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Vacinas de vento

Por Yeda Aparecida de Oliveira Duarte (*) | 27/02/2021 07:25

A mídia noticiou recentemente casos das chamadas “vacinas de vento” ocorrendo no País e envolvendo a vacinação de pessoas idosas, grupo que mais morre na pandemia. O Conselho Federal de Enfermagem recebeu 12 denúncias sendo seis em São Paulo, três no Rio de Janeiro, duas em Goiás e uma em Alagoas.

As “vacinas de vento” constituem uma simulação de vacinação sendo que a seringa não contém o imunizante, na verdade está vazia, contendo apenas ar. Assim, a pessoa idosa não recebeu a vacina embora tenha sido picada e tenha acreditado ter sido imunizada.

Após denúncia, a Polícia e o Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro iniciaram investigações. Os profissionais envolvidos foram afastados de suas funções e os idosos envolvidos foram devidamente vacinados posteriormente, segundo informado pelas autoridades de saúde.

Diferentes alegações foram feitas pelos profissionais envolvidos, tais como cansaço, estresse, problemas com a seringa, erro no preparo realizado por outro profissional. No entanto, nenhuma dessas justificativas explica o ocorrido, que, além de uma grave ocorrência ética, pode constituir um crime.

Segundo a Polícia, uma das envolvidas já foi indiciada e, se confirmado o desvio de doses para venda ou benefício de pessoa próxima ou ainda por qualquer outra irregularidade, o profissional envolvido poderá ser autuado pelo crime de peculato – apropriação por parte de funcionário público de um bem a que ele tem acesso por conta do cargo/função que ocupa – com pena que pode chegar a até 12 anos de reclusão.

Tais ocorrências que foram viralizadas nas redes sociais geraram desconfiança na população e, em virtude disso, alguns protocolos foram adotados.

A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro orientou as equipes envolvidas na vacinação a mostrar todo o procedimento para a pessoa que será vacinada e seus acompanhantes e recomenda ainda que dúvidas que surgirem deverão ser questionadas imediatamente no local. Fotos e imagens do ato da vacinação (não dos profissionais) estão liberadas, de forma a garantir a transparência do atendimento realizado.

Em São Paulo, no drive-thru instalado no Estádio do Pacaembu, na zona oeste da capital paulista, todos os profissionais de saúde são orientados a seguir o mesmo ritual:

1 – Tirar o frasco com a vacina do isopor ou caixa térmica que o mantém refrigerado;
2 – Introduzir a agulha no frasco e aspirar 0,5 ml da vacina em seu interior;
3 – Dirigir-se à pessoa a ser vacinada, mostrar a seringa com o conteúdo líquido (vacina) em seu interior;
4 – Verificar em qual braço será aplicado o imunizante e proceder a antissepsia local com álcool;
5 – Fazer a aplicação da vacina e em seguida mostrar a seringa vazia a todos os envolvidos;
6 – Colocar um bloodstop no local de aplicação para evitar sangramento;
7 – Descartar a seringa utilizada em local apropriado.

Tudo deve ser realizado na frente da pessoa a ser vacinada e seus acompanhantes e, além disso, o procedimento deve ser narrado passo a passo para que todos os envolvidos compreendam o processo realizado e tenham certeza de que a vacina foi aplicada. Embora possa parecer cansativo, essa foi a maneira encontrada para garantir a transparência do processo, reduzindo a desconfiança da população.

Infelizmente esses incidentes ocorreram, mas as medidas éticas e legais já foram providenciadas. Assim, tal conduta e desconfiança não podem ser generalizadas a todos os profissionais de enfermagem. Isso não seria correto nem justo. Esses profissionais estão trabalhando incansavelmente na linha de frente de combate à pandemia há meses, expondo-se continuamente mesmo com muitos cuidados e o uso de medidas de proteção. São eles que garantem o cuidado adequado às pessoas que adoecem e são hospitalizadas, estando o tempo todo ao seu lado e atendendo suas necessidades em um momento de maior vulnerabilidade e quando não podem estar perto de seus entes queridos, proibidos de visitá-los devido à pandemia. Sofrem com os óbitos que não podem evitar apesar de muito esforço, pouco descansam e, no dia seguinte, estão prontos para ajudar novamente. Além desse trabalho exaustivo há vários meses e sem uma perspectiva concreta de redução de atividades, muitos morreram em decorrência da própria pandemia. Vamos lembrar que muitas vidas foram salvas graças ao intenso trabalho desses profissionais junto com toda a equipe de saúde. Essas pessoas merecem nossa gratidão e respeito. Assim, não vamos generalizar.

Vivenciamos condutas criminosas realizadas por pessoas inescrupulosas que não representam a profissão, apenas a aviltam. Elas responderão judicialmente e eticamente por seus atos.

A pergunta que fica é: por que fazer isso com pessoas idosas? (Não ouvimos isso em relação à vacinação de profissionais de saúde, por exemplo.) Será que consideramos que eles já viveram muito e devem ceder suas vacinas para outras pessoas? Será que o fazemos pois cremos que eles não terão capacidade para perceber, ou seus familiares não se importam com eles e não estarão atentos para o que está sendo feito? Bem, vimos que isso não é verdade. Que isso sirva de lição para pessoas egocentradas e inescrupulosas.

Juntos, sociedade e profissionais impedirão que condutas como essa sejam repetidas.


(*) Yeda Aparecida de Oliveira Duarte é professora da Escola de Enfermagem da USP

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