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Beba das Crônicas

Morenão, 55 anos de histórias e muitas aventuras

Por André Alvez (*) | 06/04/2026 10:30

Quando recorre à memória da infância, todo escritor, inadvertidamente, acaba caindo naquela frase famosa do poeta Manoel de Barros: "Noventa por cento do que eu escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".

Acontece que a fase mais doce de nossas vidas ocorre na infância e fica difícil escapar dessa máxima do grande poeta.   Nessa crônica, porém, num esforço supremo, volto ao passado fingindo não enxergar as casas de tábuas iluminadas por lamparinas, o cheiro de querosene na fumaça passeando sobre nossas cabeças enquanto, encantados, assistíamos a novela numa televisão movida a bateria de automóvel.

E então a mágica se forma, as esquinas de antes são levadas num sopro de vento, junto delas lá se vão as noites enluaradas da minha infância, enquanto meus dedos apertam as teclas do computador, todo silêncio do mundo, meu pensamento fixado, carregando a visão até um único destino, o gigante de concreto dentro da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

O encanto dessa narrativa, permeada de momentos tão bons de minha infância, apesar de tantas dificuldades da vida humilde, me faz escrever, de forma separada, os trechos dessas memórias que tenho do estádio Pedro Pedrossian, o Morenão.

Ah, aqueles noventa por cento de invenção que disse o poeta Manoel insistem me rodeiam...  Já nesse início, sinto imensa vontade de inventar que estive presente à inauguração do estádio, um domingo festivo, no longínquo ano de 1971. Na ponta dos dedos apertando as teclas do computador, vejo nitidamente todos os lances do jogo entre Flamengo e Corinthians.

Sorrio comigo mesmo enquanto assopro para longe os dez por cento de mentiras.

Retorno à verdade, eu não fui àquele jogo, o que tenho na memória são histórias contadas por parentes e amigos que lá estiveram e nada mais.

Escapado da primeira tentação Manoelina, retorno às minhas vivas memórias:

Vasco X Guarani

Se não fui ao jogo inaugural, estive presente no segundo jogo oficial, entre Vasco da Gama e Guarani de Campinas, um domingo à tarde, o tempo todo me enganando ao imaginar que o Guarani era na verdade o Palmeiras. Sei que esse jogo terminou empatado em 2 a 2, mas não consigo distinguir a sequência dos gols. Manoel de Barros me assopra: "inventa qualquer coisa" e então me arrisco a dizer que o Vasco fez um a zero, o Guarani empatou, mas logo depois a equipe cruzmaltina fez o segundo e então, quando tudo se encaminhava para o fim, com a vitória vascaína, um jogador loiro chamado Cleiton, que eu jurava ser o Leivinha, fez o gol de empate para o time paulista.

Saí de lá impressionado com o goleiro do Vasco, o argentino Andrada, o mesmo que sofreu o milésimo gol do Pelé e esmurrou o gramado, inconformado por quase ter defendido o chute do rei do futebol, um lance que a televisão até os dias atuais repete várias vezes.

Logo a seguir àquela data, os times de Campo Grande se profissionalizaram e passaram a disputar o campeonato estadual ainda no Mato Grosso uno. O Comercial se sagrou campeão do ano de 1973 e isso lhe deu o direito de disputar o campeonato brasileiro daquele ano. Foi naquele campeonato brasileiro que ocorreu aquela que talvez seja a minha lembrança mais marcante:

O dia que vi Pelé jogar ao vivo.

Valter Rocha Molina, de saudosa memória, esposo da minha tia Eurinda, era torcedor fanático do Comercial, mas também torcia para o Santos. Nada no mundo evitaria que ele fosse assistir o confronto entre seus dois times do coração. No dia do jogo, munido de sua famosa bicicleta verde dos aros perfeitamente polidos, bateu na porta da casa da minha avó, vizinha à sua:

- Está pronto, André? Vamos logo.

Eu estava pronto desde que acordei, ansioso, contente demais por ele ter se lembrado de me convidar para ir junto dele assistir aquele jogo. Filho criado sem pai, precisa de tios atentos e carinhosos. O Valter era um deles.

O jogo seria à noite, mas combinamos ir bem mais cedo, no começo da tarde, para evitar aglomeração e porque o Valter desejava ver o Pelé de perto. Para isso, ele tinha um plano: ficaríamos na geral, em frente ao túnel de entrada dos times em campo. A avenida Manoel da Costa Lima, caminho entre o bairro Guanandi até o Morenão, estava abarrotada de gente desfilando com a bandeira vermelha e branca do Comercial, atrapalhados às vezes por operarianos que passavam aos gritos de "O Santos vai golear!".

