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Cidades

Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada

Grupos divididos em "panelas" focavam no “hype” e prestígio com escalada de violência contra vítimas

Por Bruna Marques e Geniffer Valeriano | 06/08/2026 11:01
Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada
Equipamentos eletrônicos apreendidos durante a operação serão periciados no decorrer da investigação (Foto: Polícia Civil)

A adolescente de 13 anos que morreu após ser induzida a participar de um desafio virtual foi transformada em uma "escrava virtual" por integrantes de uma organização criminosa que recrutava crianças e adolescentes pela internet, segundo a delegada titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente).

RESUMO

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Uma adolescente de 13 anos morta após ser induzida a participar de um desafio virtual foi vítima de uma organização criminosa que recrutava crianças pela internet, transformando-as em "escravas virtuais". A investigação, conduzida pela DEPCA, resultou na Operação Lívia, com seis mandados cumpridos em cinco estados, cinco adolescentes apreendidos e um adulto preso. Os suspeitos respondem por homicídio qualificado e organização criminosa.

Durante coletiva de imprensa realizada na manhã desta quinta-feira (6), a delegada afirmou que os investigados obtinham informações sobre a família, a escola e a rotina das vítimas para conquistar confiança, fazer ameaças e controlar suas ações.

“No caso da adolescente de Naviraí, podemos dizer que ela foi transformada em uma espécie de escrava virtual. Isso ocorre principalmente com meninas”, declarou.

Segundo Anne Karine, havia integrantes responsáveis por localizar possíveis vítimas em redes sociais abertas. Eles utilizavam técnicas de engenharia social e perfis falsos, com fotografias, idades e até gêneros diferentes dos verdadeiros, para se apresentarem como pessoas próximas da faixa etária das crianças e dos adolescentes abordados.

Depois do primeiro contato, as vítimas eram levadas para ambientes digitais controlados pela organização. “O objetivo era conquistar a confiança de crianças e adolescentes e levá-los para ambientes virtuais controlados pelo grupo. Constatamos que também existem crianças entre as vítimas”, disse.

Investigação aponta homicídio - A DEPCA tomou conhecimento da morte da menina no dia 22 de julho, após ser procurada pelo Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), que informou que o caso estava sendo divulgado nas redes sociais.

Após confirmar a veracidade das informações, o núcleo de inteligência da delegacia iniciou a preservação dos dados relacionados às pessoas que participaram dos acontecimentos.

“Durante a investigação, verificamos que não se tratava apenas de um suicídio, mas de um homicídio”, afirmou Anne Karine.

A polícia identificou cinco adolescentes e um adulto com participação no caso. Eles estavam localizados em diferentes regiões do país.

Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada
A delegada titular da DEPCA, Anne Karine Sanches Trevizan Duarte, afirmou que a adolescente de 13 anos foi transformada em uma "escrava virtual" por uma organização criminosa que atuava pela internet (Foto: Victória Costacurta)

A delegacia pediu à Justiça a prisão preventiva do adulto, a apreensão dos adolescentes e a expedição de mandados de busca e apreensão domiciliar.

Segundo a delegada, todos os alvos da operação tinham ligação com a morte da adolescente. Os investigados poderão responder por organização criminosa e homicídio qualificado. A apuração também poderá incluir o crime de maus-tratos contra animais.

Grupos eram chamados de “panelas” - Os grupos utilizados pela organização eram chamados pelos próprios integrantes de “panelas”. Dentro desses ambientes, transmissões e ações violentas eram tratadas como “eventos”.

Na noite da morte da menina, segundo a investigação, também foram registrados episódios de violência contra outras vítimas em diferentes estados.

Anne Karine afirmou que o administrador de uma “panela” agia como se fosse proprietário da vítima. A partir das ameaças, a criança ou o adolescente passava a acreditar que algo poderia acontecer com ela ou com seus familiares caso as determinações não fossem cumpridas.

“O administrador ou criador da ‘panela’ comporta-se como se fosse o dono daquela menina”, disse.

As “panelas” também concorriam entre si. Conforme a delegada, os integrantes chamavam de “hype” o prestígio conquistado por meio da escalada da violência.

