ACOMPANHE-NOS    
OUTUBRO, SÁBADO  23    CAMPO GRANDE 29º

Artigos

Uma pesquisa sobre garimpos de ouro em Florestas Tropicais

Por Lúcia da Costa Ferreira e Jorge Calvimontes (*) | 11/08/2021 08:30

No momento do lançamento mundial das contribuições do Grupo de Trabalho sobre as bases físicas das ciências do clima para o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), é oportuno realçar sua importância para nossa vida no planeta, onde as mudanças climáticas mudaram tudo. Mas vale lembrar que as transformações das bases físicas que a sociedade humana produz nos aponta à inevitabilidade de se pensar a sociedade e os riscos que enfrenta e fabrica.

Caminhando mais além vivemos hoje uma condição antropológica geral da sociedade atual em que “a sensação de perder o mundo agora é coletiva”. Essa frase de Bruno Latour em Down to Earth. Politics in the New Climatic Regime aponta o sentimento difuso de não se ter mais uma casa para voltar. Esse sentimento coletivo produz o que Ulrich Beck chamou em Risk Society, um choque antropológico, que impõe um horizonte político-normativo a toda a sociedade. Diante desta condição a transformação, a autocrítica individual, coletiva e institucional é inevitável: repensar e se reinventar como sociedade, cujas condições estarão sob novos alicerces.

Proponho neste pequeno espaço circunscrever nossa discussão a uma condição antropológica geral da sociedade de hoje. O momento de adequação social e coletiva ao desenvolvimento sustentável já passou, não há mais tempo. O país precisa se preparar para outra geopolítica e para isso precisa pensar uma narrativa e um projeto político e científico com força suficiente para produzir o tal choque antropológico, que nos livre desta angústia silenciosa que habita o cotidiano atual.

É urgente discutir mudanças climáticas, sociedades sustentáveis, equitativas, justas e conflitos pelo uso e posse da Terra e de Recursos Comuns, em um contexto que exige a produção de conhecimento para a emergência de uma ciência e uma sociedade transformadoras.

O projeto Sustainability Transformations in Artisanal and Small-scale Gold Mining: A Multi-Actor and Trans-Regional Perspective” do Belmont Forum and NORFACE Transformations to Sustainability Programme se filia a esta demanda mais ampla da sociedade.

O projeto, que no Brasil é apoiado pela FAPESP examina se são possíveis transformações que conduzam a um futuro sustentável para a mineração de ouro em pequena escala; e analisa a forma como essas transformações poderiam acontecer de modo a combater a destruição ambiental, doença e pobreza subjacentes às lavras implantadas.

Pesquisadores de distintas disciplinas, artistas e profissionais do desenvolvimento comunitário de diversas origens e bagagens formam a equipe do projeto e realizam investigação empírica em Suriname, Guiana Francesa, Brasil, Uganda, Gana, Burkina Faso e Guiné. Em cada uma dessas regiões, mineradores, membros de cooperativas e associações, lideranças locais e indígenas, além de gestores discutem com os membros do projeto sobre os futuros possíveis para a atividade e juntos expressam suas posições e desejos.

Os cientistas do projeto buscam a ocasião para apresentar e discutir criticamente as abordagens conceituais e metodológicas emergentes na pesquisa para a sustentabilidade. Colaboradores do programa Belmont Forum – NORFACE Transformations to Sustainability veem refletindo sobre o que se desenha como agência transformadora e como essas experiências e comportamentos individuais e coletivos podem servir para informar uma ação mais ampla e abrangente.

O garimpo de ouro, está historicamente relacionado aos processos de ocupação do território, de construção da relação entre a sociedade nacional e os recursos naturais e de discussão sobre as condições de trabalho dos grupos sociais mais vulneráveis. Hoje, representa uma oportunidade de emprego e renda para grupos na Amazônia Legal. Por outro lado, tem produzido intensos e dramáticos conflitos em lugares onde as lavras alcançam, desde terras indígenas, até em áreas protegidas para a proteção da biodiversidade e de áreas florestadas, tão importantes para enfrentar as mudanças climáticas, a geração verde de renda, a diminuição da pobreza e o bem-estar dos povos.

Eleanor Fisher e colaboradores de nosso projeto tem mostrado através de nossos resultados que precisamos de abordagens inovadoras e visionárias para enfrentar esses desafios urgentes. O discurso das transformações implica mudanças profundas nos sistemas, estruturas, valores e práticas sociais e econômicas que perpetuam os problemas contemporâneos. Isso sugere a necessidade de inovação na ciência da sustentabilidade, desafiando estruturas de poder e abrindo espaços para valorizar uma maior diversidade de conhecimentos, fundamentando as ações em direção à sustentabilidade em contextos específicos e aumentando seu potencial para influenciar múltiplos atores locais, além de políticas públicas e acordos multilaterais.

Há um amplo consenso acerca da contribuição vital da Ciência para impulsionar as transformações urgentes na produção material sustentável e justa e na distribuição das riquezas na sociedade. No entanto, até agora o sucesso foi tímido e limitado para apoiar os esforços para abordar as barreiras sociopolíticas e culturais à sustentabilidade

Por fim, esta tarefa a meu ver é fruto de coprodução do conhecimento, não apenas por nós especialistas, mas também dos usuários diretos e indiretos da riqueza natural que ainda resta. Basta ficar com os ouvidos atentos e nossa capacidade de vocalização cada vez mais apurada.

(*)  Lucia da Costa Ferreira é pesquisadora sênior da UNICAMP e professora dos Programas de Pós Graduação em Ambiente e Sociedade, Ciências Sociais e Sociologia.

(*) Jorge Calvimontes é biólogo e doutor em Ambiente e Sociedade pela UNICAMP.

Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário