos, viveu extremos tanto na carreira, por ter visto todos os eventos serem remarcados, como na maternidade, quando deu à luz a Joaquim. O aprendizado vem junto com a fé que a mãe e empresária carrega. "O que posso dizer sobre esse ano? Que fazemos planos, estipulamos metas, mas nem tudo sai como planejamos. Eu acredito que tudo tem um propósito e essa pandemia veio ensinar muita coisa: a valorizar cada abraço, a respeitar o outro, a aproveitar mais o tempo com as pequenas coisas. Parece que estávamos vivendo no automático", acredita.

Joaquim nasceu em janeiro, e como ela teve parto normal, depois de 12 dias já voltou para a assessoria de eventos, com uma agenda lotada. "E aí veio a pandemia. Todos em casa. Eventos adiados. E eu, empreendedora, que teria que me privar de uma licença maternidade, fui “obrigada”. Esses meses sem eventos estão sendo difíceis para todos, nosso setor foi muito impactado, pois foi o primeiro a parar e será último a retornar. Mas procuro sempre ver o lado bom de tudo e pra mim está sendo cuidar do Joaquim, ver cada fase dele e dividir momentos que talvez não teríamos juntos!  Não sabemos como serão os próximos meses, mas tenho esperança que logo logo as coisas vão se ajeitando! Seguimos com fé!", diz.

Que reflexões você faz acerca da metade de um ano que já se foi? (Foto: Fernando Antunes)
Que reflexões você faz acerca da metade de um ano que já se foi? (Foto: Fernando Antunes)

A psicóloga Mariana Breve tem percebido na vivência de consultório e também de relatos de amigos, que as reflexões têm progredido muito neste período de pandemia. "As pessoas têm pensado mais e se colocado na frente das coisas que antes deixavam de lado", comenta.

No entanto, ela chama atenção para o fato de que não tem mais a ver com a pandemia em si, e sim no contexto como um todo. "Quando tudo explodiu, em março, era esse o tema. Mas hoje a gente está trabalhando com o desenrolar dessas questões: o ficar em casa, a volta ao trabalho, são coisas que desdobraram disso. As pessoas têm sido ficado mais reflexivas e isso, para um processo terapêutico, é bom", avalia.

Mariana também nota o quanto estamos prestando mais atenção e falando sobre as nossas escolhas. "Como eu cheguei aqui? O que eu escolhi? O que eu fiz? O que não fiz? O que fizeram para mim para que eu chegasse onde estou hoje?" levanta.

Para o restante do ano, a psicóloga espera que as reflexões caminhem ao encontro de meios de lidar com o medo, a raiva e as frustrações de maneira saudável. "Mantendo-se em segurança e sem cair em ondas negacionistas. A pandemia está aí, obrigando muita gente a olhar para o pior de si e do outro, então que consigamos sair sãos e salvos da ignorância que nos trouxe até aqui", pontua.

Você está se observando? Olhando para dentro, e trazendo para a sua frente coisas que até então deixava de lado? (Foto: Fernando Antunes)
Você está se observando? Olhando para dentro, e trazendo para a sua frente coisas que até então deixava de lado? (Foto: Fernando Antunes)

Apocalipse - Por sermos ligados a ideias religiosas, o imaginário popular volta e meia é tocado pelo tema "fim do mundo", e sobre isso, o professor e coordenador do curso de Teologia da UCDB, padre Adriano Stevaneli, tem muito a falar. "O mundo já passou por várias epidemias, mas a nossa geração está tendo essa experiência pela primeira vez, então essas perguntas voltam para busca de um significado de tudo isso, buscando para além do mundo, uma resposta que podemos encontrar aqui no mundo", diz.

Quando se fala de "fim do mundo", o padre explica que se conclui que se tem um Deus por trás que está na causa da pandemia. "E a resposta é muito clara: nós estamos em um mundo que adoeceu, quando Papa Francisco fez aquela celebração em que se encontrava sozinho ele falava que a gente queria levar a vida como estávamos levando, esquecendo que nós estamos em um mundo que adoeceu, e agora ele está pedindo as contas".

O padre é enfático em dizer que "se refugiar em respostas apocalípticas tira a nossa responsabilidade de fazer uma auto-reflexão. "Porque no fundo a pandemia está nos pedindo que possamos colher este momento como momento de profunda reflexão para não sairmos os mesmos depois".

Quanto a sensação do tempo, Adriano diz que ele está muito ligado ao psicológico, e que no caso, nós já vinhamos com essa sensação antes da pandemia, pelo turbilhão de coisas em que vivemos. "Uma correria, uma busca de tantas coisas que nos esquecemos do essencial. Eu diria que a ideia de fim de mundo pode ser transformada em revisão deste mundo", sugere.

O padre também convida a uma reflexão. Quando se coloca "fim do mundo" na jogada estamos falando da proximidade da morte. "A morte está muito mais próxima de nós por causa de um vírus que pode nos afetar, e afetar pessoas que nós amamos, e essa ideia da nossa finitude pode ser colhida para fazermos uma revisão e melhorar a nossa vida. O que é mesmo essencial? Um abraço", fala sobre justamente o que está nos fazendo mais falta.

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Pandemia nos isolou, e forçou uma reflexão sobre a vida, onde estamos e o que fizemos para chegar até aqui. (Foto: Fernando Antunes)
Pandemia nos isolou, e forçou uma reflexão sobre a vida, onde estamos e o que fizemos para chegar até aqui. (Foto: Fernando Antunes)