“Quanto mais violento é o grupo, maior é o prestígio dele e mais pessoas querem entrar naquela ‘panela’. Existe, portanto, uma hierarquia”, explicou.

A quantidade de grupos identificados não foi divulgada porque parte das informações continua sob investigação. A delegada afirmou, entretanto, que existem “panelas” em todo o país.

Os integrantes se comunicavam por apelidos, chamados de nicknames, e muitas vezes não conheciam os nomes verdadeiros nem os locais onde os demais participantes moravam.

Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada
Investigados foram alvos de mandados cumpridos simultaneamente pela Polícia Civil em cinco estados (Foto: Polícia Civil)

Líder de 14 anos - Segundo Anne Karine, a organização era coordenada principalmente por adolescentes. Um dos líderes identificados pela investigação tinha 14 anos, era de Aquidauana e comandava uma das “panelas” utilizadas pelo grupo.

O adulto preso também exercia a função de administrador. De acordo com a delegada, os integrantes circulavam entre diferentes “panelas” e participavam da administração dos grupos.

O adolescente apreendido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, também administrava esses ambientes e teria transmitido à adolescente sul-mato-grossense determinações relacionadas ao crime.

Anne Karine acompanhou pessoalmente a apreensão e relatou que a família do adolescente desconhecia sua atuação na internet.

“Aparentemente, ele era um adolescente tranquilo. Porém, durante a conversa, demonstrou extrema frieza e satisfação ao explicar os detalhes do crime”, afirmou.

Os demais investigados também tinham convívio familiar. Conforme a delegada, os pais não sabiam das atividades desenvolvidas pelos filhos. “Às vezes, o perigo está dentro de casa, porque o ambiente virtual também é perigoso e precisa ser utilizado com cautela”, disse.

A delegada ressaltou, no entanto, que os pais dos autores e das vítimas não são investigados criminalmente.

Perfis de todas as classes sociais - Os integrantes identificados pertenciam a diferentes classes sociais. Segundo Anne Karine, as diferenças econômicas desapareciam dentro das comunidades virtuais, onde todos eram reconhecidos pelos apelidos utilizados.

“Não importa se têm dinheiro, onde moram ou como é a casa deles. Eles estão naquele ambiente com o mesmo objetivo de praticar violência”, declarou.

A polícia também identificou elementos relacionados a discursos de ódio contra mulheres, grupos raciais e outras parcelas da população.

Objetos e símbolos associados ao neonazismo e à supremacia branca foram encontrados durante as buscas, mas a polícia não informou em quais endereços ocorreram as apreensões. “Eles carregam um ódio generalizado. Não se tratava apenas de um dos locais de apreensão”, afirmou.

Meninas eram as principais vítimas - A investigação constatou a existência de outras vítimas, incluindo crianças. Os locais e a quantidade de casos não foram divulgados.

Segundo a delegada, meninas apareciam com maior frequência entre as vítimas submetidas ao controle dos grupos.

“O que observamos é que, principalmente nos casos de automutilação e escravidão virtual, as vítimas são meninas. Existe um componente de machismo nessa violência praticada contra essas meninas”, declarou.

Em alguns casos, as vítimas recebiam determinações para produzir marcas no corpo como demonstração de submissão ao integrante que se apresentava como seu dono.

Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada
Material recolhido durante a Operação Lívia tinha a bandeira dos confederados usada por grupos extremistas (Foto: Polícia Civil)

Também havia pagamentos de pequenos valores para a realização de determinadas ações. A delegada explicou que o principal ganho dos envolvidos, porém, era o aumento de status dentro dos grupos.

No caso da adolescente de Naviraí, não foi identificado pagamento para a realização das ações. Antes de morrer, entretanto, ela teve informações pessoais expostas pelos adolescentes.

Segundo a investigação, a divulgação desses dados aumentou a pressão porque as ameaças passaram a incluir familiares da adolescente. “Ela não sabia se algo aconteceria apenas com ela ou também com seus familiares”, disse Anne Karine.

Ordem envolveu animal de estimação - Antes de morrer, a menina também recebeu uma determinação para praticar violência contra seu animal de estimação, mas não cumpriu a ordem. Para a delegada, os integrantes tratavam as exigências impostas às vítimas como fases de um jogo.

