Novo presidente da Fecomércio vê Centro, mão de obra e eventos como desafios
Juliano Wertheimer defendendo mais qualificação, revitalização urbana e estrutura para atrair investimentos
Empossado nesta terça-feira (16) como novo presidente da Fecomércio-MS (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso do Sul), Juliano Wertheimer afirmou que considera superada a disputa eleitoral vencida por apenas um voto e disse que pretende governar para todos os sindicatos da base, inclusive os que apoiaram a chapa adversária. A declaração foi dada durante coletiva no Senac Hub, em Campo Grande, depois da posse que marcou o fim da gestão de Edison Araújo, que comandava a entidade havia 16 anos.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Juliano Wertheimer tomou posse nesta terça-feira como novo presidente da Fecomércio-MS, após vencer a eleição por 8 votos a 7. Em coletiva, adotou tom conciliador, prometeu governar para todos os sindicatos e destacou prioridades como qualificação profissional, combate à falta de mão de obra, redução da carga tributária e atração de eventos corporativos para Campo Grande. Ele criticou o fim da escala 6x1, classificando a proposta como uma catástrofe para o setor produtivo.
A eleição ocorreu em 12 de maio. A chapa “Renovação”, liderada por Juliano, venceu por 8 votos a 7 a chapa “Consolidação”, encabeçada por Edison, que tentava continuar à frente da federação. O resultado, porém, passou a ser contestado por três sindicatos, que pedem a suspensão do pleito na Justiça e apontam supostas irregularidades envolvendo filiação, cadastro, inadimplência, CNPJ e dupla filiação de entidades que participaram da votação.
- Leia Também
- Endividamento cresce e já compromete renda de 72% da Capital
- Qual será o principal gasto no Dia dos Namorados? Participe da enquete
Questionado sobre a crise interna, Juliano negou que a eleição tenha ocorrido sob condição judicial pendente e afirmou que os 15 sindicatos votaram em igualdade de condições. “Apesar do discurso até aqui ser de eleição sub judice, não tinha nada sub judice. Sub judice é dizer: ‘olha, o Juliano vai votar separado e depois nós vamos ver se o voto dele vale’. Mas não aconteceu. Os 15 sindicatos votaram em pé de igualdade, todos na mesma caixinha. Se abriu e se revelou o resultado”, afirmou.
Segundo o novo presidente, houve nove decisões judiciais relacionadas ao processo eleitoral, todas, na avaliação dele, favoráveis à validade do pleito. “Foram nove decisões favoráveis à democracia, favoráveis ao pleito legítimo e favoráveis a permitir que todos votem. Eu tenho um grande orgulho de dizer: vencemos no voto. A briga foi apenas para podermos votar”, disse.
Juliano adotou tom conciliador ao falar da chapa derrotada. Disse que, uma hora depois do resultado, procurou integrantes do grupo adversário para se colocar à disposição e afirmar que a nova gestão não seria voltada apenas aos apoiadores da chapa vencedora. “Eu liguei para as pessoas que votaram na outra chapa para primeiro me colocar à disposição, dizer que vou governar para todos, dizer que conto com eles, que vou trabalhar pela cidade, pelo sindicato, pelas demandas deles e que gostaria de contar com eles também”, declarou.
O presidente também afirmou que conversou pessoalmente com Edison antes da posse e que houve uma tentativa de pacificação. “O presidente Edison e eu conversamos pessoalmente ontem. Houve um apaziguamento da situação. Houve consenso na posse de hoje, houve o reconhecimento da vitória. Houve a minha insistência para que ele participasse desse momento, com a garantia de que seria tratado com todo o respeito e deferência que os 16 anos de gestão dele merecem”, disse.
Para Juliano, a disputa não pode contaminar o funcionamento da federação. “Mesmo tendo ganho no voto, acho que tem que ter depois disso uma questão de harmonia, porque no dia seguinte estamos todos juntos e temos pelo menos quatro anos pela frente para construir juntos. Eu preciso trabalhar pelos que votaram em mim e pelos que não votaram. Nem o sindicato, muito menos a cidade, pode ser penalizada por uma disputa que envolveu 15 pessoas.”
“Da porta para fora” - Na coletiva, Juliano afirmou que a gestão anterior fez um trabalho consistente de estruturação interna do sistema, especialmente no Sesc (Serviço Social do Comércio) e no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). Para os próximos quatro anos, disse que a proposta é ampliar o foco nos empresários, nos sindicatos da base e no desenvolvimento econômico.
“A gente só constrói o futuro olhando para o passado. Hoje tivemos uma apresentação do ex-presidente com as realizações dos últimos 16 anos e houve um trabalho muito consistente da porta para dentro, estruturando o Senac e o Sesc. Hoje somos os maiores formadores de mão de obra técnica e profissional do Estado. Mas agora a gente vai ter uma gestão com olhar da porta para fora, focada no empresário, no desenvolvimento econômico e principalmente nos sindicatos da base”, afirmou.