Ficamos um bom tempo esperando a bilheteria abrir e corremos para dentro do estádio assim que as fichas de entrada nos foram entregues.  Valter nos posicionou bem atrás do túnel que dava acesso ao gramado, do lado esquerdo de quem olha para dentro, ele sabia que o Santos entraria por ali. Esse era o plano, o local era muito perto da entrada dos times em campo e nem mesmo o mais forte dos mortais tiraria o Valter daquele exato lugar. Seus olhos o tempo todo não desgrudaram da boca do túnel e segurando o radinho de pilha colado ao ouvido dando as últimas informações, até que, corações trêmulos, ouvimos em alto e bom som: "vai entrar, o Santos Futebol Clube está perfilado para adentrar ao gramado" disse um repórter e os olhos do Valter se iluminaram de um tanto .... Difícil descrever. Eu simplesmente chorei, aquele choro de criança encantada, salgado e ao mesmo doce, completamente deslumbrado com a imagem de onze jogadores vestidos de branco entrando em campo. O primeiro à frente era ele, o monstro sagrado, a lenda, o atleta do século, camisa dez às costas, entrou fazendo acenos à plateia.

Manoel me pede nesse instante para abrir uma pequena exceção à realidade, obedeço ao poeta, sim, eu vi Pelé se virar e olhar bem na nossa direção, pulso fechado, batendo no peito, como se dissesse para nós dois, o Valter e eu: "sim, eu estou aqui"....

O Comercial entrou em campo logo a seguir e aquele vermelho da camisa ofuscou meus olhos, os gritos da torcida entorpeceram a minha alma.

Aqui se faz necessário abrir um parêntese: apesar de toda sedução do vermelho, não foi o suficiente para me captar, eu torcia para o Botafogo desde àquela época e já andava um tanto encantado por outra equipe da cidade que tinha o uniforme muito parecido com o time do Rio.

O jogo começou e não tiramos os olhos do gramado.

Ivo Sodré, um carioca franzino, jogador do Comercial, ousou dar um chapeuzinho no Pelé, que nem ligou, continuou correndo como se nada tivesse acontecido, mas a torcida colorada foi ao delírio. Aconteceu bem perto de nós e essa jogada até hoje é lembrada pelos comercialinos.

E os lances de pura magia se sucederam, teve um pênalti a favor do Comercial, o goleiro do Santos agarrou o chute forte do atacante Gil, um goiano que anos mais tarde iria jogar no Fluminense, no Botafogo e seleção brasileira, mas ele não se deixou abater pelo pênalti perdido, logo depois, após a cobrança de um escanteio, subiu mais alto que a defesa do Santos e marcou de cabeça o gol da vitória do time da minha terra, sim, senhores, o Comercial bateu o Santos de Pelé e companhia por um a zero.

Como disse acima, todo os encantos daquele jogo não foram suficientes para me fazer torcer pelo Comercial, eu teria diante de mim, logo depois daquele dia, a camisa riscada de preto e branco, time no qual eu sonhei que um dia jogaria profissionalmente – todo garoto da minha época sonhava ser jogador de futebol – sonho não realizado.

O Operário, o galo da Avenida Bandeirantes, o time do povo. Percebi então que o meu sangue não é vermelho, é preto e branco.

Passei a acompanhar o meu time até nos treinamentos no Rec-Mec do Exército, nos fundos da Vila Alba.

E a memória voa a um outro momento marcante.

O dia que a cidade parou.

Operário x Palmeiras

De forma surpreendente, o campeonato brasileiro de 1977 se aproximava das fases decisivas e o Operário tinha a chance de jogar a semifinal do torneio. Para tanto, precisava vencer o grande Palmeiras de Leão e tantos outros craques.

A diretoria do Operário fez campanha antes do jogo, movimentou a cidade, distribuiu pelas ruas e avenidas diversos apitos com a finalidade de fazer muito barulho durante o jogo, fora os fogos e papéis picados que a torcida do Operário sempre foi especialista em usar. Eu tinha doze anos e me lembro com detalhes, sei até escalar o Operário de 77: Manga, Paulinho, Silveira, Biluca e Escurinho; Edson, Roberto César e Marinho; Tadeu Santos, Everaldo e Peri, técnico Carlos Castilho. Era um timaço e não se intimidou diante do poderoso Palmeiras.  Tadeu Santos e Everaldo fizeram os gols e a torcida operariana, entre lágrimas da felicidade e socos no ar, comemorou o feito histórico: o time de Campo Grande estava na semifinal do campeonato brasileiro e enfrentaria outro gigante, o São Paulo FC. Infelizmente o Operário não conseguiu abater o tricolor paulista (teve erros de arbitragens contra o Operário) e nos despedimos daquele campeonato com uma vitória de um a zero sobre o São Paulo, resultado insuficiente para fazermos a final contra o Atlético Mineiro.

De todo modo, aquele time do Operário de 1977, está para sempre na memória e no orgulho de todo torcedor do Galo.

Já na fase de rapaz, imaginei que poderia me tornar jogador de futebol profissional, eu jogava bem, precisava tentar, mas um jogo da categoria juvenil, ironicamente contra o Operário, colocou fim nesse sonho.

