Tamanduá-bandeira leva trabalho de MS à National Geographic
Edição de setembro destaca conservação da espécie e atuação nas rodovias

Dos acostamentos de Mato Grosso do Sul para as páginas de uma das revistas mais conhecidas do mundo. O trabalho para evitar que tamanduás-bandeira morram atropelados nas rodovias brasileiras é protagonista de uma reportagem de 16 páginas da edição de setembro da National Geographic.
RESUMO
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A National Geographic dedica 16 páginas de sua edição de setembro ao trabalho de conservação de tamanduás-bandeira em rodovias brasileiras, com destaque para Mato Grosso do Sul. É a primeira vez nos 138 anos da revista que a espécie é tema central de uma reportagem. O material, fotografado pelo brasileiro Fernando Faciole, aborda o Projeto Bandeiras e Rodovias, que entre 2017 e 2020 registrou mais de 12 mil animais atropelados em quatro rodovias, incluindo 766 tamanduás-bandeira.
A publicação é histórica para a espécie. Segundo o fotógrafo brasileiro Fernando Faciole, responsável pelas imagens, esta é a primeira vez nos 138 anos da revista que os tamanduás-bandeira são tema central de uma reportagem. Também é, conforme Faciole, a primeira história sobre natureza produzida por um brasileiro e publicada na revista desde 2013.
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Embora a reportagem trate dos desafios enfrentados pela espécie no Brasil, Mato Grosso do Sul ocupa boa parte da narrativa. As páginas mostram animais monitorados no Estado, pesquisadores trabalhando nas rodovias, um mapa das áreas de maior risco de atropelamento e até as obras de passagens de fauna na BR-262.
O material foi escrito pelo jornalista ambiental Ben Goldfarb e fotografado por Faciole. Nesta quarta-feira (12), o fotógrafo mostrou nas redes sociais algumas das páginas da edição impressa, que chegará ao público em setembro. O ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), responsável pelo Projeto Bandeiras e Rodovias, também comemorou a publicação.
“É um sonho realizado para mim”, escreveu Faciole ao apresentar o trabalho. Segundo ele, além da realização profissional, a reportagem dá aos animais uma atenção que considera necessária.
As páginas reveladas permitem dimensionar o trabalho realizado em Mato Grosso do Sul. A reportagem acompanha o biólogo Arnaud Desbiez, fundador do projeto de conservação, e pesquisadores que transformaram as mortes nas estradas em dados para tentar evitar novos atropelamentos.
O levantamento começou em 2017. Durante três anos, uma pequena equipe percorreu cerca de 85 mil quilômetros em quatro rodovias brasileiras, registrando cada animal encontrado morto.
Resultado impressiona: foram mais de 12 mil animais atropelados, entre eles 1,2 mil animais semelhantes a cães, macacos e quatis, 968 capivaras, além de 766 tamanduás-bandeira.
E o número real pode ser maior. Conforme relata a National Geographic, os pesquisadores estimam que os animais encontrados representam apenas cerca de um quarto dos atropelamentos. Carcaças podem ser retiradas rapidamente da pista ou ficar longe o suficiente da estrada para não serem encontradas pelas equipes.
O projeto não se limitou a contar animais mortos. Pesquisadores também capturaram tamanduás vivos, instalaram equipamentos de rastreamento e passaram a acompanhar seus deslocamentos pelo Cerrado. A intenção era descobrir onde atravessavam as rodovias e identificar os pontos de maior perigo.
Uma das páginas da revista mostra justamente um mapa de Mato Grosso do Sul com os locais onde a probabilidade de colisão com tamanduás é maior. Os dados passaram a orientar o planejamento de cercas e outras estruturas de segurança.
A pesquisa encontrou um argumento capaz de aproximar a conservação ambiental da segurança no trânsito: atropelar um animal de grande porte também pode matar pessoas.
Reportagem relata que os pesquisadores passaram a substituir a expressão em inglês equivalente a “animal morto na estrada” pela ideia de “colisão”. A mudança não era apenas de vocabulário. O objetivo era mostrar que o problema atingia tanto a fauna quanto motoristas e passageiros.
Em São Paulo (SP), segundo a reportagem, cerca de 20 motoristas morrem anualmente em colisões envolvendo tamanduás, antas e outros animais.
Com esse argumento, Desbiez e os demais pesquisadores conseguiram ampliar o diálogo com responsáveis pelas estradas. Cercas, túneis e passagens de fauna deixaram de ser apresentados apenas como investimentos ambientais e passaram a ser tratados também como estruturas de segurança viária.
Mato Grosso do Sul aparece como um dos principais exemplos dessa transformação. Uma das fotografias publicadas mostra trabalhadores instalando uma estrutura metálica sob a BR-262, em Mato Grosso do Sul, para permitir que animais atravessem a rodovia sem passar pela pista.

