Ação pede bloqueio de R$ 3,6 bilhões da Rumo por abandono da Malha Oeste
Pedido tenta impedir encerramento da concessão sem apuração dos danos causados ao patrimônio ferroviário de MS

Uma ação popular ajuizada em Campo Grande pede à Justiça o bloqueio de até R$ 3,6 bilhões em bens da Rumo Malha Oeste, além da responsabilização da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e da União pela deterioração da ferrovia que liga Campo Grande a Corumbá. O processo também tenta impedir qualquer relicitação, quitação ou devolução amigável da concessão antes da apuração dos danos.
RESUMO
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A ação é assinada pelo advogado Lairson Ruy Palermo e sustenta que a concessionária deixou de cumprir a obrigação de conservar a infraestrutura ferroviária, enquanto ANTT e União teriam falhado na fiscalização. Segundo a petição, a degradação atingiu um patrimônio público considerado estratégico para a economia e também para a história de Mato Grosso do Sul.
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O principal argumento apresentado à Justiça está em uma inspeção técnica da ANTT realizada entre 16 e 20 de março deste ano. Conforme os dados citados na ação, foram identificadas 1.071 irregularidades em 464,8 quilômetros da ferrovia entre Campo Grande e Corumbá — média equivalente a aproximadamente uma ocorrência a cada 430 metros.
Entre os problemas relacionados estão dormentes deteriorados, furto de trilhos, invasões da faixa de domínio, vagões sucateados e desalinhamentos da via. A ação afirma ainda que, desde 2014, apenas oito de 1.079 pontos anteriormente identificados com problemas teriam sido solucionados.
Conta de R$ 3,6 bilhões
O valor mais expressivo aparece na estimativa do custo para recuperar a ferrovia. A ação atribui à própria ANTT uma avaliação de R$ 3,6 bilhões para a recuperação da Malha Oeste e utiliza esse montante como referência para o ressarcimento pretendido.
Com base nessa estimativa, Palermo pede liminarmente a indisponibilidade de bens da Rumo até o limite de R$ 3,6 bilhões. A medida, caso concedida, poderia alcançar ativos por meio dos sistemas judiciais de bloqueio e registro patrimonial.
É importante destacar que o valor representa um pedido da ação e não uma condenação já imposta à empresa. Caberá à Justiça analisar tanto a responsabilidade atribuída aos réus quanto a dimensão de eventual prejuízo.
União e ANTT também são responsabilizadas
A ação não concentra as acusações apenas na concessionária. O autor sustenta que ANTT e União tinham obrigação de fiscalizar a execução do contrato e impedir que o patrimônio ferroviário chegasse ao estado descrito no processo.
Segundo a tese apresentada, a agência teria conhecimento dos sucessivos problemas, mas as multas e demais providências adotadas não teriam sido suficientes para obrigar a concessionária a recuperar a estrutura. A União, como poder concedente e proprietária dos bens reversíveis, também teria responsabilidade pela fiscalização.
A petição cita decisões judiciais anteriores para sustentar que a transferência das atribuições de fiscalização à ANTT não elimina a responsabilidade da União sobre o serviço ferroviário concedido.
Ação quer impedir nova concessão à mesma empresa
Outro ponto de forte impacto é a tentativa de impedir que a Rumo volte a assumir a ferrovia em eventual novo processo de concessão.
O autor argumenta que entregar novamente a malha à empresa, diante das irregularidades atribuídas à gestão anterior, poderia afrontar os princípios da moralidade e da eficiência administrativa. A petição chega a defender que o histórico de descumprimento contratual seja considerado para afastar a concessionária de um novo certame.
Ao final desse capítulo, o pedido é explícito: a ação pretende impedir atos de relicitação relacionados à empresa enquanto a responsabilidade pela deterioração da ferrovia estiver sendo discutida.
Relatório da ANTT é peça-chave
Entre as medidas urgentes, Palermo pede que a Justiça determine à ANTT a apresentação, em cinco dias, da íntegra do relatório da inspeção realizada em março. A ação requer multa diária de R$ 50 mil em caso de descumprimento.
Também solicita que a União seja impedida de assinar termo de encerramento, quitação, relicitação ou devolução amigável da concessão antes de uma vistoria judicial completa e da apuração das responsabilidades.
No mérito, a ação pretende que Rumo, ANTT e União sejam condenadas solidariamente a ressarcir os cofres públicos pelo montante necessário à recuperação integral da ferrovia, tendo os R$ 3,6 bilhões como parâmetro inicial.
Há ainda pedido de indenização por danos morais coletivos, sob o argumento de que o abandono da ferrovia não representa apenas prejuízo financeiro, mas também dano à memória e à identidade cultural de Mato Grosso do Sul. O valor dessa eventual indenização seria definido pela Justiça.
A ação popular foi datada de 27 de julho de 2026. Os pedidos dependem de apreciação judicial e as acusações apresentadas representam, neste momento, as alegações dos autores da ação, cabendo à Rumo, à ANTT e à União apresentar suas manifestações no processo.

