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Futebol: paixão nacional ou oportunidade de fuga da realidade?

Por Cristiane Lang (*) | 26/06/2026 08:30

O futebol é frequentemente chamado de paixão nacional. E talvez seja mesmo. Mas talvez ele seja também algo mais profundo: uma oportunidade coletiva de sonhar, de acreditar e, por algumas horas, escapar das durezas da realidade. Há poucas coisas capazes de fazer um país inteiro parar ao mesmo tempo. Durante uma partida importante, as ruas se esvaziam, os bares se enchem, os olhos se voltam para a televisão e milhões de pessoas passam a compartilhar a mesma expectativa.

Por noventa minutos, as preocupações cotidianas parecem perder força. As contas vencidas, os problemas no trabalho, as incertezas sobre o futuro e as dificuldades da vida ficam temporariamente em segundo plano. Existe apenas o jogo, a bola rolando e a esperança de um resultado positivo.

O mais curioso é que essa esperança persiste mesmo quando a lógica aponta para o contrário. O brasileiro costuma acreditar na vitória mesmo diante de um adversário mais forte, de um time tecnicamente superior ou de circunstâncias claramente desfavoráveis. As estatísticas podem indicar derrota, os especialistas podem prever um resultado ruim, mas o torcedor continua acreditando. E essa crença diz muito sobre a psicologia humana.

A vida é um terreno repleto de incertezas. Crescemos descobrindo que esforço não garante recompensa, que boas intenções não impedem sofrimentos e que nem tudo depende de nossa vontade. A realidade nem sempre é gentil. Ela frequentemente nos apresenta limites, perdas, frustrações e situações sobre as quais não temos qualquer controle. Talvez por isso o ser humano tenha desenvolvido mecanismos emocionais capazes de ajudá-lo a suportar a existência. Entre eles, a esperança ocupa um lugar especial.

Quando um brasileiro acredita que seu time pode vencer um adversário aparentemente imbatível, ele não está apenas torcendo por um resultado esportivo. Está defendendo uma ideia muito mais profunda: a de que o improvável ainda pode acontecer. Está reafirmando sua necessidade de acreditar que nem tudo está determinado, que as previsões podem falhar e que ainda existe espaço para surpresas positivas. No fundo, não é apenas sobre futebol. É sobre a vida.

Todos nós carregamos batalhas silenciosas. Há quem esteja tentando reconstruir um relacionamento, superar uma perda, encontrar um emprego, vencer uma doença ou simplesmente atravessar um período difícil. Em muitos desses momentos, a esperança se torna o combustível que nos mantém caminhando. O futebol oferece uma representação simbólica dessa luta. No campo, vemos um time enfrentar obstáculos, sofrer pressão, cometer erros, resistir e buscar a vitória até o último minuto. Não é difícil enxergar ali uma metáfora da própria existência.

Talvez seja por isso que o futebol desperte emoções tão intensas. Ele nos permite viver, de forma condensada, experiências que fazem parte da condição humana. Há expectativa, medo, alegria, sofrimento, frustração e superação. Em apenas noventa minutos, passamos por uma montanha-russa emocional que reflete aquilo que experimentamos ao longo dos anos em nossas próprias vidas.

O brasileiro, em particular, possui uma relação muito especial com essa narrativa. Somos um povo acostumado a enfrentar dificuldades. Aprendemos desde cedo a improvisar, a nos adaptar e a encontrar caminhos onde aparentemente não existem saídas. Existe uma dimensão cultural nessa crença de que tudo pode mudar até o último instante. Quando um time mais fraco entra em campo contra um gigante, não estamos apenas assistindo a uma partida. Estamos testemunhando a velha história do pequeno enfrentando o grande, do improvável desafiando o previsível. E isso nos fascina porque, em algum nível, desejamos acreditar que essa mesma lógica possa se aplicar às nossas próprias vidas.

Sob essa perspectiva, o futebol pode funcionar como uma forma de fuga da realidade. Mas talvez a palavra “fuga” carregue uma conotação injusta. Nem toda fuga é prejudicial. Existem fugas que alienam e existem fugas que restauram. Ler um livro, assistir a um filme, ouvir música ou caminhar por um parque também são formas de nos afastarmos temporariamente das preocupações. O problema não está em sair da realidade por alguns instantes. O problema surge quando deixamos de voltar.

O futebol oferece um intervalo emocional. Uma pausa necessária para quem passa a semana lidando com cobranças, responsabilidades e preocupações. Durante o jogo, o mundo se simplifica. Existe apenas a próxima jogada, o próximo ataque, a próxima oportunidade de gol. E talvez essa simplicidade seja uma das razões de seu encanto. A vida real é complexa demais. Não há árbitros para marcar as injustiças que sofremos. Não existe um placar indicando se estamos vencendo ou perdendo. Não há cronômetros revelando quanto tempo falta para nossos problemas terminarem. No futebol, pelo menos por algumas horas, tudo parece mais compreensível.

Além disso, o esporte oferece algo que se tornou cada vez mais raro em nossa época: experiências coletivas. Em um mundo marcado pelo isolamento, pelas interações virtuais e pelo excesso de telas, o futebol ainda reúne pessoas em torno de uma emoção compartilhada. Desconhecidos se abraçam após um gol. Pessoas de origens diferentes celebram juntas. Durante uma partida importante, milhões de brasileiros sentem a mesma ansiedade, o mesmo medo e a mesma esperança. Isso cria um senso de pertencimento que vai muito além do esporte.

E mesmo quando a derrota acontece, ela também cumpre um papel importante. O futebol nos lembra que acreditar não garante resultados. Nem sempre o esforço é recompensado. Nem sempre o sonho se realiza. Mas a vida continua. No dia seguinte, as ruas voltam à rotina, os compromissos retornam e os problemas permanecem onde estavam. Ainda assim, algo mudou. Por algumas horas, fomos autorizados a sonhar. Tivemos a oportunidade de acreditar que a realidade poderia ser diferente.

Talvez seja essa a verdadeira força do futebol. Ele não existe apenas para entreter. Ele existe para alimentar algo profundamente humano: a esperança. Quando o brasileiro insiste em acreditar na vitória de seu time, mesmo quando tudo parece desfavorável, ele está defendendo uma das características mais belas da condição humana. Está afirmando que as probabilidades não são tudo. Que os números não contam a história inteira. Que ainda existe espaço para o inesperado.

No fim das contas, o futebol talvez seja simultaneamente paixão nacional e oportunidade de fuga da realidade. Mas não uma fuga vazia. É uma fuga que nos devolve algo valioso quando retornamos: a capacidade de acreditar. Porque a vida pode até ser feita de estatísticas, previsões e limitações, mas o ser humano nunca viveu apenas de lógica.

Vivemos de histórias, de sonhos e da esperança de que o próximo lance possa mudar tudo. E enquanto houver tempo no relógio, seja em uma partida de futebol ou na própria vida, continuaremos acreditando. Não porque seja racional, mas porque é exatamente isso que nos torna humanos.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.