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Vivendo na superfície

Por Cristiane Lang (*) | 25/06/2026 08:30

No tempo em que vivemos quase tudo acontece na superfície. As conversas são rápidas, os sentimentos são resumidos em poucas palavras, os vínculos são medidos por curtidas e a profundidade parece ter se tornado um luxo para poucos. Talvez por isso tantas pessoas se sintam deslocadas. Não porque estejam erradas, mas porque insistem em mergulhar onde a maioria apenas molha os pés.

Rachel de Queiroz escreveu que há pessoas que vivem apenas na superfície das coisas. E talvez uma das maiores dores daqueles que sentem profundamente seja justamente perceber que nem todos habitam o mesmo lugar emocional. Enquanto alguns atravessam a vida como quem passa por uma vitrine, outros entram, observam cada detalhe, sentem cada cheiro, percebem cada nuance. E, inevitavelmente, pagam um preço por isso.

Existem pessoas que não sabem gostar pela metade. Não sabem ouvir sem realmente prestar atenção. Não sabem amar sem entregar pedaços de si. São aquelas que guardam conversas na memória, que percebem mudanças no tom da voz, que se preocupam com detalhes que passam despercebidos para a maioria. Pessoas que vivem mergulhadas na profundidade das experiências humanas.

Mas viver assim também dói. Dói porque quem vive profundamente espera encontrar profundidade nos outros. Espera reciprocidade. Espera encontrar alguém disposto a descer os mesmos degraus emocionais que percorreu sozinho. E nem sempre encontra. Muitas vezes oferece um oceano e recebe uma poça. Entrega presença e recebe distração. Oferece escuta e encontra apenas respostas automáticas.

A dor não está apenas na rejeição. Está na sensação de desencontro. Na descoberta de que aquilo que para você era significativo, para o outro era apenas mais um acontecimento comum. Enquanto você construiu uma lembrança, o outro mal registrou o momento. Enquanto você se permitiu sentir, o outro permaneceu protegido atrás de suas próprias barreiras.

O mundo moderno parece recompensar a superficialidade. A velocidade é valorizada mais do que a reflexão. A aparência recebe mais atenção do que a essência. A quantidade importa mais do que a qualidade. E, nesse cenário, aqueles que buscam significado acabam parecendo estranhos. São chamados de intensos, sensíveis demais, complicados ou dramáticos.

Mas talvez a intensidade não seja um defeito. Talvez seja apenas uma forma diferente de existir.

Afinal, são essas pessoas que transformam encontros em memórias, conversas em aprendizado e relações em algo que transcende o mero contato humano. São elas que percebem a beleza escondida nos detalhes, que enxergam poesia onde outros veem rotina, que conseguem encontrar significado até mesmo na dor.

Porque quem vive profundamente não sente apenas a tristeza de forma mais intensa. Sente também a alegria. Encanta-se mais facilmente. Emociona-se diante de pequenos gestos. Carrega gratidão por coisas simples. Experimenta a vida em uma frequência que nem todos conseguem alcançar.

O problema é que, muitas vezes, essas pessoas tentam diminuir a própria profundidade para caber em relacionamentos rasos. Aprendem a esconder sentimentos, a falar menos do que sentem, a fingir indiferença para não parecerem vulneráveis. Aos poucos, começam a acreditar que há algo errado com elas. Mas não há.

O erro talvez esteja em acreditar que a superfície é o único lugar seguro para viver. A superfície protege, mas também limita. Nela não existem grandes dores, mas também não existem grandes descobertas. Não existem feridas profundas, mas tampouco existem conexões verdadeiramente transformadoras.A vida acontece no mergulho.É nas profundezas que encontramos nossas maiores verdades. É lá que descobrimos quem somos quando ninguém está olhando. É lá que aprendemos sobre amor, perda, saudade, perdão e recomeço. Tudo aquilo que realmente nos transforma exige profundidade.

Talvez por isso as pessoas que mais sofrem sejam, muitas vezes, as mesmas que mais compreendem a vida. Não porque desejem a dor, mas porque não fogem dela. Porque entendem que sentir faz parte da experiência humana. Que a existência não é feita apenas de momentos leves, mas também de travessias difíceis.

Viver apenas na superfície pode parecer mais fácil. Mas há uma diferença enorme entre sobreviver e viver. Quem vive apenas na superfície passa pelos dias. Quem mergulha, experimenta os dias. Quem permanece na margem observa a correnteza. Quem entra na água conhece sua força, seus riscos e sua beleza.

No fim, as pessoas que se doam inteiras continuarão existindo. Continuarão amando profundamente, acreditando nos encontros verdadeiros e enxergando além das aparências. Continuarão sofrendo algumas decepções, é verdade. Mas também experimentarão alegrias que os habitantes da superfície jamais compreenderão completamente.

Porque existem tesouros que só podem ser encontrados no fundo do mar. E quem escolhe viver na profundidade sabe que, apesar das dores do mergulho, jamais conseguiria se contentar em passar a vida inteira apenas observando as ondas.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.