Gringos atravessam o mundo para ver araras que vivem em Campo Grande
Tour internacional passa por instituto e mostra como conservação virou atração turística
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Para muita gente em Campo Grande, a arara que cruza o céu azul é quase parte do cenário. Passa, grita, pousa, disputa ninho, some entre prédios e palmeiras. Para um grupo de 10 norte-americanos, porém, a cena tem outro peso. Eles levantam binóculos, ajustam câmeras de lentes longas e observam em silêncio, como quem sabe que está diante de algo raro.
RESUMO
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Um grupo de dez turistas norte-americanos visitou o Instituto Arara Azul, em Campo Grande, durante um tour de 18 dias de observação de aves e vida silvestre. Antes de seguir ao Pantanal, conheceram ninhos monitorados e acompanharam a biometria de filhotes de maracanã. O instituto monitora mais de 300 ninhos na zona urbana e recebe visitantes estrangeiros regularmente, promovendo educação ambiental e divulgando a conservação brasileira no exterior.
O grupo está em um tour de 18 dias de observação de aves e vida silvestre. Antes de seguir para o Pantanal Norte, fez questão de incluir no roteiro uma parada no Instituto Arara Azul, em Campo Grande. A visita começou com uma aula da bióloga Larissa Tinoco, pesquisadora do Projeto Aves Urbanas, traduzida simultaneamente por Fernanda Fontoura. Depois, todos saíram para campo.
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A primeira parada foi na Rua Bom Pastor, onde há um ninho monitorado pelo projeto. Estava vazio. As araras-canindé ainda estão na temporada de “visitação”, quando exploram diferentes locais antes de escolher onde vão se reproduzir. O período de acasalamento deve começar no fim do próximo mês.
A ausência das araras no primeiro ponto não desanimou o grupo. Na Rua São Félix, os visitantes encontraram um ninho ocupado por uma família de maracanãs-de-cara-amarela, também chamadas de ararinha ou maracanã-de-cabeça-amarela. Ali, a observação virou experiência de perto. Os filhotes foram retirados com cuidado, medidos e passaram por biometria diante dos olhos atentos dos estrangeiros.
Larissa conta que receber visitantes de fora já faz parte da rotina do instituto, mas nem por isso perdeu a importância. “É muito gratificante poder mostrar nosso trabalho. São pessoas que vêm todo ano, grupos que já conhecem boa parte do que fazemos e que nos visitam anualmente, acompanhando nosso trabalho de campo”, afirmou.
Segundo ela, a visita vai além da curiosidade turística. “É um trabalho que, além de divulgar o que fazemos, também envolve educação ambiental. A gente compartilha conhecimento científico com pessoas que não moram aqui e que vão levar essa experiência para onde vivem”, disse.
O encantamento dos visitantes tem explicação. O Instituto Arara Azul monitora mais de 300 ninhos na zona urbana de Campo Grande e em áreas próximas. Para quem vem de fora, impressiona ver aves grandes, coloridas e livres vivendo sem ceva, sem contato direto com humanos e em meio ao barulho da cidade.
“O que a gente nota quando recebe essas pessoas é que elas ficam encantadas por poder observar esses animais em vida livre. Elas vêm, de fato, para observar a vida selvagem”, explicou Larissa.

Campo Grande, nesse roteiro, funciona como uma espécie de porta de entrada do Pantanal. Antes das onças, baías, corixos e estradas de terra, os visitantes descobrem que a vida silvestre também aparece no alto das árvores de uma rua comum. “Por ter as araras e outras aves, Campo Grande propicia esse ponto de partida dessa observação antes de irem para o Pantanal, que é o destino final dessas pessoas”, disse a pesquisadora.
Para Larissa, a relação com as araras também deixou de ser apenas profissional. “Eu costumo dizer que não imaginava trabalhar com as araras, mas hoje não me vejo fazendo outra coisa. É muito gratificante quando vejo uma arara voando, ou um animal anilhado, e sei que a gente acompanhou, que passou por nossas mãos, ou que contribuí para que ele vivesse livre na natureza”, afirmou.
Entre os guias do grupo estava Victor do Nascimento, o Vitinho, de 55 anos. Nascido e criado na Fazenda Caiman, no Pantanal de Miranda, ele começou como tratorista e se tornou guia naturalista especializado em observação de aves. Hoje mora em Bonito e acompanha grupos estrangeiros em viagens pelo Pantanal, pela Photo in Natur.
Ao falar da própria trajetória, Victor se emociona. Os olhos enchem de lágrimas quando ele tenta explicar o que as araras representam. “As araras e todo o ecossistema do Pantanal mudaram minha história. Isso é importante para a conservação”, disse.
Ele aprendeu inglês no dia a dia, depois estudou na África do Sul e voltou ao bioma para trabalhar com turismo de natureza. “Eu nasci em um lugar que turistou o mundo. Poderia estar trabalhando com outra profissão, mas foi essa que escolhi”, contou.
Para Victor, o trabalho é mais do que conduzir visitantes. É uma troca. “Eles gostam de ter uma pessoa local acompanhando. Isso é importante. A gente passa o que conhece, e eles trazem experiências de outros lugares. A gente está sempre aprendendo. Nunca termina”, afirmou.
O grupo é liderado pelo norte-americano Dave Davenport, dono da EcoQuest Travel, agência de ecoturismo sediada em Four Oaks, na Carolina do Norte (EUA). Biólogo de formação, com mestrado em Zoologia, ele já conduziu viagens de ecoturismo em mais de 40 países. Esta é a quinta vez dele em Campo Grande, e a agenda para 2027 já tem espaço reservado para voltar.
Dave explica que traz turistas ao Brasil porque o Pantanal é um ecossistema único. Mas faz questão de incluir o Instituto Arara Azul no roteiro porque, para ele, observar as aves não basta. É preciso entender o que está sendo feito para protegê-las. “O Pantanal é um ecossistema muito importante, único, principalmente para o Brasil. E as araras são um dos símbolos do Pantanal”, afirmou, em entrevista traduzida por Victor.

Ele diz que os clientes vêm ao Brasil querendo ver as araras, mas saem com algo a mais. “É importante que as pessoas dos Estados Unidos, quando vêm para o Brasil, não apenas vejam essas aves, mas entendam o que está acontecendo com elas, com o ecossistema e com a conservação”, disse.
Dave conheceu o trabalho do Instituto Arara Azul há muitos anos e classifica o projeto como uma referência. “É importante trazer as pessoas aqui para ver a conservação brasileira em ação. É uma história de sucesso de conservação, e nós precisamos de mais histórias assim no mundo”, termina.
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