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Campo Grande, Sábado, 17 de Agosto de 2019

06/02/2019 10:44

A lama que mata sem sair do lugar

Por Ogg Ibrahim*

Há uma lama muito maior do que toda aquela enxurrada de detritos que varreu Brumadinho, em Minas, há pouco mais de uma semana. E essa soterra e mata muito mais: é a lama da corrupção. Essa sim é a mais perniciosa, mais nociva à sociedade, mais criminosa e a que mais faz vítimas no país. Se a lama da barragem da Vale em Brumadinho varreu, até essa segunda feira, mais de 120 vidas, a lama da corrupção é capaz de dizimar milhares.

O que vem acontecendo em Minas desde a mina de Itabirito, rompida em 2014, depois com Mariana (2015) e agora com Brumadinho, é uma consequência da gambiarra e do jeitinho brasileiro que driblam a fiscalização, compram autoridades e desprezam o monitoramento e as punições. Não é a legislação a maior culpada e sim a índole dos envolvidos para os quais os lucros compensam os riscos.

E assim os desastres vão continuar acontecendo, as mortes serão cada vez mais numerosas e as indenizações cada vez mais pífias e insuficientes para compensar as famílias e a natureza pelos estragos. Num país sério, dirigentes da Vale já estariam na cadeia, a empresa fechada e o patrimônio vendido e dividido entre as famílias das vítimas. Mas aqui no Brasil, como fechar e punir uma empresa que molha as mãos de tanto político, tanto fiscal, tanto prefeito e vereadores que fazem vista grossa aos problemas? Se não é isso, o que explica que um mesmo estado e uma mesmo país tenham registrado três dos maiores desastres com barragens de minério das últimas décadas?

Outro problema é que a fiscalização dessas áreas é feita hoje por mais de 30 diferentes órgãos de controle. Apesar de numerosos, o que pode parecer que há uma atenção especial ao setor, a falta de uma agência reguladora faz com que a fiscalização fique pulverizada, dificultando ainda mais encontrar culpados pela falha. Já um exemplo positivo vem do Chile. Por estar sujeito a terremotos, o país é mais propenso a acidentes e incidentes deste tipo e, por isso, proíbe o modelo de barragem de Mariana e Brumadinho desde os anos 70.

Mas aqui é difícil mexer com uma empresa tão poderosa como a Vale que é uma das maiores empresas de mineração do mundo, tem mais de 70 mil fucionários e que teve um lucro em 2017 que passou os 17 bilhões de reais? Não houve, até agora, governo suficientemente sério para ficar de olho em suas atividades.

E assim a lama de Brumadinho e de Mariana se acumula embaixo das unhas dos fiscais que fizeram vista grossa às irregularidades, dos governantes que se locupletaram da propina que abafa tudo e nas mãos dos políticos de Brasília que são pagos para aprovar projetos de expansão de empresas como a Vale, sem saber que estão assinando o atestado de óbito de dezenas de trabalhadores e habitantes dessas regiões.

A lama das minas de Brumadinho que percorreu cerca de 80 quilômetros soterrando a tudo e a todos foi cruel, mas não mais assassina do que a lama dos gabinetes que percorre o país todo sem sair do lugar.

(*) Ogg Ibrahim é jornalista.

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