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Campo Grande, Domingo, 25 de Agosto de 2019

11/11/2018 15:43

Seguindo em frente

Por Marcelo Harger (*)

Em minhas andanças por esse mundo afora conheci Alberto Braga. Descendente de portugueses que tiveram o auge familiar durante o ciclo da borracha, hoje, Braguinha, como é conhecido na comunidade de Santa Isabel do Rio Negro, é um ribeirinho. Mora nas margens do Rio Negro em uma localidade chamada Temendauí. Vive da pesca e da extração de piaçaba.

Tem oitenta e um anos e sentiu-se honrado quando desci da lancha para conversar com ele, dizendo que é “bom conversar com um homem de presença”. Mal sabia ele que ali eu era o aluno e ele o professor. Contou-me um pouco de sua vida e foi suficiente para dar-me uma lição.

Percebia-se pelo linguajar que era pessoa diferente dos demais ribeirinhos. O linguajar era mais culto, talvez fruto de o idioma aprendido na infância ser o português de Portugal. Contou-me que viajou ao Pará para morar com os tios e estudar. Com orgulho disse que “tirou o ginásio”, e foi escoteiro.

Na época, segundo ele, o seu tio era primeiro tenente do exército, diretamente subordinado ao capitão Castelo Branco. O capitão era também o chefe da tropa de escoteiros e tinha pelo jovem um carinho especial. Era por ele chamado de caramuru, por falar tupi-guarani. A afinidade era tamanha que o tio e o capitão conseguiram para Braguinha vaga em um colégio militar no Rio de Janeiro.

Braguinha recusou a oportunidade e preferiu voltar para o local onde nascera, às margens do Rio Negro. Arrepende-se da escolha, feita não se sabe por qual razão. Afirma com firmeza que chutou a própria sorte com os dois pés, e só foi perceber isso quando o “chefe dos escoteiros” Castelo Branco tornou-se presidente.

Ao ouvir aquele simpático senhor lamentar a decisão tomada mais de sessenta anos atrás, matutei acerca das escolhas que fazemos na vida. Cada escolha fecha algumas portas e abre outras, mas regressar é impossível. O caminho é sempre em frente. Do passado leva-se apenas o aprendizado. Ninguém dá certo ou errado. Diante da quantidade de portas que temos para abrir em nossa vida, é muito mais fácil errar do que acertar. Viver é belo, porém amedrontador. Somente vemos o que estamos preparados para ver, e Braguinha viu a oportunidade muito depois que ela havia passado. Do alto de sua sabedoria, no entanto, ensinou-me que na vida não existe vitória ou derrota. Existe apenas o que vivemos, e o que deixamos de viver e nada podemos fazer a não ser seguir em frente.

(*) Marcelo Harger é advogado. 

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