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Da crise normativa ao negacionismo

Por Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio e Vicente Zatti(*) | 26/09/2021 09:30

Ofinal do século XIX e todo o século XX foi um período marcado pela desconfiança das metanarrativas – modelos metafísicos cuja interpretação da realidade seria baseada em fundamentos últimos, explicações transcendentes do princípio, causa e fim do mundo imanente. Foi o tempo dos filósofos da suspeita: Marx, Nietzsche e Freud. Eles são o ponto de inflexão em que se demonstra as origens humanas – demasiado humanas – daquilo que se pretendia colocar como alicerce cristalizado, imutável, absoluto – em uma palavra: universal.

A filosofia da suspeita desnuda e desconstrói a solidez metafísica. Ela promove uma ampla tematização das origens históricas dos valores morais: o bem e o mal não possuem substância que lhes confira essência eterna e imutável; eles são, antes, fruto do exercício da vontade de grupos e de pessoas particulares, na busca pela afirmação de sua perspectiva valorativa. A racionalidade é também alvo do processo de desconstrução. Para Nietzsche, por exemplo, ela é apresentada como uma força da espécie, na luta pela afirmação da vontade de poder: em nosso desenvolvimento histórico valemo-nos da razão assim como os bois valeram-se dos chifres e os leões das presas. A abordagem de Nietzsche abala o que se entendia por verdade; afinal, sendo o mundo humano uma elaboração humana, a verdade não passaria de interpretação, e o projeto dos filósofos de alcançar o “ponto de vista do olho de Deus”, incondicionado e eterno, apenas perda de tempo. Marx, ao postular que não são as ideias que movem o mundo, mas a realidade dos meios de produção de riqueza de cada sociedade, faz descer da torre de marfim uma filosofia que explicava o mundo e os homens tomando como causa o que era efeito, já que o vocabulário com o qual ela lidava era também produto de determinada correlação de forças. A filosofia, que esperava ser mestra dos saberes, aparece como servidora do sistema econômico que lhe deu origem, e da realidade sobre a qual pretendia se pronunciar. Não somos mais “senhores em nossa própria casa”, disse Freud por sua vez, ao falar do Eu humano, o ego que, sem se dar conta, é movido por forças que habitam a profundidade do inconsciente. Se, para Nietzsche, por detrás de cada palavra existe outra palavra, em um jogo de máscaras sem fim; se, para Marx, o pensamento e as ideias são tão situados no tempo quanto os corpos, e determinados pelas condições concretas de vida, Freud completa a tarefa de descentramento das pretensões filosóficas, quando afirma sermos muito mais complexos do que pensávamos, e bem menos racionais do que imaginávamos ser.

A abolição do universalismo metafísico, a partir de Nietzsche e de seus companheiros de dúvida, permitiu pensarmos em formas singulares assumidas pela opressão. A Razão, com maiúscula, surge como tirana: invenção do europeu, ela passa a ser considerada ferramenta de dominação de uma razão sobre outras. Haveria tantas razões quanto culturas humanas, todas, no limite, detentoras do direito não só de existir, mas de dizer como o mundo é e deve ser. O universalismo da razão de matriz ocidental passa a ser considerado a máscara de um discurso de dominação. A ideia, acalentada desde os antigos gregos, de uma compreensão da totalidade a partir de conceitos universais, se estilhaça contra a supina negação de tal direito, postulada pelo perspectivismo. O discurso não diz mais o que as coisas são, apenas o que ele mesmo é (e deseja, nega, esconde).

No entanto, a abolição do universal abriu a possibilidade para qualquer perspectiva particularista afirmar sua força. Liberto do discurso totalizante, o pensamento se viu às voltas com fronteiras móveis de validade. A negação de uma racionalidade universalista, exaltada à esquerda como afirmação da diferença, foi tomada também à direita, ironicamente, como justificativa da pertinência de suas posições. Para uma parte especialmente articulada desse espectro político, defender uma razão universal e monolítica e a prerrogativa dos valores estabelecidos porque transcendentalmente deduzidos, nem de longe parecia mais necessário: bastava recorrer ao aparente vale-tudo ético e epistemológico que alguns progressistas davam sinais de  defender. De fato, se o método científico e os valores morais não representam nada fora da linguagem e do jogo de forças que os instituem, por que não se poderia entrar nesse jogo tentando persuadir seus participantes da relevância de qualquer agenda?  O avanço dessa forma de pensar fica explícita na ocorrência de toda ordem de negacionismos. Negacionismo científico, que resulta, por exemplo, em movimentos terraplanistas (que nascem à direita do espectro político) e antivacina (que nascem à esquerda do mesmo espectro, e se abrigam hoje, especialmente, à direita). Negacionismo político, que substitui a força do argumento baseado em evidências pela força dos argumentos ad hominem e de autoridade. Negacionismo pedagógico, que quer fazer prevalecer uma disciplina militar, que vem de fora, em vez de fomentar uma disciplina interior, de estudo em um ambiente formativo. Negacionismo médico, como o “tratamento precoce” para covid-19 (outra variação do negacionismo científico). Ou seja, não havendo referências normativas comuns, todo particularismo pretende se afirmar; por vezes,  variações negacionistas  tão violentas que não parecem muito diferentes das palavras de ordem e dos programas do fascismo histórico.

A abolição do universal e a crise normativa decorrente, no início aclamada à esquerda como libertação da “Razão totalizante”, mostrou-se o chão fecundo para o afloramento, à direita, do reacionarismo odioso e ressentido, tão forte em nosso tempo, o que obrigou certas expressões do campo progressista a reavaliar a crítica ao discurso científico que costumavam fazer – passou a não ser mais estranho encontrarmos relativistas, pós-estruturalistas e desconstrucionistas de carteirinha tecendo loas à ciência e tirando fotos ao receber suas doses de vacina.  A pergunta que fica é essa: será que na tarefa de superar universalismos metafísicos, que ocultavam processos de dominação, não acabamos questionando a base normativa de validade comum?

É o que entende, por exemplo, Habermas, um entre tantos para quem a ideia de razão ainda faz sentido, e para quem a desconstrução nietzschiana possui, sim, papel terapêutico ao desmascarar o delírio de onipotência do sujeito logocêntrico que chegaria à verdade absoluta. No entanto, compreende ele que isso não representará, jamais, a negação da razão. Habermas entende a razão relacionada aos processos linguísticos de entendimento, possibilitadores da verdade enquanto algo validado discursivamente em uma comunidade de comunicação. Não havendo referências normativas absolutas, os processos argumentativos representam a possibilidade da validação, historicamente situada, de referências normativas comuns.

O contexto que enfrentamos é problemático, mas não existe alternativa civilizada fora do discurso, do logos entendido como palavra razoável. Nele, a argumentação pública tem o potencial de estabelecer referências normativas, não absolutas e sempre problematizáveis, mas que podem, ao menos em tese, ser aceitas por todos em função de sua razoabilidade. Como não é possível recorrer a nenhuma fundamentação fora do plano da imanência, é na força da razão, enquanto razoável palavra argumentada, que precisaremos encontrar a resposta a dar a um relativismo tão ou mais opressor que o universalismo metafísico. Porque preservar para o discurso público um espaço não vandalizado é também condição necessária para a preservação de nossa frágil democracia. Se desaparece o argumento, como elemento de construção do entendimento, resta somente a força da violência e o apagamento da política.

(*)Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio é professor da Faculdade de Educação da USP.

(*)Vicente Zatti, pós-doutorando da FEUSP.

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