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Saúde e Bem-Estar

No luto, estar presente pode ajudar mais do que tentar oferecer respostas

Frases prontas e cobranças por melhora dificultam o acolhimento de quem perdeu alguém

Por Kamila Alcântara | 21/09/2026 13:48
No luto, estar presente pode ajudar mais do que tentar oferecer respostas
Em capela da funerária, silêncio é a despedida no momento de luto (Foto: Osmar Veiga)

Depois do velório, das mensagens e das flores, a rotina costuma voltar ao normal para quase todos. Para quem perdeu alguém, porém, a ausência permanece. Nesse período, cobranças por melhora e frases ditas para encerrar o assunto podem transformar uma tentativa de apoio em mais uma fonte de desconforto.

RESUMO

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A psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli alerta que frases bem-intencionadas como "seja forte" ou "siga em frente" podem agravar o sofrimento de quem está de luto. Segundo ela, acolher significa oferecer presença, não soluções. A profissional lança o livro Sinto Muito em 27 de setembro, em Campo Grande, abordando o que acontece com quem perde alguém e com quem tenta oferecer apoio.

O luto não segue um calendário único nem produz novidades a cada conversa. A psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli, especialista em lutos e perdas, chama atenção para a expectativa social de que a pessoa demonstre progresso pouco tempo depois da morte.

“Às vezes, a pessoa enlutada só tem uma notícia velha. Perguntam ‘como você está?’, mas ela não tem uma novidade para dar. A pessoa continua morta, a falta continua ali. Parece que existe uma expectativa de que, depois de algum tempo, ela tenha alguma melhora para contar”, afirma.

Uma cartilha publicada em 2026 pelo Ministério da Saúde trata o luto como um processo com particularidades e destaca a importância do acolhimento. A orientação ajuda a desmontar uma ideia comum, mas equivocada: a de que existe uma sequência obrigatória de reações ou um prazo universal para retomar a vida de antes.

Para familiares e amigos, o impulso de resolver a dor aparece em expressões como “você precisa ser forte”, “foi melhor assim” ou “é preciso seguir em frente”. Embora geralmente sejam bem-intencionadas, essas frases podem minimizar a perda e sugerir que tristeza, silêncio ou dificuldade para reorganizar a rotina são falhas pessoais.

Raissa define esse movimento como “a crueldade do consolo”, quando a urgência de preencher o silêncio pesa mais do que a necessidade de escutar. “A morte não é justa. Não é boa, não é legal. Não existe uma maneira de transformar aquilo em algo ‘ok’. Quando alguém perde uma pessoa que ama, às vezes o que temos para oferecer é presença. Não uma solução.”

Com isso, acolher pode significar admitir que não há uma resposta capaz de corrigir a perda. Também envolve manter contato depois das primeiras semanas, oferecer ajuda concreta e respeitar a disposição da pessoa para falar ou permanecer em silêncio. O ponto central não é encontrar a frase perfeita, mas evitar que o enlutado precise administrar, além da própria dor, a ansiedade de quem tenta consolá-lo.

Sobre a morte, realmente não há mais o que fazer. A pessoa morreu. Mas há muito o que fazer sobre a vida de quem ficou”, diz a psicóloga.

As redes sociais acrescentaram outra camada ao processo. Perfis, fotografias, homenagens e lembranças automáticas mantêm registros acessíveis e podem fazer a ausência reaparecer de modo inesperado. Ao mesmo tempo, a exposição pública do sofrimento pode gerar cobranças sobre como, quando e quanto alguém deveria demonstrar dor.

“A morte saiu da esfera privada para a pública e também virou um objeto de consumo. Não basta saber que alguém morreu. Existe uma curiosidade sobre como morreu, do quê, quanto tempo levou. E, ao mesmo tempo, parece existir uma necessidade de demonstrar publicamente que estamos sofrendo”, observa Raissa.

O tema levou a profissional a escrever o livro Sinto Muito, que será lançado em 27 de setembro, em Campo Grande. A obra reúne reflexões, memórias pessoais e situações observadas na experiência clínica. Segundo a autora, a proposta não é apresentar uma fórmula para superar a morte, mas discutir o que acontece com quem fica e com quem tenta oferecer apoio.

A própria palavra “superação” merece cautela. Ela pode sugerir que o vínculo e a falta devem desaparecer para que a vida continue. Raissa sustenta que conhecimento técnico também não torna ninguém imune ao sofrimento. “Ser especialista não protege a gente de sofrer. Eu conheço a teoria, acompanho pacientes, estudo o luto há anos. Mas, quando alguém que eu amo morre, eu também sou uma pessoa enlutada.”

No luto, estar presente pode ajudar mais do que tentar oferecer respostas
Psicóloga e psicanalista Raissa Ramos publica um livro sobre luto e perdas, com atenção para expectativa social (Foto: Divulgação)

Serviço

Livro: Sinto Muito
Autora: Raissa Ramos Ferreira Pedroli
Lançamento: 27 de setembro de 2026, em Campo Grande
Editora: Instituto de Formação e Capacitação Ser
Páginas: 132
Venda informada pela organização: Clínica do Luto, no perfil @clinicadoluto

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