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Obesidade no Brasil: um desafio social que exige respostas rápidas e integradas

Por Natacha Toral (*) | 06/03/2026 07:10

O crescimento contínuo da obesidade no país exige que compreendamos melhor a situação atual e as forças que impulsionam essa epidemia. Em menos de duas décadas, a prevalência entre adultos cresceu 118%, passando de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Mais da metade dos adultos brasileiros já vive com excesso de peso e, se mantida a trajetória atual, podemos alcançar 75% em 2044, favorecendo não apenas a obesidade, mas outras doenças crônicas associadas. Esses números não são simples dados epidemiológicos; representam vidas atravessadas por doenças evitáveis, perda de qualidade de vida e pressão crescente sobre o sistema de saúde.

Tratar a obesidade como escolha individual, que poderia ser superada apenas com “foco, força e fé”, é perder de vista sua verdadeira natureza: um fenômeno interseccional que expõe desigualdades profundas. O risco é maior entre mulheres, especialmente entre mulheres negras e de baixa renda. Assim como a fome, a obesidade é socialmente determinada: resulta da combinação de insegurança alimentar e ambientes que dificultam escolhas saudáveis e favorecem o consumo de produtos ultraprocessados, cada vez mais baratos em relação aos alimentos in natura e minimamente processados. Não por acaso, um em cada quatro brasileiros consome pelo menos cinco grupos de ultraprocessados por dia.

Essa realidade também tem se manifestado cada vez mais cedo. O Estudo de Nutrição de Crianças Escolares (ENUCE) evidenciou alto consumo de ultraprocessados, baixa diversidade alimentar e comportamentos sedentários frequentes entre crianças de 6 a 11 anos. No Distrito Federal, os achados são especialmente preocupantes: o excesso de peso atinge 32% das crianças de escolas públicas, sendo 15% com obesidade. Além disso, 72% apresentam dislipidemia e 9,4% apresentam hipertensão arterial, sinais precoces de uma carga de doenças que se soma à obesidade e se projeta para a vida adulta. O ambiente escolar, que deveria ser um aliado no enfrentamento da obesidade, frequentemente atua na direção contrária. Em cantinas de escolas particulares e no entorno das escolas no Brasil, produtos ultraprocessados superam amplamente as opções saudáveis.

Partindo do reconhecimento de que a obesidade é uma condição multicausal, seu enfrentamento deve ser intersetorial, envolvendo saúde, educação, assistência social, agricultura, planejamento urbano e defesa do consumidor. Medidas estruturantes incluem ampliar a produção e o acesso a alimentos adequados e saudáveis; fortalecer políticas de renda e segurança alimentar; implementar compras públicas que priorizem a agricultura familiar; regular ambientes alimentares, especialmente nas escolas; e comunicar com transparência, valorizando o Guia Alimentar para a População Brasileira. Instrumentos econômicos também devem ser considerados, já que simulações indicam que tributar ultraprocessados poderia reduzir substancialmente a carga de doenças crônicas não transmissíveis no Brasil.

Nada disso substitui o papel das famílias e comunidades; ao contrário, cria condições para que escolhas saudáveis sejam possíveis e sustentáveis. Refeições regulares em família, cozinhar mais e depender menos de ultraprocessados, incentivar brincadeiras ativas e reduzir telas são práticas potentes. Mas é injusto exigir que indivíduos, sozinhos, compensem um ambiente que empurra para o adoecimento.

No Dia Mundial da Obesidade, podemos celebrar a implementação da Estratégia Intersetorial de Prevenção da Obesidade, instituída recentemente pelo governo federal, que apresenta iniciativas integradas para enfrentar o problema. Essa é uma agenda inadiável e coletiva, essencial para assegurar o direito humano à alimentação adequada. O desafio que enfrentamos é complexo, mas não insolúvel: exige compromisso político contínuo com um olhar estrutural, ações intersetoriais e a compreensão de que ambientes saudáveis não são opcionais, mas condição necessária para conter a epidemia de obesidade no país.

(*) Maria Natacha Toral Bertolin é professora do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Nutrição Humana da Universidade de Brasília.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.