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Beba das Crônicas

Água, vinho e outros líquidos – Crônica de Lucilene Machado

Por Lucilene Machado | 18/09/2021 08:29

Pode acontecer com qualquer pessoa da minha idade dissolver 200 gramas de colágeno em um copo de água e tomar sem pausa. Pode ocorrer de abrir a geladeira e encontrar uma jarra de água com um limão dentro ou, talvez, uma garrafa contendo uma mistura de vinagre com mel para ser tomado em jejum na tentativa de resistir aos desejos doces previamente elaborados com açúcares e manteigas. Qualquer um de nós pode tomar uma taça de vinho em noite de luar sem sentir a dor da solidão. Pode-se botar um tênis e sair sozinha a caminhar pelos parques, observando a natureza, os pássaros, os tons de verdes e comprovar que o silêncio se converte em nossa única permanência como animais na terra. No silêncio, construímos bosques em nossas entranhas e chegamos à conclusão de que tudo o que vivemos, as coisas que de fato valeram a pena, podem ser desenhadas em um pequeno paredão.

Pode acontecer, com as pessoas da minha geração, passar tardes cuidando das plantas, dar ração aos gatos da rua, alimentar passarinhos com semente de girassol, ou escrever. Mas uma das coisas mais interessantes que pode passar a uma pessoa nesta faixa etária é apaixonar-se. É raro, já que ficamos muito exigentes. É preciso valer a pena. Vamos deixando pra lá as pessoas vazias, às que estão solidificadas nos conceitos midiáticos, os extremistas, sejam políticos ou religiosos, os egoístas, os narcisistas... e assim vamos eliminando a grande maioria.

A essa altura, conhecemos a ignorância do amor em todos os idiomas. Precipitamo-nos a desabitar as futuras histórias. É muito difícil enganar a si mesma, e a paixão se alimenta também do autoengano.

Deixemos para outro agosto. Amanhã plantaremos lírios da paz para que a casa fique reconhecível. Amanhã a vizinha falará do tempo e de algo desconhecido que cresce dentro do travesseiro. Seria o desejo? Ela não teme ser mal interpretada. Paga o preço quando quer. Cruza várias cercas de arame farpado para chegar ao nascedouro.

Eu mato minha sede de outras maneiras. Quando tomo água em pé na cozinha, dois copos pelo menos, como manda a médica, não penso no rio se agitando. Apenas levanto olhar para o ventilador de teto e verifico se está sujo. Nem me ocorre que o corpo humano seja quase completo de água, nem que a alma seja de água. Quando tomo o líquido com colágeno para hidratar as células, um peixe desce pela traqueia, rápido e liso. Nesse instante o corpo sossegado treme com força! Porém, não penso nos peixes fugindo dos crocodilos quando a água atravessa a garganta. Nem me ocorre pensar no mar mediterrâneo se avolumando, nos homens gregos dançando na areia e manifestando sons guturais... Tampouco penso que os homens gregos caminham até onde resplandece a água, pescam sozinhos e dormem sobre o plano seco das margens. A vegetação seca se eriça contra o vento, os murmúrios se ondulam em sons movediços: “de que história antiga você saiu?” – nada disso eu penso quando a água, (ou seria o vinho?) atravessa a garganta e me mata a sede.

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