Explicar o óbvio é entediante
Há um cansaço muito específico em ter que explicar o óbvio. Não é o mesmo desgaste de ensinar algo complexo, nem a paciência exigida para conduzir alguém por um aprendizado legítimo. Explicar o óbvio é diferente: é um exercício de repetição forçada daquilo que, em condições minimamente saudáveis, já deveria estar compreendido. E talvez seja justamente aí que mora o tédio — na sensação de estar parado enquanto o mundo finge que ainda não chegou ao ponto de partida.
O óbvio não é aquilo que todo mundo sabe por natureza. Ele é construído socialmente, sedimentado pelo convívio, pela experiência e por acordos básicos de realidade. Não se grita em um hospital, não se humilha em público, não se exige do outro o que não se oferece. Quando essas noções precisam ser verbalizadas, algo mais profundo do que uma simples falha de entendimento está em jogo. Explicar o óbvio, muitas vezes, é menos sobre esclarecer e mais sobre tentar restabelecer um pacto que já deveria existir.
O tédio surge porque esse tipo de explicação raramente produz avanço. Não há descoberta, não há expansão, não há troca real. Há apenas um retorno insistente ao básico, como se fosse necessário reafirmar continuamente que a água molha e o fogo queima. Para quem já compreendeu essas regras elementares da convivência, o esforço parece inútil, quase ofensivo. É como se a inteligência fosse subestimada, o tempo desrespeitado e a maturidade ignorada.
Existe também um desgaste emocional envolvido. Explicar o óbvio frequentemente coloca quem explica em uma posição desconfortável: a de ter que justificar limites, valores e princípios que deveriam ser autoevidentes. Dizer que respeito não é opcional, que responsabilidade não é perseguição ou que consequências não são injustiças exige uma energia que não deveria ser necessária. Cansa porque obriga a pessoa a se defender do absurdo, a argumentar contra o que não deveria sequer ser questionado.
Além disso, há uma camada de resistência silenciosa por parte de quem “não entende” o óbvio. Muitas vezes, não se trata de falta de capacidade, mas de falta de disposição. O óbvio incomoda porque impõe responsabilidade. Quando alguém finge não compreender o que é claro, cria-se um atraso deliberado: ganha-se tempo, evita-se ação, empurra-se a mudança. Explicar o óbvio, nesses casos, torna-se entediante porque é um monólogo travestido de diálogo. Não há escuta, apenas espera.
No ambiente de trabalho, nos relacionamentos e até nas relações familiares, esse fenômeno se repete com frequência. É preciso explicar que prazos existem, que palavras têm peso, que silêncio também comunica. Cada repetição corrói um pouco da motivação de quem fala, porque a sensação é de estar sempre começando do zero, mesmo quando a estrada já foi percorrida inúmeras vezes. O tédio não vem da explicação em si, mas da estagnação que ela representa.
Há ainda um aspecto ético. Quando o óbvio precisa ser explicado, muitas vezes é porque alguém se beneficia da confusão. Ambiguidades artificiais são criadas para diluir responsabilidades, relativizar erros ou inverter papéis. Nesse cenário, explicar o óbvio não é apenas cansativo, é frustrante. A clareza encontra resistência, e a lógica é tratada como opinião. O óbvio, que deveria ser um ponto de apoio, transforma-se em campo de batalha.
Talvez o maior motivo pelo qual explicar o óbvio seja entediante esteja na quebra de expectativa. Espera-se que adultos funcionem como adultos, que profissionais ajam como profissionais, que relações sejam pautadas por um mínimo de bom senso. Quando isso não acontece, não é só o tempo que se perde; perde-se também a confiança. Cada explicação do óbvio é um lembrete silencioso de que o nível da conversa foi rebaixado, e de que aquilo que deveria unir acabou separando.
No fundo, o tédio de explicar o óbvio é um sinal. Ele indica que há um desalinhamento entre maturidade, intenção e responsabilidade. Não é impaciência gratuita, nem arrogância intelectual. É o cansaço de quem sabe que poderia estar discutindo ideias mais profundas, soluções mais criativas ou relações mais honestas, mas está preso na repetição do básico. E talvez a pergunta mais importante não seja por que é entediante explicar o óbvio, mas por que, em tantos contextos, ainda precisamos fazê-lo.
(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein.
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