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Qual é a tese de inovação da sua organização?

Por Marcelo Caldeira Pedroso (*) | 05/03/2026 14:00

Atese de inovação de uma organização reflete sua intenção estratégica em relação à inovação e o delineamento das oportunidades inovadoras a serem consideradas. Essa tese pode ser desenvolvida para organizações consolidadas, empresas nascentes inovadoras (ou startups) e fundos de venture capital (ou de investimentos em startups).

Nesse sentido, a tese de inovação deve fundamentar as decisões estratégicas relacionadas aos investimentos em inovação de uma organização. Dentre as questões estratégicas, posso citar: quais são os principais desafios e oportunidades nos quais a organização deve direcionar seus investimentos em inovação? Quais são os modelos de negócios adequados para esses investimentos? Quais tecnologias devem ser desenvolvidas para resolver os desafios, explorar as oportunidades identificadas e apoiar a implantação de novos modelos de negócios?

Visando responder a essas questões de forma estruturada, considero que uma tese de inovação deve contemplar quatro elementos:

(1) propósito da inovação;
(2) ativos estratégicos;
(3) escopo de atuação; e
(4) visão da inovação.

Propósito da inovação

O propósito de inovação deve responder à seguinte questão: por que inovar? Assim, essa questão define explicitamente por que uma organização aloca recursos para inovar. O propósito da inovação direciona e alinha a estratégia da empresa (ou dos fundadores de uma startup), inspira os funcionários e esclarece como novas ideias ou tecnologias podem criar valor para a organização.

No contexto dos fundadores de startups, sugiro considerar dois elementos. O primeiro remete à ambição para inovar (que pode ser convertida em intenção empreendedora). Esta deve considerar múltiplos fatores, tais como: motivação do empreendedor, família, equilíbrio financeiro, propensão ao risco e outras características pessoais (ex.: tolerância à frustração). O segundo elemento contempla o tipo de novo negócio que o empreendedor pretende perseguir. Os tipos de novos negócios podem ser: negócios tradicionais, startups, deep techs, lyfestyle e empreendedorismo de impacto. A escolha por cada um desses tipos deve estar alinhada às vocações do empreendedor.

No âmbito de empresas consolidadas, estas buscam inovar em função de três principais fatores: crescimento de receita, maior eficiência e resultados intangíveis. Esses fatores estão associados à capacidade de adaptação das organizações às mudanças mercadológicas, tecnológicas, regulatórias, sociais, políticas e econômicas.

Ativos estratégicos

Os ativos estratégicos de uma organização contemplam os recursos e capacidades que proporcionam uma vantagem competitiva no seu segmento de atuação. A seguinte questão deve ser respondida neste elemento da tese de inovação: quais são os ativos estratégicos da organização, ou seja, aqueles considerados como valiosos, raros, difíceis de imitar e não substituíveis?

No contexto da inovação, os ativos estratégicos criam condições estruturantes para as seguintes decisões estratégicas: inserção em novos mercados; desenvolvimento de novas tecnologias; implantação de novos modelos de negócios; e adaptação às mudanças associadas ao ecossistema no qual a organização está inserida.

Os ativos estratégicos de uma empresa nascente estão atrelados aos seus fundadores. Estes podem aportar ativos tecnológicos, mercadológicos, financeiros e reputacionais. Nesse sentido, os ativos estratégicos da empresa nascente correspondem às sinergias dos ativos de cada fundador.

Os ativos estratégicos determinam a base de uma empresa nascente. Assim, os ativos estratégicos de natureza tecnológica são os alicerces das empresas nascentes de base tecnológica. De forma similar, as empresas nascentes de base mercadológica estão ancoradas nos ativos estratégicos de mercado, tais como experiência dos fundadores e acesso a um determinado segmento de mercado.

Escopo de atuação

O escopo de atuação pretende abordar a seguinte questão: onde inovar? (em inglês, Where to play?). A resposta para essa pergunta consiste na identificação e definição das oportunidades de mercado para a criação de valor e o crescimento.

Nas empresas estabelecidas, essa questão determina os direcionadores de crescimento (ou growth upsides) por meio da inovação, tais como: expansão nos segmentos atuais, crescimento em mercados adjacentes ou inserção em novos mercados.

Em empresas nascentes, a delimitação do escopo de atuação possibilita que os fundadores coloquem foco na oportunidade de mercado mais promissora. Para tanto, sugere-se adotar três etapas:

(1) Identificar o conjunto de oportunidades de mercado;
(2) Avaliar a atratividade dessas oportunidades; e
(3) Desenvolver uma estratégia com foco na oportunidade mais promissora.

Dessa forma, os fundadores definem o mercado de inserção de suas soluções, bem como mantêm outras opções em aberto para crescimento futuro ou como plano de contingência se houver a necessidade de ajustar (ou pivotar) a estratégia.

Visão da inovação

A visão da inovação aponta o futuro desejado da organização por meio dos investimentos em inovação. Esse futuro pode ser definido em horizontes de curto prazo (H1), médio prazo (H2) e longo prazo (H3).

Em empresas estabelecidas, esses horizontes podem estar associados a diferentes graus de inovação (ex.: inovação incremental, inovação radical e inovação transformacional ou disruptiva) ou à estratégia de desenvolvimento tecnológico (ex.: melhorias nas tecnologias atuais, desenvolvimento de tecnologias adjacentes e de novas tecnologias).

Nas empresas nascentes, a visão da inovação pode estar associada ao tempo esperado para o desenvolvimento da solução inicial, bem como relacionada aos horizontes das opções de crescimento futuro.

Qual é a sua tese de inovação?

A tese de inovação de uma organização aborda três questões estratégicas: por que inovar (Why?), onde inovar (Where?) e quando inovar (When?). Essas questões são definidas, respectivamente, por meio dos conceitos e ferramentas inerentes ao propósito da inovação, escopo de atuação e visão da inovação.

As decisões associadas a essas três questões devem estar alinhadas aos ativos estratégicos da organização. Particularmente nas empresas nascentes, os ativos estratégicos possibilitam definir a base tecnológica ou mercadológica. Essa base, por sua vez, deveria direcionar a definição das três questões estratégicas (Por que inovar? Onde inovar? Quando inovar?), além de ancorar as decisões de pivotar (ou seja, de ajustar a estratégia).

(*) Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP 

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.