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Campo Grande, Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

29/12/2012 10:29

Rodas da produtividade

Bruno Peron (*)

Enquanto um número de empresários e gestores públicos apregoa que sem crescimento econômico o Brasil não vai para frente, sustento que o país não administra bem o cenário de crescimento nem o faria melhor se crescesse mais. Sucede um enguiçamento das rodas da produtividade; assim, está mais do que explícito que as concessões às famílias de renda baixa vão pouco além de salários estagnados e inflação no preço dos alimentos e dos serviços.

A presidente Dilma Rousseff negocia acordos comerciais e educativos com o governo russo, por um lado, na tentativa de reforçar o conceito de “país emergente” no âmbito dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e, por outro, no esforço mais do que necessário de sair da área de influência EUAna, um país a mais cujos super-heróis estão em tudo, todas as pessoas e todos os lugares (até na Lua). Nem o melhor dos exorcistas consegue desEUAnizar o mundo para o bem da humanidade.

Dentro das negociações entre Dilma Rousseff e a dupla Putin/Medvedev, aparece o desejo de que a carne bovina brasileira volte a entrar no mercado russo e se estabeleça algum programa de incentivo de universidades da Rússia ao intercâmbio de estudantes brasileiros através do Ciência sem Fronteiras. É notório que uma das finalidades deste programa de financiamento de estudos no exterior é aumentar a eficiência científica e tecnológica do Brasil para que o país compita em condições melhores no mundo e a fonte de renda passe dos braços para a cabeça.

A economia brasileira tem altos e baixos. A última ocorrência foi a desvalorização do Real frente ao Dólar estadunidense, embora esta oscilação cambial favoreça as exportações do Brasil. O momento, porém, é de crise da produtividade porque os recursos naturais tendem a esgotar-se, uma minoria de produtores seguem práticas sustentáveis e cada vez menos pessoas acreditam que crescimento gera benefícios. Quanto maior a sustentabilidade, maior o ritmo de devastação porque a empresa que diz sustentar sua exploração só aprendeu a justificar o que faz com o recurso a outras empresas voltadas a papéis de certificação ambiental.

Um dos maus exemplos é a forma cruel como se têm extraído barbatanas de tubarão no litoral do Rio Grande do Norte. Cortam-se as barbatanas dos animais vivos e lançam-nos de volta ao mar para que agonizem no fundo sem capacidade de nadar. Este ritual produtivo sacia um setor comercial de sopas exóticas no mercado asiático. Outro é a perseguição, expulsão e aniquilação de nativos/indígenas de suas terras por fazendeiros que chegam para destruir tudo em nome da economia pecuária e agroexportadora no Mato Grosso.

O padrão brasileiro de crescimento, ocupação dos solos e das águas, e de extração de recursos naturais é raramente digno de aplausos. Seria benéfico, por exemplo, se a produção de alimentos atendesse primeiramente à demanda interna para, se restar, seguir a outros países. Acontece o inverso: primeiro se exporta; se sobrar, vai para consumo interno. A reversão deste quadro poderá ocorrer dando-se mais oportunidade aos pequenos produtores e evitando-se os monopólios.

Nosso sistema eleitoral vicioso, porém, reproduz-se com financiamento privado que mantém os fantoches públicos. Que político falaria contra os monopólios nos negócios, as máfias de todo tipo, o crescimento que mantém a maioria na ilusão do consumo e outros retrocessos que reproduzem práticas coloniais no país onde a modernidade se arranha em feitos e se idealiza em utopias?

O Brasil está numa fase em que é hora de despertar após o oitavo sono, mas esta reação dificilmente virá de outros grupos que os próprios candidatos a cidadãos. Estes, para deixar a condição de meia-cidadania, deverão cair na realidade onde não dá mais para acreditar que o país seja a “bola da vez” se, em suas cidades, dirigem-se carros de última geração em ruas esburacadas, falta energia elétrica quando chove e a insegurança prevalece (com furtos em domicílio e em comércios varejistas, explosão de caixas eletrônicos e ônibus incendiados).

A lorota do PIBão há muitos anos tem reunido cenas para um belo filme ficcional, a menos que comecemos por assumir as falhas de como movemos as rodas deste rico país e prefiramos um documentário revelador das potencialidades nacionais.

(*) Bruno Peron é mestre em Estudos Latino-americanos por Filos/ UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México)

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