Segundo ele, a federação será comandada de forma compartilhada. “Os sindicatos não fazem parte da federação, eles são a federação em si. Então, o que vocês podem esperar é uma gestão compartilhada. Nós vamos governar juntos, ouvindo muito as pessoas, indo às regiões, interiorizando as nossas ações e principalmente com foco no desenvolvimento econômico e nos empresários que alimentam o sistema.”
Mão de obra - Um dos pontos mais repetidos por Juliano foi a falta de mão de obra, que, segundo ele, atinge todos os setores do comércio e dos serviços. O novo presidente disse que o Senac tem estrutura para formar profissionais, mas que o maior desafio é convencer parte da população a buscar qualificação e enxergar o trabalho técnico como carreira, não como ocupação temporária.
“A maior dificuldade é a pessoa querer ter essa formação. Muitas vezes, você vai numa comunidade e diz: ‘olha, eu tenho um curso de graça, tem lanche, você vai sair de lá com um salário de R$ 2 mil’. Às vezes, não consegue fechar uma turma. Então, acho que o maior desafio é engajar as pessoas que estão alheias ao mercado de trabalho para enxergar o valor de uma formação técnica”, disse.
Ele citou profissões como garçom, camareira, recepcionista, cozinheiro, manicure, cabeleireiro e profissionais de tecnologia como áreas com demanda aberta. “Todos os setores precisam. Eu não vejo ninguém me dizer que está tranquilo com funcionário. Nos hotéis, você não consegue achar camareira, recepcionista, cozinheiro. No salão de beleza, não consegue uma boa manicure, pedicure e cabeleireira. Em TI, já são ótimos salários e, mesmo assim, continua faltando.”
Juliano também defendeu que a formação vá além da técnica. “A gente sempre diz que contrata por conhecimento e demite por comportamento. Então, uma das nossas responsabilidades será desenvolver comportamento de trabalhador nas pessoas, para elas serem comprometidas com horário, frequência e responsabilidade nas tarefas.”
Escala 6x1 - Ao ser questionado sobre a discussão nacional em torno do fim da escala 6x1, Juliano fez uma das falas mais duras da coletiva. Ele classificou a proposta como uma “catástrofe” para o setor produtivo e afirmou que a mudança pode aumentar custos, pressionar preços e reduzir o poder de compra dos trabalhadores.
“O fim da 6x1 é uma catástrofe. Nenhum país do mundo impõe jornada dizendo quantos dias por semana um trabalhador trabalha ou não. Discute-se horas de trabalho, mas ninguém no mundo diz quantos dias por semana o trabalhador trabalha. Isso é uma inovação negativa”, afirmou.
Na avaliação dele, o debate chegou à população de forma simplificada. “A maneira como foi apresentada foi muito capciosa. É uma pergunta simples: quer trabalhar menos e ganhar igual? A maioria respondeu que sim. A minha pergunta é: quem são os que não querem? Mas, na medida em que a população foi entendendo os impactos, foi mudando de opinião.”
Juliano citou o caso de garçons, vendedores e trabalhadores que recebem comissão ou gorjeta. “Pergunta para qualquer garçom se ele quer trabalhar cinco dias. Ele vai dizer: ‘não, quero trabalhar seis, porque senão perco caixinha’. Tem garçom que ganha o salário base e mais R$ 5 mil de 10%. Um bom vendedor chega a triplicar o salário. Quando ele perde um dia de trabalho, está perdendo parte da renda.”
O presidente da Fecomércio-MS disse que a redução da jornada, se aprovada sem compensação, seria repassada aos preços. “Um restaurante que tem 20% do custo na folha de pagamento, se essa folha for onerada em 20%, vai impactar no preço final do prato. Um prato que custava R$ 100 vai passar para R$ 108, R$ 109. No setor de serviços, onde 80% do custo é mão de obra, o impacto pode ser ainda maior. Então, as pessoas continuam ganhando igual, mas valendo menos. Isso é aumento de inflação.”

Centro e segurança - Juliano também foi questionado sobre a perda de movimento no Centro de Campo Grande. Ele disse ver a situação com preocupação e apontou a falta de segurança, a degradação de imóveis e a baixa ocupação habitacional como fatores que afastam consumidores e empresários da região.
“O Centro de Campo Grande não é diferente de outros centros de grandes cidades, mas esse é o nosso e é desse que temos que cuidar. Eu enxergo com muita preocupação a situação do Centro. Você não tem segurança, você não passeia, não vai com a família, não faz suas compras”, afirmou.
Ele citou a região da antiga rodoviária como exemplo de degradação. “Hoje, indo para a Fecomércio, passei ali ao lado da rodoviária antiga. É triste de ver. A gente entende a situação de vulnerabilidade daquelas pessoas, entende também a decadência imobiliária, porque o dono de imóvel não se sente impelido a investir na região, já que sabe que não vai alugar para ninguém.”