Segundo a National Geographic, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e empresas contratadas começaram, em 2025, a adaptar trechos da BR-262.
O projeto descrito pela revista inclui mais de 160 quilômetros de cercas nos pontos de maior risco, dez novas passagens inferiores para animais e adaptações em dezenas de pontes e bueiros já existentes para torná-los mais adequados à circulação da fauna.
Também estão previstas sete pontes de corda sobre a estrada para reconectar áreas de floresta e permitir a travessia de bugios e outros primatas. A publicação chama a BR-262 de uma das principais rodovias que atravessam o Cerrado e o Pantanal e lembra que a estrada ficou conhecida pela quantidade de animais mortos.
A expectativa dos pesquisadores é que o modelo não fique restrito ao Estado. Na reportagem, a intenção é apresentada como uma experiência que pode estimular intervenções semelhantes em outras regiões brasileiras e até em outros países da América Latina.
Outra imagem da reportagem ajuda a mostrar por que Mato Grosso do Sul se tornou um laboratório para esse trabalho. A fotografia aérea da BR-267 mostra a estrada cortando a paisagem. Segundo a legenda da National Geographic, de um lado ainda predomina a savana, enquanto o outro foi aberto para a agricultura.
A expansão agropecuária e das rodovias fragmenta o habitat dos tamanduás. Como os animais percorrem grandes áreas atrás de formigas e cupins, precisam atravessar estradas com frequência.
Reportagem destaca que características da própria espécie aumentam o risco. Tamanduás são lentos, têm pelagem escura e hábitos noturnos, combinação especialmente perigosa diante do tráfego.
O texto também lembra a importância ecológica do animal. Um único tamanduá-bandeira pode consumir cerca de 30 mil insetos por dia, contribuindo para o equilíbrio dos ecossistemas onde vive.

O trabalho de campo e o atendimento veterinário também ganharam espaço. Uma fotografia registra a veterinária Grazielle Soresini examinando a carcaça de um tamanduá-bandeira atropelado na BR-267. Segundo a legenda, após cada ocorrência, pesquisadores inspecionam os animais e coletam amostras antes de retirá-los da estrada.
Em outra página, veterinários aparecem em Mato Grosso do Sul realizando um ecocardiograma em um tamanduá anestesiado. Os pesquisadores estudam os animais e acompanham seus deslocamentos para entender como protegê-los de ameaças como colisões, incêndios e ataques de cães.
A reportagem ainda acompanha histórias individuais de animais atingidos ou ameaçados pelas estradas, reforçando que os números levantados ao longo dos anos representam centenas de animais encontrados diariamente pelos pesquisadores.
Na imagem que encerra a reportagem, Desbiez e integrantes da equipe aparecem ao lado de um tamanduá anestesiado em Mato Grosso do Sul. Conforme a legenda, o animal passa por avaliação de saúde e os pesquisadores esperam que as passagens de fauna instaladas no Estado ajudem a criar um modelo que outras comunidades possam adotar para salvar espécies vulneráveis.
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