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Política

Disputa pelo Senado expõe limites da articulação política de Tereza Cristina

Impeachment de Moraes, anistia a Bolsonaro e sede de poder alimentam um amplo acordão para salvar políticos

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 30/10/2026 05:42
Disputa pelo Senado expõe limites da articulação política de Tereza Cristina
A senadora por MS Tereza Cristina (PP), durante sessão no Senado Federal (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

A abertura de um processo de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) vêm ganhando corpo nos bastidores da política, em Brasília, como temas capazes de influenciar a disputa pela presidência do Senado no ano que vem.

RESUMO

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A disputa pela presidência do Senado em 2025 é influenciada por propostas de impeachment de Alexandre de Moraes e anistia a Jair Bolsonaro e condenados pelos ataques de 8 de janeiro. Tereza Cristina, que busca ser a primeira mulher a comandar a Casa, enfrenta a resistência do PL e a força de Davi Alcolumbre, favorito e apoiado pelo Planalto. Rogério Marinho também é cotado, e o resultado dependerá de negociações nacionais entre partidos e senadores.

Nesse cenário, a senadora sul-mato-grossense Tereza Cristina (PP) é, entre os pretendentes ao comando da Casa, quem mais se identifica com as reivindicações da extrema-direita no conflito com o Judiciário, principalmente depois que Moraes determinou a apreensão do passaporte do ex-candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL), que, alegando perseguição e risco de prisão, deixou o país e vive um autoexílio nos Estados Unidos.

Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), apontado como favorito e apoiado pelo Palácio do Planalto, encena uma narrativa de conciliação nacional que terminaria num acordão: Jair Bolsonaro, os generais que participaram da tentativa de golpe e os militantes de direita condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 seriam perdoados e postos em liberdade em nome da pacificação.

Não há sinais de que Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que prometeu um governo de participação popular no lugar de conchavos para garantir governabilidade, apoie a ideia, pelo menos por enquanto.

Correndo por fora - Já o ex-coordenador da campanha presidencial derrotada, senador Rogério Marinho (PL-RN), corre por fora. Em meio ao turbilhão da nova crise na direita, Marinho recebeu um apoio de Flávio, registrado no confuso texto da carta em que o senador se despediu do Brasil e de seus correligionários, na quarta-feira (28).

No trecho em que anuncia que tentará liderar a oposição dos Estados Unidos, ele deixa claro quem é o candidato preferido do clã Bolsonaro ao citar apenas o nome de seu ex-coordenador de campanha entre os políticos aos quais se dirigiu: “em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho”.

O problema é que Marinho não só convalidou a eleição de Lula, como também negou que tenha razões para acreditar em fraude e, depois da derrota, não deu demonstração de que confirme a disposição de entrar numa nova disputa pelo Senado.

Resistência no PL - Dos três pretendentes, Tereza Cristina é a única em franca campanha, mas suas chances esbarram no poder de barganha dos concorrentes e na resistência do PL em abrir mão do comando do Senado. Com 29 senadores, equivalente a mais de um terço da composição do Senado, a legenda terá a maior bancada da Casa e dificilmente cederá espaço sem uma negociação que lhe assegure vantagens políticas.

“O PL é o maior partido do Senado. Por que abriria mão de disputar a presidência para apoiar a Tereza Cristina?”, questiona o analista político Daniel Miranda, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Para ele, a senadora enfrenta um obstáculo adicional por integrar uma federação de perfil pragmático. “O fato de o PL ser o maior partido, a maior bancada no Senado, e ela estar em um partido que é puro suco do Centrão, tudo isso joga contra”, avalia. “O União Brasil e o PP são a nata do pragmatismo. Eles podem apoiar o PL, a Tereza, o próprio Alcolumbre ou o próprio Lula, dependendo de quanto acham que vão ganhar em termos de cargo, poder e influência.”

Alcolumbre deu uma mãozinha a Lula ao garantir a derrubada da escala 6x1 antes do segundo turno e já apresentou a fatura ao Planalto. Marinho tem o apoio do comando do PL e, caso insista em disputar o cargo, pode contar com o apoio da própria Tereza Cristina, que, a esta altura, faz contas sobre as possibilidades.

Numa conversa entre os dois, ainda na campanha, ela chegou a afirmar que não disputaria caso Marinho assumisse a candidatura. Os dois teriam um acordo de bastidor em que um apoiaria o outro contra o atual presidente do Senado, acusado de ter travado o impeachment em todos os momentos que a PF (Polícia Federal) tentou avançar contra o STF. Qual dos dois desistiria ainda é uma incógnita que só será determinada com a projeção do provável destino dos votos do colegiado.

