ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
AGOSTO, SEXTA  21    CAMPO GRANDE 23º

Artigos

A gaveta que ninguém abre

Por Gillianno Mazzetto (*) | 21/08/2026 14:59

Caro conviva,

Toda casa tem dois tipos de quarto. Há o que muda de lugar toda semana, a cama que migra de canto, os pôsteres que descem e sobem, a estante que nunca se dá por satisfeita com a própria ordem. E há o outro. Aquele que ninguém mexe. Onde o pó pousa devagar, como se soubesse que ali não deve incomodar ninguém.

Há uma cena banal que se repete em milhares de casas nesta semana: a mãe entra no quarto do filho adolescente e encontra tudo diferente, outra vez. Sente ainda o cheiro de cola dos pôsteres recém-colados, ouve o arrastar da cama pelo piso antes mesmo de abrir a porta. Para quem olha de fora, é bagunça, é fase, é teimosia.

A psicologia, porém, tem explicado esse gesto de outro jeito: trocar os móveis de lugar é uma forma concreta de sentir que algo, ao menos ali, ainda obedece. O mundo lá fora decide o horário da escola, o resultado da prova, o humor de todo mundo em casa, mas a cama, essa, o adolescente decide onde fica. É autonomia disfarçada de bagunça.

O que a psicologia ainda não explicou tão bem é o segundo quarto. Esse que fica exatamente como estava.

Eu tenho um desses. Não é bem um quarto, é uma gaveta de escrivaninha, naquela casa que já não é minha do jeito que era. Lá dentro ainda estão os cadernos de letra apertada, uma caneta sem tampa, um bilhete que eu nunca cheguei a responder. Há anos não mexo ali. Não porque não possa. Porque mexer seria admitir que aquilo também precisa se atualizar, e há coisas que a gente prefere manter erradas a admitir que já mudaram.

Gaston Bachelard escreveu que a casa não é apenas onde moramos, é onde a memória guarda suas primeiras formas, o molde em que a alma aprendeu a se organizar. Se isso é verdade, cada cômodo intocado da nossa vida é uma tentativa de manter viva uma versão do mundo que, em algum momento, deixou de existir sem pedir licença.

Vivemos numa época que tem pressa até para a dor dos outros. Aprendemos a admirar quem descarta, quem esvazia o armário, quem "se liberta do que não serve mais", e por tabela aprendemos a desconfiar de quem guarda. Chamamos de "não superou" quem mantém um cômodo exatamente igual.

Cobramos velocidade do luto como cobramos produtividade de tudo o mais, como se sentir devesse ter prazo de entrega e nota de conclusão. É o mesmo impulso que deixa o áudio sem apagar no celular por meses, que mantém a cadeira do lado errado da mesa, que guarda um número de telefone que já não toca para ninguém. Pequenos quartos espalhados por toda parte, que a gente também não tem coragem de arejar.

Mas talvez aquele quarto parado não seja recusa nenhuma. Talvez seja exatamente a mesma coisa que o adolescente faz ao mudar a cama de lugar: uma forma de regular o que, por dentro, está fora de controle. Só que, em vez de reorganizar para sentir que algo ainda obedece, a pessoa preserva para sentir que algo ainda existe.

E aqui é preciso ter a honestidade de duvidar da própria ternura. Nem sempre preservar é amor puro. Às vezes é também uma forma de manter alguém prisioneiro de um papel que a pessoa, viva ou não, talvez já não quisesse mais representar. O filho que se mudou e ainda encontra o quarto de infância intacto quando volta pode sentir cuidado, ou pode sentir que nunca lhe deram licença para crescer. Guardar tem lado bonito. Também tem lado que prende.

Mexer é vida tentando se ajustar ao presente. Não mexer, às vezes, é a única forma que encontramos de manter alguém, ou alguma versão de nós mesmos, ainda presente no presente. As duas coisas podem ser verdadeiras. As duas coisas podem, da mesa forma, ser desculpa.

Nelson Rodrigues dizia que toda família tem um cadáver no armário. Eu diria que toda casa tem um quarto que ninguém tem coragem de arejar. E convivemos com os dois, o que muda toda semana e o que não muda nunca, como se fossem inimigos, quando na verdade cumprem a mesma função: nos ajudar a suportar o que não escolhemos.

Semana que vem alguém vai mudar os móveis de lugar outra vez, sem saber bem explicar o motivo. Outro alguém vai passar pela porta de um quarto fechado e vai, mais uma vez, não entrar. Os dois farão a mesma coisa, com ferramentas diferentes: tentando continuar de pé.

A pergunta não é qual dos dois está certo. É o que você ainda não teve coragem de mudar de lugar, e o que isso, escolhido ou não, ainda está fazendo por você.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.