Das coisas que eu conto sobre o futebol, muitos se olham entre si e imaginam que o escritor está incorporado pelo dito do poeta Manoel de Barros, mas de fato, o que vou narrar a seguir, aconteceu. Eu tinha dezessete anos e jogava no Banguzinho do bairro Taquarussu. O time disputava o campeonato municipal e íamos enfrentar o Operário na Poliesportiva. Seu Percival, dono do time, chegou perto de mim e falou: você marque o Toninho, ele joga com a camisa oito do Operário, não deixe ele jogar, marque em cima, faça falta se for necessário, puxe a camisa, faça qualquer coisa, mas não deixe o Toninho jogar.

Entramos em campo e não foi difícil identificar o tal Toninho, era uma espécie de indígena, forte como um touro. Eu tentei, juro que tentei, mas o cara era um monstro, fisicamente muito mais forte que eu e dono de uma habilidade futebolística completamente fora do comum. Perdemos o jogo, o Operário goleou, fui substituído no intervalo do jogo e sai de lá amassando feito papel estragado o sonho de um dia jogar no Operário.

Pouco tempo depois, o tal Toninho apareceu, usando outro nome, no time titular do São Paulo. Balancei a cabeça quando vi o jogo na televisão, não tinha como competir com ele, seu nome agora era Muller e já no ano seguinte estaria disputando a copa do mundo de 1986 pela seleção brasileira.

Muller, o melhor jogador nascido no Mato Grosso do Sul, um dos melhores do Brasil.

Voltemos ao Morenão...

O jogo do disco voador.

Foi numa quarta-feira à noite, ano 1982. O Morenão estava completamente lotado pela torcida do Operário. O jogo era o mais importante da rodada do campeonato brasileiro e ia passar direto na televisão para todo o Brasil. Galvão Bueno na narração, toda a equipe da Rede Globo à postos. O adversário era o Vasco da Gama, de Roberto Dinamite e Claudio Adão, contra o Operário de Arthurzinho e Pastoril. Em campo, um jogo muito disputado e o atacante Jones, do Operário, fez dois gols ainda no primeiro tempo.

De repente, surgido atrás da arquibancada coberta, um aparelho voador não identificado enorme surgiu. Não fazia barulho algum, embora alguns tenham falado num zumbido que não ouvi. Tinha diversas luzes nas extremidades e mesmo sendo à noite, deu para perceber o brilho metálico no seu entorno. Na hora, na empolgação do jogo e imaginando se tratar de um helicóptero, eu e muitos outros reclamamos de quem ficou em pé para ver melhor a aparição.

Tudo foi muito ligeiro, assim como surgiu, a bola de fogo desapareceu em segundos e restou o breu no céu de uma noite sem luar.

Só depois que o jogo acabou, com a vitória do Operário, ficamos nos perguntando: mas o que foi aquilo? Não podia ser helicóptero, era muito maior e veloz feito um raio. Alguém sugeriu que fosse um cometa, mas imaginem um cometa passando àquela altura da nossa cabeça? Teria destruído tudo. Um meteoro, talvez? Impossível, o objeto que vimos parou por segundos acima de nós e isso é impossível acontecer com um meteoro. A solução das autoridades, no outro dia, foi dizer que era um balão meteorológico lançado pela base aérea afins de pesquisas atmosféricas, mas isso não foi aceito, não existe balão meteorológico daquele tamanho e com tanto brilho.

Logo a grande aparição se tornou assunto na cidade e ganhou nome: disco voador. Sinceramente não sei, era um OVNI com certeza, mas não discuto a sua origem, nem mesmo o destino, só sei que foi muito estranho e até hoje paira sobre quem esteve naquele jogo a sombria certeza que vimos algo sobrenatural.  O objeto não foi visto apenas acima do estádio para mais de vinte mil pessoas, ele sobrevoou por diversos cantos da cidade, foi visto por milhares que ousaram averiguar as luzes no céu naquele dia inesquecível.

De resto ficou a alegria ao final do jogo, Operário dois a zero e a lembrança impagável de uma noite que quase toda a cidade viu um disco voador.

Outros tantos jogos inesquecíveis desfilaram pelo gramado do Morenão, tanto Operário quanto o Comercial enfrentaram os grandes clubes do Brasil e fizeram memoráveis confrontos entre si, é história demais, não caberiam nessa crônica.

Nos últimos tempos, o Morenão foi completamente abandonado e hoje mais parece uma peça enorme de museu, uma espécie de Coliseu de Roma.

Nessa semana, uma esperança, o governo do Estado de Mato Grosso do Sul assinou convênio com a Universidade Federal e irá administrar o Morenão.

Será a salvação?

Espero sinceramente que sim. Não se pode apagar por simples omissão um dos maiores monumentos da cidade.

Tenho outras histórias do Morenão para contar. Mas nesse exato instante, o fantasma do Manoel de Barros atravessa a porta me avisando que março acabou e o outono está ali na esquina.

É preciso pressa para pôr ponto final nesse texto.

É no outono que os escritores mentem mais...

 

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