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Campo Grande, Sexta-feira, 22 de Junho de 2018

11/10/2013 13:02

Reflexões no aniversário de Mato Grosso do Sul

Por Jorge Eremites de Oliveira (*)

No dia 11 de outubro de 1977 foi criado, em plena ditadura militar (1964-1985), o estado de Mato Grosso do Sul, implantado em 1979. Foi a realização de um sonho para grande parte das elites políticas e econômicas do antigo sul do estado, mas não para toda a população.

Ocorre que na época os eleitores não foram consultados, por meio de um plebiscito, para a tomada da decisão: nem para saber se queriam a divisão, tampouco para escolher o nome da nova unidade da Federação. Na verdade, a vida de grande parte da população da região seguiu no mesmo ritmo de antes, sem grandes alardes em termos de melhoria da qualidade de vida.

Paradoxalmente, a vida melhorou, e muito, para as elites políticas sul-mato-grossenses: enriqueceram-se ainda mais com esquemas de corrupção e ganharam novos assentos no Congresso Nacional para se locupletarem com o poder.

O autoritarismo, portanto, é o pecado capital de Mato Grosso do Sul, estado que nasceu com grandes promessas de ser exemplo de desenvolvimento, gestão administrativa etc. Mato Grosso, ao contrário, chegou a ser apontado como um estado atrasado em vários sentidos, ficando, à época, com menos municípios e dívidas significativas a pagar.

Na verdade, havia muita rivalidade entre as elites políticas regionais e até mesmo entre parte da população do norte, representada por Cuiabá, e do sul, representada por Campo Grande: a primeira cidade, com uma longa história, centro do poder político-administrativo, identidade marcante e muitas tradições; a segunda, mais jovem, virou capital e cresceu muito por conta, também, de investimentos públicos, mas ainda hoje parece querer construir para si, normalmente de cima para baixo, uma identidade cultural e galgar ao status metrópole.

Neste contexto, artistas, intelectuais e políticos de Campo Grande apropriam-se até de representações sobre o Pantanal e a cultura pantaneira para a construção de sua identidade, embora a cidade esteja instalada no bioma Cerrado e distante daquela planície de inundação.

Passados mais de três décadas da divisão, os dados econômicos mostram exatamente o contrário das previsões publicadas em jornais e revistas de circulação nacional: Mato Grosso superou, e muito, Mato Grosso do Sul em termos econômicos, inclusive com o poder político de levar para Cuiabá uma das sedes da Copa do Mundo de 2014.

Para complicar ainda mais a situação, para grande parte da população brasileira e até mesmo da mídia nacional, parece haver um único estado: Mato Grosso. E quando querem se referir aos dois, não é raro ouvir dizer “Mato Grosso do Norte” e “Mato Grosso do Sul”, ora misturando as capitais dos estados, causando descontentamentos aqui e acolá.

Os “do Sul” fazem questão de que o nome do estado seja pronunciado por completo. Já foi feita até a proposta de mudança do nome de Mato Grosso do Sul para Pantanal, algo que chegou a ganhar certa simpatia na mídia, mas mostrou-se anacrônica, casuísta, oportunista e sem grandes propósitos.

Há, contudo, vários assuntos que ainda não foram devidamente estudados quanto ao tema divisionismo e criação de Mato Grosso do Sul. Apontarei apenas três deles. O primeiro é entender que o movimento divisionista não era algo homogêneo e alastrado pela população de todas as cidades meridionais; era coisa de elites políticas e econômicas. O segundo é entender o processo de invenção histórica, política, econômica e sociocultural do “sul do antigo Mato Grosso” e de Mato Grosso do Sul.

A terceira diz respeito a questões de natureza histórica e sociocultural, pois municípios como Corumbá e Ladário possuíam e ainda possuem fortes vínculos com Cuiabá, Cáceres e outras antigas cidades pantaneiras de Mato Grosso, ligadas pelo rio Paraguai. Mesmo assim, ficaram no sul. Por outro lado, parte da população de Rondonópolis identificava-se mais com Mato Grosso do Sul do que com Mato Grosso. Assuntos desta natureza podem parecer menos importantes, mas valeriam a pena ser estudados com mais afinco.

No mais, registro aqui meus parabéns à população de Mato Grosso do Sul neste dia 11 de outubro de 2013. Desejo-lhes um futuro melhor e que esta seja uma data oportuna para profícuas reflexões sobre nossa história e nosso devir.

(*) Jorge Eremites de Oliveira é professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas.

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