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Por que os homens continuam a matar as mulheres?

Por Eva Alterman Blay (*) | 07/02/2026 13:30

Arevolução feminista, afirma Yuval Noah Harari, é a transformação mais profunda da história contemporânea. Diferentemente das revoluções tecnológicas ou econômicas, ela vai além: altera os sistemas produtivos e desloca as hierarquias mais antigas da humanidade — aquelas que controlam o corpo, a reprodução, o trabalho e a própria definição do que é o ser humano.

Concordar com Harari significa reconhecer que o feminismo não é um tema circunstancial ou identitário, mas uma ruptura civilizatória. Ou seja, é preciso compreender onde, como e a que custo essa transformação se realiza. Tomemos o corpo da mulher. Na modernidade, ele é frequentemente apresentado como um projeto de progresso.

No entanto, nele se oculta aquilo que Federici, Blay, Saffioti, entre outras autoras, identificaram como uma forma de expropriação do trabalho reprodutivo: um processo que disciplina os corpos femininos e legitima o uso da violência contra mulheres consideradas insubordinadas ao destino “naturalizado” do cuidado como obrigação feminina.

A revolução feminista não se reduz à conquista de direitos formais. Ela busca dar nome àquelas que trabalharam, cuidaram, foram punidas, silenciadas — aquelas que sustentaram a vida e o próprio capitalismo, enquanto o essencial permanecia oculto: o reconhecimento do trabalho e da atuação política das mulheres.

Ao questionar normas e formular uma crítica radical às formas de poder, o feminismo revela quais vidas são protegidas, quais são reconhecidas e quais são consideradas descartáveis.

A entrada da revolução feminista na estrutura do Estado inaugura um terreno inovador. Criam-se delegacias da mulher, secretarias de políticas para as mulheres, conselhos e mecanismos institucionais de gênero. Mesmo desorganizados, esses instrumentos administrativos constituem marcos históricos: pela primeira vez, a violência doméstica, sexual e simbólica deixa de ser tratada como assunto privado e passa a ser reconhecida como um problema público e político.

Essas instituições materializam a revolução feminista em práticas concretas — escuta, acolhimento, registro, políticas públicas. São limitadas, subfinanciadas, politicamente esvaziadas e carentes de poder real. Ainda assim, alteram o imaginário social: afirmam a importância da vida das mulheres, nomeiam a violência e convocam o Estado à sua responsabilidade.

Criticar o feminismo institucional por sua exclusão de mulheres negras, indígenas, periféricas e trans é parte constitutiva da própria revolução feminista, que se reinventa ao interrogar seus limites.

Como explicar, então, o feminicídio?

A extraordinária revolução feminista está pagando um preço em vidas de mulheres. Não é necessário repetir o macabro número de mulheres assassinadas diariamente.

Essa revolução não terminou. O feminicídio reflete a resistência às mudanças: a sociedade patriarcal reage à ampliação de direitos e instaura uma nova batalha. O feminicídio é a arma fatal do patriarcado.

Retomando Harari, a revolução feminista, diferentemente das revoluções industriais, comunistas ou religiosas, não usou bombas. Nem por isso tem sido pacífica. O patriarcado reage à perda de poder utilizando todas as armas à sua disposição, expandindo a violência e elevando os índices de feminicídio. Paradoxalmente, homens e mulheres não feministas se unem contra a igualdade de gênero e alimentam essa violência extrema.

Embora haja avanços, o quadro atual permanece disperso e desarticulado. Os movimentos sociais e as estruturas institucionais de apoio do Estado ainda estão em processo de consolidação. Enquanto o feminismo busca avançar, o patriarcado resiste — e utiliza sua arma mais letal: mata mulheres.

(*) Eva Alterman Blay, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.