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Da Era Pós-Modernidade à Era Pós-Pandemia

Por Maria Luiza Tucci Carneiro (*) | 11/07/2020 13:36

Hoje, em pleno século XXI, vivemos um novo período de transformações delineado principalmente por dois importantes fenômenos sociopolíticos que questionam o papel do Estado na preservação da vida: a proliferação da covid-19, símbolo da fragilidade do ser humano, e o assassinato do negro americano George Floyd, símbolo do racismo plurifacetado que sufoca o mundo.

As reflexões dos grandes pensadores da pós-modernidade, Zygmunt Bauman, Anthony Giddens e Terry Eagleton, certamente nos ajudam a refletir sobre este novo mal-estar que aflige a humanidade, provocando desconforto e estranhamento. Ajudam, mas jamais poderiam imaginar que alguém questionaria que a Terra não é redonda. Felizmente, a esperança na justiça, ciência, igualdade e solidariedade continua positiva.

Possivelmente, em breve, ouviremos falar da Era Pós-Pandemia ou da Era Pós-Verdade, como querem alguns. Creio que a geração que assistiu aos eventos-símbolo que designam a condição sociocultural e estética da pós-modernidade – dentre os quais cito a queda do Muro de Berlim em 1989, o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais do final do século XX – entende que estamos em plena transição, inaugurando uma nova era.

Desde janeiro de 2020, identificamos novos pontos de ruptura: a pandemia, os movimentos antirracistas que ocupam as ruas das principais cidades americanas, europeias e brasileiras, e a falta de uma liderança mundial com capacidade para avaliar situações de risco, que comprometem vidas e os direitos humanos.

Trata-se, portanto, de uma mudança de paradigmas, que exige esforços coletivos com o objetivo emergencial de propor ações preventivas, profilaxias e recuperação da humanidade pós-pandemia. Como interpretar o fenômeno “covid-19”, que isolou os indivíduos em suas residências, iniciando um novo projeto reflexivo do eu e do nós? Como interpretar os slogans de protesto (re)editados por milhares de jovens portando máscaras antivírus, que, sem precisar de intermediários, retomaram o direito de ocupar as ruas e de protestar pelas vidas negras? Carregando cartazes improvisados em papelão, colocaram na ordem do dia, simultaneamente, a política da vida e da tolerância. Sinais indicativos de que a liberdade de expressão garantida pelas instituições democráticas sobrevive apesar das ameaças dos panfletários de extrema direita que interferem nas relações humanas, manipulando dados e negando-se a enterrar os mortos.

Hoje, em plena Era da Pandemia, considero que o fenômeno da globalização é revolucionário por permitir a ação imediata dos grupos que clamam pela política da vida e da tolerância. Potencializados pelas redes sociais, os movimentos pró-vida e antirracismo replicam suas vozes mundo afora, anunciando “para quem os joelhos dobram e sufocam”.

Aproveitando-se do vácuo aberto pelas incertezas e injustiças da justiça, os jovens protestam, sem pedir autorização ou carteirinha do partido político. Contidos em suas residências por força do isolamento social, os cidadãos conscientes do seu papel social substituíram as buzinas das carreatas pelo som do metal das panelas e frigideiras que ganharam novos significados. Tais protestos reforçam a identidade do manifesto coletivo, sem distinção de cor, etnia, gênero e/ou classe.

Para as futuras gerações, possivelmente, essa nova arte de protestar estará disponível nos arquivos digitais e nas instalações visuais e sonoras idealizadas pelas fundações, museus e associações culturais. A fotografia digital e o vídeo, por sua vez, cumprem com sua função de documentar a violência e o protesto, privilegiando o fotojornalismo que hoje ocupa uma posição única na história.

Ainda está para ser avaliado o impacto das novas tecnologias digitais na arte do protesto e, mais especificamente, na democracia brasileira. Lembrando sempre que a ausência de regras na internet abre espaço para informações enganosas e a proliferação dos discursos de ódio, tendendo a piorar o cenário que demanda ajuda humanitária.

Importante ter em mente que os domínios comunicativos das novas mídias reconfiguraram os limites até então restritos aos “antigos impressos”, fontes que hoje subsidiam as pesquisas históricas. Como vestígios do passado contra o fascismo histórico e o autoritarismo, as passeatas, as faixas pintadas sobre tecido de algodão branco e os panfletos impressos na clandestinidade deixaram como legado a “pedagogia da indignação”, como sugeriu Paulo Freire (1921-1997) em seus ensinamentos.

Pelo visto, nem todos aprenderam com os tempos cruéis das ditaduras Vargas (1937-1945) e da ditadura militar (1964-1983). Tempos sombrios! Tempos em que o trabalho “sujo” de varredura dos inimigos do regime ficava protegido pelo secretismo dos arquivos policiais e diplomáticos vedados à consulta pública até 1995. Tempos em que a propaganda oficial cumpria com seu papel de camuflar o mundo da repressão que não convinha vir à superfície. Daí o papel do Departamento de Ordem Política e Social – o antigo Dops (1924-1983) –, que acuava os inimigos do regime castrando qualquer sinal que estivesse em desacordo com o discurso oficial.

Aproveitando-se do medo natural de todo ser humano, os governos ditatoriais sempre procuraram calar as vozes dos excluídos violentados em seus direitos individuais e tratados no coletivo como “subversivos da ordem”.

Seguindo a trajetória dos medos nas sociedades contemporâneas, percebemos que seus produtores apropriam-se de certos saberes (populares e/ou eruditos) que, adaptados aos seus interesses, oferecem múltiplas ressonâncias. O público-alvo geralmente desconhece as origens das acusações e suas mentes estão abertas para acreditar na mentira que é portadora de uma aparência ou de uma probabilidade de verdade. Da mentira à pseudoverdade bastam alguns minutos, pois o desconhecido tem a capacidade de favorecer a circulação de mitos estigmatizantes e de gerar situações de pânico. Muitos, cegos pelas doutrinas, sequer percebem que nem sempre a ocorrência dos males é expressão da ira de Deus ou manifestação do Diabo. Daí as situações epidêmicas favorecerem a circulação de personagens-símbolos da morte e da peste, figuras marcantes no judaísmo e no catolicismo romano.

Nestes tempos de incertezas devemos recuperar a capacidade que os seres humanos têm de indignar-se diante de todas as formas de violência e de humilhação. O direito à indignação é um dos mais nobres e humanistas dos valores fundamentais da democracia. Considerando o atual momento de extrema fragilidade vivenciado pela humanidade e, mais especificamente, pelo povo brasileiro, o desafio maior reside na capacidade do Estado de assegurar o pleno respeito aos direitos civis e políticos, até então incompatíveis com as necessidades básicas dos seres humanos.

Desta vez, temos diante de nós um “muro” biológico, que para ser demolido depende de o Estado reconhecer a capacidade que a ciência tem de salvar vidas, pois vidas importam antes de tudo. Portanto, indignai-vos, sempre, diante de quaisquer recidivas de autoritarismo e de injustiça!

(*)  Maria Luiza Tucci Carneiro é professora livre-docente e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, do Departamento de História da Universidade de São Paulo.