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O bom-humor não é alegria, é coragem

Por Gillianno Mazzetto (*) | 26/06/2026 09:05

Caro(a) conviva,

Existe uma tirania silenciosa que ninguém comenta em voz alta: a exigência de que você esteja bem. Não qualquer bem. Um bem visível, performático, postável. O bem que aparece nos dentes à mostra das fotos e nos "tô ótimo!" respondidos antes mesmo de a pergunta terminar.

Engolimos isso como se fosse virtude. E confundimos, há muito tempo, bom-humor com ausência de dor. Não é isso.

Aristóteles tinha um nome para o que estou tentando descrever. Chamava de eutrapelia, uma palavra que os tradutores modernos sacrificam em "graciosidade" ou "jocosidade", mas que carrega algo muito mais preciso: a capacidade de se mover com leveza dentro da realidade, não apesar dela. Era, para ele, uma virtude moral. Um meio-termo entre a grosseria de quem nunca ri e a futilidade de quem só ri. O homem eutrapélos sabia brincar com o peso da existência sem fingir que ele não existia. É uma distinção que a nossa cultura esqueceu completamente.

A psicóloga clínica Julie Smith tem uma forma de dizer coisas difíceis com uma precisão que desarma. Em vez de prometer que a vida pode ser leve, ela propõe algo mais honesto: que não se trata de sentir menos, mas de não deixar que o que se sente vire a única narrativa disponível. O sofrimento entra. A questão é se ele fica com as chaves. Isso não é positividade. É outra coisa inteiramente. É a mesma coisa que os gregos chamavam de eutrapélia.

Bom-humor, no sentido profundo, não é leveza superficial. É uma disposição. Uma escolha de olhar para o que acontece, o contratempo, o absurdo, o mal-entendido, a perda pequena de uma segunda-feira, e perguntar: o que há aqui que ainda posso usar? Não num sentido pragmático de gerenciamento de crises. Em um sentido humano mesmo. No sentido de quem ainda acredita que a vida tem algo a oferecer, mesmo quando ela oferece pouco.

Conheço pessoas assim. São raras. Não são as que mais riem, às vezes são quietas, sérias até. Mas há nelas algo que não se quebra facilmente. Uma espécie de mola interior. Quando algo desaba, elas não fingem que não desabou. Apenas não ficam embaixo das pedras.

Lembro de uma reunião, anos atrás, em que tudo que podia dar errado deu. Projeto recusado, equipe exausta, silêncio constrangedor ao redor da mesa. Eu sorri. Não porque estava bem, estava péssimo. Mas porque percebi, naquele exato momento, que havia escolhido fazer o sorriso trabalhar por mim antes de entender por que ele tinha aparecido. Levei dias para perceber que aquilo não era força. Era fuga. A máscara estava tão bem ajustada que eu mesmo a confundia com o rosto. Isso cansa de um jeito que não aparece em nenhum exame.

Smith diria, provavelmente, que flexibilidade não é uma característica com que se nasce. É uma habilidade construída por pequenas escolhas repetidas, a escolha de não catastrofizar o que ainda é apenas difícil, de procurar significado onde ele não está óbvio, de notar, no meio de uma semana feia, que o café estava bom.

Aristóteles diria o mesmo com outras palavras. Virtude, para ele, não era talento. Era hexis, hábito. Um estado de caráter cultivado pelo exercício constante. O homem gracioso não nasceu assim. Treinou a graça.

Não controlamos o que a vida traz. Controlamos, às vezes apenas um pouco, como nos posicionamos diante disso. O bom-humor verdadeiro é exatamente essa posição. Não a alegria forçada. Não o sorriso de quem não quer incomodar. Mas a orientação de quem, diante do que é, ainda consegue perguntar: e agora, o que fazemos?

Isso é mais difícil do que parece. Muito mais. Porque exige que você esteja presente o suficiente para sentir o peso e corajoso o suficiente para não deixar que ele decida por você. A pergunta que fica, então, é incômoda e necessária: quando você diz que está bem, está descrevendo um estado, ou exercendo uma virtude?

Pense nisso.

(*)  Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.