“É como se eles estivessem jogando um videogame, no qual a vítima precisa passar de fase. Existe uma frieza muito grande, uma violência extrema e uma desconsideração absurda pela vida humana. Eles demonstram satisfação com o resultado”, afirmou.

A delegada disse que várias pessoas acompanharam e incentivaram as ações contra a menina. A quantidade de espectadores não foi informada.

Grupo migrava entre plataformas - A organização utilizava diferentes plataformas digitais e mudava de ambiente quando algum conteúdo era retirado do ar.

Segundo Anne Karine, os integrantes procuravam serviços com sistemas de moderação considerados menos eficientes para prolongar as transmissões e manter contato com as vítimas.

“Podem começar um evento em uma plataforma e, quando o conteúdo é derrubado, migram para outra na qual sabem que a transmissão permanecerá por mais tempo. Depois, voltam a se conectar”, explicou.

A delegada afirmou que houve falha de moderação na plataforma Discord durante o caso da adolescente e que a transmissão não foi interrompida.

Ela também defendeu a atuação de outras autoridades para obrigar as plataformas a cumprir a legislação brasileira e citou a possibilidade de suspensão dos serviços até que sejam feitas as adequações necessárias.

“A Polícia Civil, por si só, não pode determinar essas medidas. Outras autoridades precisam atuar”, disse.

Pressão durou cerca de duas horas – A menina já era aliciada havia algum tempo, mas o período de pressão mais intensa, na última plataforma utilizada, durou aproximadamente duas horas, conforme a delegada.

Durante esse intervalo, os integrantes teriam planejado as ações e determinado cada etapa que deveria ser cumprida.

“Eles programaram tudo e foram determinando cada passo que ela deveria seguir”, declarou Anne Karine.

A delegada explicou que esse tipo de aliciamento pode começar em redes sociais populares, sem que a vítima tenha acesso inicial a aplicativos como o Telegram.

Uma criança pode ser abordada, por exemplo, por um perfil falso no TikTok que utilize a imagem de alguém com idade semelhante. Após conquistar confiança, o criminoso conduz a conversa para outros ambientes.

As informações sobre familiares e rotinas eram obtidas exclusivamente pela internet. “A vida deles está baseada no ambiente virtual”, afirmou.

Controle parental - Anne Karine recomendou que pais e responsáveis instalem ferramentas de controle parental nos celulares utilizados por crianças e adolescentes.

Segundo ela, os adultos também devem verificar os conteúdos consumidos e observar pastas e aplicativos ocultos, já que as vítimas recebem instruções para esconder conversas e arquivos. “Isso não é invasão de privacidade. Crianças e adolescentes são seres em formação e os pais ou responsáveis precisam exercer essa responsabilidade”, declarou.

A delegada afirmou que uma análise superficial pode não ser suficiente, principalmente quando os responsáveis têm pouco conhecimento sobre tecnologia.

Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada
Materiais encontrados durante as buscas foram encaminhados para análise da Polícia Civil (Foto: Polícia Civil)

Operação Lívia - A investigação deu origem à Operação Lívia, realizada contra integrantes da organização criminosa suspeita de participação na morte da adolescente.

Foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão em endereços localizados em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará.

Equipes da DEPCA participaram diretamente das diligências realizadas no Rio de Janeiro e em Fortaleza. Nos outros locais, os mandados foram cumpridos com apoio das polícias civis estaduais.

Cinco adolescentes foram apreendidos e um adulto foi preso preventivamente. Segundo a investigação, todos mantinham ligação com o caso de adolescente. Celulares, computadores e outros equipamentos eletrônicos foram apreendidos. Todo o material foi encaminhado para Campo Grande e passará por perícia.

A análise deverá cruzar conversas, arquivos, perfis e dados de acesso para individualizar a participação dos investigados, localizar outras vítimas e fornecer elementos para novas decisões judiciais.

“Com o material recolhido, conseguimos constatar a ligação e a participação deles na data do crime. Também encontramos elementos que demonstram o nível de violência, agressividade e satisfação que eles sentiam com essas práticas”, concluiu a delegada.

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