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Meio Ambiente

Fogo no Pantanal começou por ação humana em fazendas, diz estudo do MP

Levantamento contraria conceito de "boi bombeiro" defendido pelo Governo para justificar incêndio recorde

Por Tainá Jara | 05/04/2021 17:27
Brigadas combatem incêndio no Pantanal, na região de Aquidauana (Foto: Divulgação-Previfogo)
Brigadas combatem incêndio no Pantanal, na região de Aquidauana (Foto: Divulgação-Previfogo)

A maior parte dos incêndios registrados no Pantanal, em 2020, tiveram início possivelmente por ações antrópicas em fazendas, conforme aponta levantamento de pontos e causas de ignição realizado pelos Ministério Públicos de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul. O levantamento contraria teses como a do "boi bombeiro" defendida pelo governo federal para justificar incêndio recorde.

Dos 4,5 milhões de hectares do Pantanal brasileiro, 30% foi consumido pelo fogo. Levantamento técnico, para nortear as ações dos órgãos, foi apresentado, nesta segunda-feira, em live organizada para debater estratégias para 2021, aponta ainda que as ocorrências se concentraram no período proibitivo, portanto, quando não estavam autorizadas queimas controladas em propriedades rurais.

Do total de áreas consumidas pelo fogo, 2 milhões de hectares estavam no Mato Grosso do Sul, abrangendo nove municípios, 722 propriedades inscritas no CAR (Cadastro Ambiental Rural), 11 unidades de conservação e três terras indígenas.

No Estado vizinho, área de 2,5 milhões foi consumida pelo fogo, em 12 municípios, atingindo 1336 propriedades inscritas no CAR, cinco unidades de conservação e três terras indígenas.

Por estudo de georreferenciamento, foi possível detectar 286 pontos de ignição, ou seja, locais onde começaram o fogo. Conforme o levantamento, 57,77% iniciaram possivelmente por ações antrópicas, 21,84% em margem de rios, 16,9% em estradas particulares, 2,43% em rede elétrica e 0,97% em estradas públicas.

A maior parte dos focos, 69,75%, começou em áreas vegetação rasteira e pastagem, comuns em propriedades rurais. Outros 30,25%, em áreas de vegetação nativa.

(Imagem: Divulgação MPMS)
(Imagem: Divulgação MPMS)

O resultados dos estudos desmonta conceitos como do "boi bombeiro", defendida na época pela ministra da Agricultura Tereza Cristina. Em debate sobre quem seria o responsável pelo aumento dos focos de incêndio no bioma, ela defendeu os produtores rurais ao dizer que a presença do gado no Pantanal auxilia na prevenção a incêndios.

Ao comer capim seco e inflamável, segundo ela, o boi acabaria prevenindo o avanço do fogo. O aplicação incorreta do termo foi apontada inclusive por seu próprio criador, o pesquisador da Embrapa e professor aposentado da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Arnildo Pott, já  que não se aplicaria para áreas inundadas como o Pantanal.

Responsáveis - De acordo com o promotor do Núcleo Ambiental do MPMS, Luciano Furtado Loubet, o estudo traz caracterização mais nítida sobre o incêndio recorde registrado no Pantanal, mas não é capaz de apontar responsáveis.

“É praticamente impossível, somente com as imagens da satélite, identificar a causa real da ignição desses incêndios. Não é como uma câmera que ficará filmando 24h. Sabemos que o incêndio começou, os pontos, mas não tem como constatar efetivamente se foi uma pessoa que riscou um fósforo, alguém que colocou fogo propositalmente, se é um carro que passou e jogou um cigarro e pegou fogo naquela área”, exemplificou.

O promotor lembrou, no entanto, que em todos estes pontos de ignição foram excluídas questões meteorológicas para a causa dos incêndios, como raios, visto que era período de estiagem severa

Sete vezes mais – Apesar de ter maior parte da área do Pantanal consumida pelo fogo, Mato Grosso do Sul registrou sete vezes mais pontos de início de incêndio que Mato Grosso. A maioria das ocorrências foi verificada em propriedades rurais, portanto, fora de terras indígenas e unidades de conservação.

Dos 286 pontos de ignição, 206 ocorreram fora de terras indígenas. É preciso considerar que vários focos foram verificados em uma mesma propriedade.


MS - 239 pontos:


- 120 focos em 90 propriedades rurais;

- 1 em unidade de conservação ( Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro);

- 78 em terras indígenas (Terra Indígena Kadiwéu);

- 40 em áreas não identificadas;


MT - 47 pontos:

- 32 pontos em propriedades rurais (31 propriedades rurais);

- 2 pontos em terra indígena (Terra Indígena Teresa Cristina);

 - 13 pontos em áreas não identificadas.

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