Acordão em jogo - Alcolumbre traz no bagageiro uma enorme pizza de diversos sabores: o perdão humanitário a Jair Bolsonaro; o encerramento das iniciativas de impeachment que ameaçam ministros do STF por relações com o caso Master; e, como cereja do bolo, um “acordo de conciliação nacional” que, segundo essa interpretação, poderia beneficiar também investigados de todos os partidos envolvidos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Seria uma versão às avessas da anistia de 1979, frequentemente citada pelos extremistas de direita na ilusão de que serve como precedente que facilitaria o acordo.

Disputa pelo Senado expõe limites da articulação política de Tereza Cristina
O professor doutor Daniel Miranda, do curso de Ciências Sociais da UFMS (Foto: Reprodução)

Pelo menos por enquanto, Tereza não joga a toalha. Ela mede a temperatura da disputa em sondagens junto aos senadores que ainda não se manifestaram e aposta também no peso da bancada feminina, na tentativa de se tornar a primeira mulher a conquistar a presidência do Senado.

Os fatores que influenciarão a eleição são nacionais. Em Mato Grosso do Sul, a senadora pode buscar o apoio dos dois eleitos pelo PL, Reinaldo Azambuja (PL) e Renan Contar (PL), que acenam com o apoio em nome da coesão do grupo que domina a política no Estado, mas também não dão garantias.

Para Daniel Miranda, a bancada do partido ainda terá de demonstrar sua capacidade de agir em bloco. “A quantidade desses bolsonaristas que nunca tiveram um jogo coletivo partidário pode representar um problema de coordenação para as lideranças do PL. Então, não duvido que eles até se dividam no apoio à Tereza Cristina”, afirma.

Fatores nacionais prevalecem - A posição de Azambuja pode ser decisiva para a articulação regional, mas não necessariamente para o resultado. Segundo Miranda, o ex-governador pode tanto preservar o equilíbrio de forças entre o PL e o grupo político ligado ao PP e ao União Brasil quanto tentar construir uma articulação mais ampla em torno da senadora. “Pode haver o entendimento de tentar construir uma superliderança que esteja acima dos partidos políticos e fazer essa articulação aqui no Estado, tentando trazer o PL regional para o apoio à Tereza Cristina”, diz. O analista ressalva, porém, que a movimentação dependerá dos interesses dos grupos envolvidos e da disputa por espaço nas próximas eleições.

“Em declarações para a imprensa, no público, talvez Reinaldo, Riedel, Contar apoiem a Tereza, mas, nos bastidores lá no Congresso, os fatores que vão pesar serão nacionais, não regionais”, avalia Miranda.

Ele considera que o cenário dependerá da força com que Alcolumbre chegar à disputa, da capacidade de Rogério Marinho de articular sua candidatura e das negociações entre os partidos. A eventual vitória de Tereza, portanto, exigiria uma composição que ultrapassasse os limites de Mato Grosso do Sul e convencesse setores da direita a apoiar uma candidata de fora do PL. Ela perdeu tração com a derrota da direita nas urnas e a evaporação de uma articulação que visava colocar Azambuja como ministro da Agricultura.

O deputado Geraldo Resende (União), que está se despedindo da Câmara depois de 6 mandatos, também avalia que as chances de Tereza Cristina se reduziram com a reeleição de Lula. “Se eu tivesse que apostar, nesse momento colocaria minhas fichas no Davi Alcolumbre”, diz, lembrando que a cúpula da própria federação PP-União Brasil, da qual a senadora também é dirigente, já anunciou, em nota pública, que apoiará o atual presidente do Senado. O apoio do grupo liderado por Reinaldo Azambuja, no qual o governador Eduardo Riedel (PSDB) também tem peso, é importante, mas, na avaliação de Resende, “é pequeno diante das outras forças que hoje estão gravitando em torno de Davi Alcolumbre”.

Tereza Cristina tem a esperança de atrair votos dos 54 senadores eleitos e reeleitos em 4 de outubro, entre os quais há um contingente feminino de 12, que ela sonha em convencer a ajudá-la a colocar a primeira mulher na presidência da Casa. Diante de um cenário difícil, ela aposta no tempo e na independência de cada colega. “A eleição para a Presidência do Senado é decidida em fevereiro pelo voto livre, soberano e secreto de cada um dos 81 senadores”, diz.