Para Juliano, a recuperação passa por mais moradores no Centro. “Esse centro passa por adensamento habitacional. A gente observa em Belo Horizonte, São Paulo e outras capitais centros que eram decadentes e voltaram através de empreendimentos imobiliários habitacionais. Uma vez que começa a habitar, começa a precisar de mercado, farmácia, loja. Aí passa a ter vida.”
Ele disse que pretende pedir à prefeitura tratamento diferenciado para imóveis da região central. “Penso que esses imóveis do Centro tinham que ter um tratamento diferenciado perante a prefeitura. O custo de criar um comércio no Centro, hoje, pode ser parecido com o de um bairro mais nobre. Então, as pessoas acabam optando por outros bairros em vez de prestigiar a região central.”
Rota Bioceânica e eventos - Ao tratar da Rota Bioceânica e da expansão econômica de Mato Grosso do Sul, Juliano afirmou que a federação deve atuar para aproximar empresas locais dos grandes investimentos em curso no Estado, especialmente na indústria e na logística. Segundo ele, o comércio e os serviços ainda participam menos do que poderiam desse ciclo.
“Esse momento econômico é um trem puxado pelo agro, pela indústria e pelo comércio. A gente tem visto o agro voando, a indústria voando e o comércio ficando um pouco alheio a todo esse ciclo virtuoso. Vemos grandes empresas implantando operações aqui, outras grandes empresas de fora atendendo suas demandas de serviço e fornecimento, e pouca participação das empresas locais, ou menos do que poderíamos ou gostaríamos”, disse.
Juliano afirmou que a Fecomércio-MS deve ajudar empresários locais a entrar na cadeia de fornecimento dessas grandes empresas. “A federação vai ter papel estratégico na interlocução com esses grandes players, levando os empresários da base para o ciclo de fornecimento. Se uma indústria disser que precisa de uma empresa para fazer determinado serviço, e a gente não localizar no Estado, vamos localizar o empresário que tenha vontade de desenvolver aquela atividade. Aí trazemos para dentro de casa, com o Sebrae, na consultoria, e com o Senac, na qualificação.”
Ele também voltou a defender a construção de um grande centro de convenções em Campo Grande. Na avaliação dele, a falta de estrutura impede a Capital de receber eventos corporativos de grande porte, justamente no momento em que o Estado tenta se vender como novo polo econômico.
“Se uma grande empresa de celulose resolver fazer uma conferência nacional na capital mundial da celulose, que somos nós, e quiser colocar 10 mil pessoas em ambiente climatizado, não temos local. Se precisar de 2 mil vagas de estacionamento, não temos onde colocar. Se precisar de leitos para acomodar todas as pessoas em categoria quatro e cinco estrelas, também não temos. E depois não temos avião para atender essa demanda”, afirmou.
Para Juliano, eventos corporativos trariam dinheiro novo à economia local. “Quando você tem um grande evento, seja de lazer ou corporativo, tem dinheiro novo vindo para a cidade. Um evento movimenta hotel, restaurante, shopping, ambulante, transporte, som, luz, alimentação. O turismo de negócios irradia para o interior. A pessoa vem para o evento de segunda a quinta e, no fim de semana, pode ir para Bonito, Pantanal, Ponta Porã ou outras regiões.”
Tributos e pequenos negócios - Juliano também prometeu ampliar a discussão sobre carga tributária. Ele defendeu a criação de um núcleo de estudos tributários dentro da Fecomércio-MS para buscar alternativas que reduzam custos dos empresários sem comprometer as contas públicas.
“Nós teremos um núcleo de estudos tributários e lá eles vão buscar tudo o que melhore a condição dos nossos empresários, sem desequilibrar as finanças do Estado. Sempre explicando que, muitas vezes, cobrar um pouco menos gera mais movimento”, afirmou.
Ele citou benefícios fiscais concedidos a bares e restaurantes durante e após a pandemia como exemplo de negociação possível com o poder público. “Tivemos isenção de IPVA por um ano para veículos registrados no CNPJ de restaurantes e também isenção de ICMS para quem estava no Simples. Vários restaurantes maiores tiveram redução de 7% para 2%. Na pandemia, isso representou sobrevivência. Hoje representa injeção de capital, inovação, ampliação e crescimento dos negócios.”
Bonito e Sesc - Sobre investimentos do Sesc em Bonito, Juliano afirmou que obras e projetos já acordados serão mantidos, mas disse que ainda precisa se inteirar sobre novos planos e sobre o inventário de imóveis da entidade.
“O que você pode esperar da minha parte é compromisso com o que foi acordado. Todas as obras que estão apalavradas, iniciadas ou projetadas vão ter tratamento e serão entregues dentro do prazo. Novos projetos, eu preciso entrar, me inteirar, saber o que tem”, disse.
Ele também afirmou que Sesc e Senac não devem concorrer com os empresários que sustentam o sistema. “O Sesc e o Senac não deveriam ser concorrentes das pessoas que geram receita para nós. Deveriam ser complementares e principalmente servir como centros de estudo. Se não estiverem cumprindo essa função social, vamos fazer voltar para esse caminho", termina.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.




