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Tempestade de areia causou destruição, mortes e pode se repetir no próximo ano

Em 15 de outubro, o dia virou noite e nem mesmo os serviços de previsão do tempo conseguiram se antecipar

Por Lucia Morel | 28/12/2021 07:05
O dia virou noite e causou espanto em Campo Grande (Foto/Arquivo)
O dia virou noite e causou espanto em Campo Grande (Foto/Arquivo)

Uma tempestade de areia que afetou sete cidades em Mato Grosso do Sul e deixou diversas localidades sem energia elétrica por até uma semana. O evento haboob foi registrado pela primeira vez no Estado em 15 de outubro de 2021 e pegou todos de surpresa diante da força destruidora do vento e da poeira.

O dia virou noite, literalmente, e nem mesmo os serviços de previsão do tempo conseguiram se antecipar aos acontecimentos. Fato é que, dentro de um contexto bem comum em MS – mudança drástica de temperaturas e clima seco – sim, o fenômeno pode ocorrer novamente.

Para isso, as condições climáticas devem conter mudança brusca de temperatura, solo seco e grandes áreas desmatadas. Grandes empresas de meteorologia indicam que a ocorrência do haboob é comum no sudoeste dos Estados Unidos, China, Mongólia, na Península Arábica e na Austrália, regiões bem áridas ou desérticas, conforme o Metsul.

Árvore caída sobre veículo no dia 15 de outubro. (Foto: Direto das Ruas)
Árvore caída sobre veículo no dia 15 de outubro. (Foto: Direto das Ruas)

Mas aqui no Brasil – o evento ocorreu em cidades de São Paulo e Minas Gerais também, antes de acontecer em MS – não.

Segundo o ClimaInfo, o que acarretou as tempestades de areia foram a junção de desmatamento em alta, a maior seca em nove décadas e a chegada das primeiras nuvens de chuva da primavera.

Justamente porque desmate não deve parar de ocorrer e o regime de chuvas depende de uma boa arborização e cobertura vegetal é que o haboob pode ocorrer novamente. O clima seco, intensificado com as queimadas, também se soma nessa linha negativa, o que pode tornar o fenômeno mais frequente ao longo dos anos.

Localização das áreas de seca em Mato Grosso do Sul. (Foto: Reprodução Monitor de Secas/Ana)
Localização das áreas de seca em Mato Grosso do Sul. (Foto: Reprodução Monitor de Secas/Ana)

Conforme o o professor e pesquisador em Climatologia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Julio Cesar Gonçalves, os eventos climáticos extremos têm surgido com uma maior frequência ao longo das últimas décadas.

E segundo ele, "isso ocorre em função dos efeitos do aquecimento global (que estão gerando uma mudança no clima). Esse fenômeno acontece em todo o planeta por conta do Efeito Estufa, (quando os gases carbônicos) gerados pela queima de combustíveis fósseis, impedem com que o calor na Terra se dissipe".

Seca – Para se ter uma ideia, o Monitor de Secas da Ana (Agência Nacional de Águas) incluiu Mato Grosso do Sul em seus levantamentos em junho do ano passado. Desde então, foi em agosto de 2021, que o Estado registrou o primeiro evento de seca excepcional, alcançando 3,64% do território de MS, especialmente no nordeste.

Além dos riscos climáticos do aumento da seca, esta acarreta também perdas de culturas e pastagens, escassez de águas nos reservatórios de abastecimento e ainda nos rios e córregos, criando situações de emergência que precisam de atitudes, muitas vezes, urgentes.

Já os registros de seca extrema se concentram em faixa que vai do extremo leste de MS, passando pelo nordeste até o norte e noroeste, no Pantanal, em Corumbá. Também há registro de seca extrema em área no sudoeste sul-mato-grossense.

Prejuízos – Os ventos que vieram com a tempestade de areia causaram inúmeros estragos que demoraram para ser solucionados. Em árabe, haboob significa “destruidor” ou “que vagueia” e foi bem isso que houve por aqui. Pessoas morreram – oito ao todo –, centenas de árvores caíram e lojas, casas, condomínios e escolas ficaram sem energia elétrica por dias.

Um dos casos mais tristes foi em Corumbá, onde uma embarcação virou no Rio Paraguai e sete pessoas morreram no naufrágio. Uma oitava pessoa, empresário de Campo Grande, morreu eletrocutado tentando consertar o gerador de energia de sua empresa de internet.

Unidades de saúde ficaram sem luz e até farol de carro foi usado para manter a iluminação, muro caiu sobre veículo, mulher foi arrastada na calçada do Camelódromo e muitas, muitas árvores caíram, com serviços de retirada ainda sendo feitos uma semana depois do fenômeno.

Também houve muito medo, principalmente por quem estava “no ar” no momento do haboob. Imagens enviadas ao Campo Grande News, na época, mostraram a experiência vivida pelos passageiros de uma aeronave da Azul, que decolou no Aeroporto Internacional por volta das 14h45, exatamente no momento em que a nuvem de areia avançava sobre a cidade.

No dia, segundo o Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e Clima de MS), a maior velocidade de vento ocorreu em Ribas do Rio Pardo, onde eles chegaram a 116,64 Km/h. Em Campo Grande, chegaram a 94 Km/h e ainda a 97,5 Km/h em Angélica.

Previsão - Para Julio Cesar Gonçalves, a tempestade de areia pode ter ocorrido em MS - e também em Minas Gerais e São Paulo - em função do grande período de estiagem, que foi o maior em 9 anos, "inclusive, gerando a crise hídrica e energética que vivemos neste momento, no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil".

E assim, para ele, "este evento climático extremo pode ocorrer sim de novo em MS e para que isto ocorra, tem que haver as condições climáticas específicas, como ocorreu no dia 15/10/2021, principalmente, final do período de inverno muito seco associado a uma frente fria", destacou.

Prevê-los, no entanto, é complicado, já que "como são eventos naturais, que estão sendo intensificados pela ação do homem, não temos como conter estes extremos climáticos. Cabe apenas aos gestores aumentar a antecipação destes cenários e estruturar melhor seus órgãos de apoio à população", orienta.

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