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Meio Ambiente

Pantanal perde Seu Vicente, guardião da língua e costumes do povo Guató

Ancião vivia às margens do Rio São Lourenço e preservava as tradições da comunidade

Por Gustavo Bonotto | 04/08/2026 21:42
Pantanal perde Seu Vicente, guardião da língua e costumes do povo Guató
Seu Vicente às margens do Rio São Lourenço, no último registro feito pelo IHP. (Foto: Instituto Homem Pantaneiro)

Vicente Manoel da Silva, conhecido como Seu Vicente, morreu aos 81 anos nesta terça-feira (4), em casa, às margens do Rio São Lourenço, na divisa de Mato Grosso do Sul com Mato Grosso. Informações preliminares apontam que ele morreu por causas naturais. Bombeiros da base avançada da Barra do São Lourenço atenderam a ocorrência.

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Vicente Manoel da Silva, o Seu Vicente, indígena guató considerado um dos últimos falantes da língua materna de seu povo, morreu aos 81 anos nesta terça-feira (4), em sua casa às margens do rio São Lourenço, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. A causa foi natural. Ele vivia isolado no Pantanal, a mais de seis horas de barco de Corumbá, mantendo tradições ancestrais como a pesca e a construção de canoas.

Indígena guató, Seu Vicente era considerado um dos poucos integrantes do povo que ainda dominavam a língua materna. Ele passou décadas no Porto Caracará, em uma região isolada do Pantanal, a mais de seis horas de barco de Corumbá. Não existem estradas próximas à casa.

O isolamento não afastava Seu Vicente do modo de vida que aprendeu com os antepassados. Ele pescava nos corixos, percorria os rios em uma canoa feita de um único tronco e usava remo, zinga, arpão, vara de pesca e zagaia. Também sabia tocar ganzá e viola de cocho.

Seu Vicente nasceu em 30 de maio de 1945, filho de pai e mãe guató. Ele ocupava o mesmo território onde gerações da família viveram e dividiu a casa com a mãe, dois irmãos e dois tios. Com a morte dos parentes, permaneceu sozinho no local.

A mãe, Júlia, e o tio José foram sepultados perto da residência, em uma área considerada sagrada pela família. Nos últimos anos, moradores da Barra do São Lourenço, brigadistas e funcionários do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense mantiveram contato frequente com ele.

Uma das canoas de ximbuva construídas por Seu Vicente foi doada ao Memorial do Homem Pantaneiro. A embarcação integra o acervo como registro da presença do povo canoeiro e de sua relação com a conservação do território.

A equipe do IHP (Instituto Homem Pantaneiro) visitou o morador pela última vez em maio deste ano, durante trabalho de acompanhamento socioambiental na Serra do Amolar. A instituição também havia ajudado na compra da primeira rabeta de Seu Vicente e na instalação de energia solar e de uma geladeira na casa.

A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) deve levar uma urna funerária à região nesta quarta-feira (5). Até a noite desta terça-feira, a família e as instituições que acompanham a comunidade ainda não tinham divulgado informações sobre o sepultamento.